terça-feira, 22 de março de 2022

Rua Vergueiro: estrada e o principal caminho para Santos

Sou do Ipiranga e morei perto da Rua Vergueiro. Nos meus tempos de menino, ainda a chamavam de Estrada do Vergueiro.

Essa antiga via, aberta no século 19, serviu de ligação entre São Paulo e Santos até a construção da Via Anchieta.

Seu início se dá quase no marco zero, atual Praça João Mendes, e prossegue na direção do Paraíso, Vila Mariana e Ipiranga, entrecortada por outras avenidas surgidas após as obras do metrô, linha norte-sul azul.


O nome Estrada do Vergueiro, reaparece em São Bernardo do Campo, ao passar pelo humilde bairro de Vila Balneária, que faz margem com o Riacho Grande.

A parte mais parecida com o trajeto original é a do Ipiranga, entre a Avenida Ricardo Jafet e o início da Anchieta.

Quanto à história, essa remonta ao tempo dos tropeiros que seguiam para o Porto de Santos transportando cargas no dorso de mulas especialmente o café para exportação antes da chegada do trem.

A Calçada do Lorena, aberta em 1789 na Serra do Mar, seguia a rota do caminho ensinado pelos índios ao padre José de Anchieta. 

Somente por ela se chegava ao planalto de Piratininga quando Dom Pedro viajou de Santos para São Paulo para proclamar a Independência do Brasil nas margens do Ipiranga, há 200 anos.

Em 1860, ou seja, 38 anos após o Grito, começaram as obras do novo caminho de descida e subida da serra, ao qual se deu o nome Estrada da Maioridade para lembrar a emancipação de Dom Pedro II.

Para administrá-la foi chamado José Pereira de Campos Vergueiro, filho do velho senador Nicolau Pereira de Campos Vergueiro, nobre paulista defensor da independência

Para o jovem coube o trabalho de alargar a Estrada da Maioridade para que circulassem carruagens levando pessoas, além de mercadorias e por causa disso, supõe-se, a via passou a ser chamada de Estrada do Vergueiro.

Parte do trajeto original passava pela atual Estrada das Lágrimas, cujo nome se deve a uma figueira ainda existente que servia de ponto para despedida das mães de seus filhos soldados convocados para lutar na Guerra do Paraguai.

Esta mesma ligação prossegue até São Bernardo do Campo, onde passa a se chamar Avenida Dr. Rudge Ramos.

Todo esse caminho fazia parte da Estrada do Vergueiro que prosseguia beirando a parte canalizada do córrego dos meninos, ingressava naquela que é hoje a rua Marechal Deodoro, vindo depois a Avenida José Fornari.

Como prova de todo esse trajeto tinha apenas um nome, a Estrada do Vergueiro reaparece na Vila Balneária próxima do velho Riacho Grande que hoje abastece a Represa Billings.


A Estrada da Maioridade deu origem ao Caminho do Mar, também chamado de Estrada Velha São Paulo-Santos.

Em 1922 o então presidente do Estado, Washington Luiz, mandou construir o Recanto da Maioridade casa erguida na Serra do Mar, que alguns atribuem ter sido da Marquesa de Santos que ali recebia Dom Pedro I, mas não tem nada a ver, se trata de um equívoco folclórico, porque os dois já tinham morrido fazia tempo.


O visual da Estrada Velha de Santos continua exuberante.


 Fontes: Arquivos de O Estado de S. Paulo e Diário do Grande ABC.

segunda-feira, 14 de março de 2022

No centenário da Semana de 22, gravação inédita na voz de Mário de Andrade pode ser ouvida no Spotify

“Quem guarda tem!”, dizia o repórter Saulo Gomes, com quem trabalhei na Rádio Capital, alguns anos atrás.

Suas palavras me inspiraram a fazer o mesmo e tenho resgatado em podcast, muitas entrevistas que levamos ao ar no programa São Paulo de Todos os Tempos, disponíveis agora no Spotify, em Anchor e outras plataformas.


Desta vez, entretanto, preciso avisar que já está à disposição para quem quiser ouvir, a rara e histórica gravação na qual, o escritor e poeta Mário de Andrade, mostra sua voz em um disco único de alumínio, pertencente à Universidade de Indiana, nos Estados Unidos.

Estamos no ano das comemorações do centenário da Semana de 1922, por isso se faz importante disponibilizar ao público, a edição deste programa levado ao ar em 2015, na qual podemos ouvir a voz do poeta, escritor e pesquisador musical, Mário de Andrade que canta e faz pronunciamentos.

As gravações originais presentes neste exemplar único em alumínio, estão divididas em seis faixas com músicas do folclore brasileiro, interpretadas em português pelo autor de Macunaíma e a participação da escritora Raquel de Queiroz e Mary Pedrosa, então casada com o crítico musical Mário Pedrosa.

Este encontro aconteceu no Rio de Janeiro, em julho de 1940, provavelmente na casa de Raquel de Queiroz.

A descoberta foi anunciada em 18 de abril de 2015, pelo Instituto de Estudos Brasileiros da USP, através do pesquisador Xavier Vatin, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

As gravações foram feitas pelo linguista norte-americano Lorenzo Turner, na época em que Mário de Andrade morou no Rio.

Durante a década de 1930, Mário viajou pelo Brasil para pesquisar o nosso folclore e suas músicas. 

Foi quando descobriu e decorou muitas dessas cantigas populares.

Em Catolé do Rocha, cidade da Paraíba, no sertão nordestino, Mário de Andrade recolheu uma canção que os mendigos cantavam ao pedir esmolas.

O próprio Mário, interpreta esta música na gravação histórica de Lorenzo Turner, a canção se chama “Deus lhe pague a Santa Esmola.”


Uma outra cantiga chamada “Zunzum”, gravada por Mário de Andrade e Mary Pedrosa, ainda é cantada nos festejos de roda no interior de Minas Gerais.

O nome e a letra, entretanto, foram modificados e a canção agora chamada “Peixe Vivo”, faz lembrar o ex-presidente Juscelino Kubistchek.

Raquel de Queiroz foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras. Natural de Fortaleza, no Ceará, faleceu em novembro de 2003.

Amiga e confidente de Mário de Andrade, o recebia costumeiramente em sua casa quando este fixou residência no Rio de Janeiro.

Raquel também deixou registrada uma melodia chamada "Aribu", que aprendeu com um palhaço de circo, no Ceará.

No outro lado do disco de alumínio, o linguista Lorenzo Turner gravou Mário de Andrade, Raquel de Queirós e Mary Pedrosa respondendo perguntas de um entrevistador, possivelmente Mário Pedrosa.

Estes depoimentos comprovam que a voz, é mesmo de Mário de Andrade, ao explicar como desenvolveu as pesquisas sobre o folclore brasileiro e como encontrou as canções dos mendigos.

Se trata de um documento sonoro histórico, até então inédito no rádio, levado ao ar em 2015, no programa Estadão Acervo, produzido pela jornalista Valéria Rambaldi.


O disco em alumínio pertencente à Universidade de Indiana, roda em 78 rpm e foi lançado sem finalidade comercial e sim acadêmica.

Daí o fato de as músicas serem cantadas sem acompanhamento.

Por ser um material raro que a universidade norte – americana disponibilizou na internet, nossa produtora fez na época todos os trâmites para que apresentássemos em primeira mão aos ouvintes.

Para ouvir agora essas gravações, acesse o nosso podcast que leva o nome São Paulo de Todos os Tempos, disponível no Spotify.

Se preferir clique no link abaixo:

 Ouça a voz de Mário de Andrade #118 - São Paulo de Todos os Tempos | Podcast no Spotify

 Ou:

Ouça a voz de Mário de Andrade #118 by São Paulo de Todos os Tempos (anchor.fm)

Percebeu? Quem guarda, tem.

 

sábado, 5 de março de 2022

Foto histórica mostra descida da serra de Paranapiacaba a Cubatão em linha de trem desativada há décadas

Encontrei essa foto no Facebook, postada por uma pessoa que não consegui localizar, mas por ser histórica estou postando aqui.

A fotografia foi tirada por alguém no meio da mata para mostrar a descida da Serra de Paranapiacaba por um trem de passageiros da pioneira Estrada de Ferro São Paulo Railway, inaugurada em 1876. 

Esta ferrovia depois chamada Santos - Jundiaí, possibilitou o desenvolvimento do Brasil por facilitar as exportações de café que seguiam do interior de São Paulo com destino ao Porto de Santos.

Após a chegada do trem, a capital paulista ganhou o título de "cidade que mais cresce no mundo" e o transporte de passageiros também cresceu. 

Um abismo de 796,6 metros separa o planalto de Piratininga das praias do litoral e para transpor essa distância foram construídos viadutos por um trajeto curto, de apenas 7,5 quilômetros.

Essa obra de engenharia é considerada monumental para a tecnologia que havia na época, mas infelizmente não pode mais ser utilizada.

Os alicerces de ferro que sustentam os trilhos estão corroídos pela maresia e os dormentes dos trilhos estão podres e reconstruir tudo sairia caro demais.

Daí nossa dúvida em saber se a foto era verdadeira porque os vagões que aparecem não são os originais, somente o locobreque que segue à frente.




Encaminhei a foto para o jornalista Ademir Medici, responsável pela coluna Memória, do Diário do Grande ABC, e
le a repassou para o pesquisador Adalberto Dias de Almeida, um estudioso do sistema ferroviário.

Adalberto confirmou ser a foto verdadeira (tirada  provavelmente em 1974 com filme colorido), antes da implantação de um outro sistema ferroviário chamado cremalheira.

O especialista explicou que a máquina que segue à frente não se chama locomotiva e sim locobreque, pelo fato de servir como contrapeso para que os vagões sejam conduzidos por cabos de aço movimentados por locomotivas fixas.

Os vagões que aparecem são mais recentes, de tecnologia norte-americana, montados em aço inox pela Mafersa, empresa que funcionou de 1944 até 1999, no bairro da Lapa, sob administração da Rede Ferroviária Federal.

São vagões elétricos que circulam até hoje pela CPTM sem necessidade de serem puxados, mas como não havia eletricidade ao longo do trecho serra, tinham que ser movimentados pelo sistema funicular.


O funicular de Paranapiacaba se manteve em funcionamento como atração turística até 1994, quando teve suas operações encerradas.


A diminuição na demanda do transporte de cargas por ferrovias transformou o funicular em história.

De vez em quando aparecem uns malucos que fazem passeios pisando nesses dormentes podres e o risco de morrer, é enorme.


O acesso é proibido, mas há sempre os que burlam a lei e se arriscam.

Disso tudo, veio o nosso interesse em compartilhar a fotografia histórica com o prestimoso Ademir Medici, repórter memorialista da região do ABC, sempre atento ao nosso passado cheio de novidades.

Seguem mais fotos dos trens de Paranapiacaba, um distrito de Santo André.








quarta-feira, 2 de março de 2022

Depois do carnaval vem a quaresma com suas crenças, crendices e chatices

Os cristãos chamam de quaresma o período de 40 dias que vai da quarta-feira de cinzas até o domingo de páscoa.

Essa palavra vem do latim e traduzida em sua forma literal significa, “quadragésima”.

Temos ouvido muito no Brasil a palavra quarentena, por causa da pandemia, que não significa necessariamente 40 dias de isolamento para a covid-19.

Antigamente, quando se suspeitava da existência de alguma doença entre passageiros ou tripulantes de um navio, esse ficava retido 40 dias ao largo do porto, sem atracar.

Diz a religião que todos os pecados praticados, inclusive durante o carnaval, podem ser compensados na quaresma, se houver algum tipo de sacrifício, também chamado de mortificação.

Existem pessoas que ainda guardam o costume de não comer carne nas sextas-feiras durante a quaresma.

No passado as tradições eram mais rígidas e algumas, é bem verdade, exageradas, a ponto de se tornarem chatas.

Se alguém lembrasse de uma música de sucesso no carnaval e saísse cantarolando nas ruas ou mesmo dentro de casa, durante a quaresma, cometia pecado.


Em algumas residências se ralhava com alguém que ficasse se admirando diante do espelho nesse período.

As moças que usavam maquiagem ou perfumes em demasia eram chamadas à atenção, por serem sinais de vaidade.

Namorar, dançar, assobiar, ou demonstrar alegria na quinta ou sexta-feira da paixão, se constituía em falta de respeito a Jesus por ele ter passado esses dois dias em profundo sofrimento.


Algumas crendices sobrevivem: Em Joanópolis, cidade do interior paulista, alguns moradores ainda dizem que uma mula sem cabeça ronda a cidade durante a quaresma.

Em Piracaia, na mesma região, senhoras que moram lá me disseram terem visto lobisomens que sempre aparecem às sexta-feiras perto da meia-noite.

Mesmo em São José dos Campos, cidade industrializada e populosa, um grupo de pessoas conhecido como “Louvadores de Almas”, mantém a tradição religiosa de bater de casa em casa durante a quaresma para rezar com as famílias.

Em Petrolina, estado de Pernambuco, ainda ocorre algo horripilante: Pessoas que se sentem pecadoras, praticam durante a quaresma o autoflagelo, ou seja, ficam se batendo com um chicotinho.


Todos os anos, durante a primeira hora da quinta-feira da paixão, alguns séculos de história percorrem as ruas da cidade de Goiás, antiga capital do estado, onde nasceu a poetisa Cora Coralina.

Pessoas vestidas de branco, encapuzadas, saem carregando tochas até a igreja de Nossa Senhora da Boa Morte onde uma multidão as aguarda.

Este ritual conhecido como Fogaréu de Goiás, traz consigo uma tradição ibérica do século 17.

Não tem nada a ver, mas a roupagem é assustadora, faz lembrar a Ku Klux Klan, organização de extrema-direita dos Estados Unidos que defende a supremacia branca e pratica uma espécie daquilo que pode ser chamado de nacionalismo exacerbado.

A tradição seguida pelos goianos, é meramente cristã e chegou ao Brasil inspirada nas procissões realizadas em Lisboa, Sevilha e Toledo, todas quintas-feiras santas, mas durante o dia, antes da cerimônia do lava-pés.

Tal procissão na cidade de Goiás, começou em 1745, trazida pelo padre português Perestrello Espíndola.


Essas proibições durante a quaresma de passado recente do século 20, se constituíam em tremendas chatices como, por exemplo, deixar de ligar aparelhos de rádio ou televisão na sexta-feira santa.

O respeito era tamanho que até emissoras nessas datas religiosas, costumavam mudar sua programação para levar ao ar o dia todo, programas religiosos com músicas sacras ou clássicas.

Todos esses sacrifícios terminavam no sábado de aleluia, dia da malhação de Judas, brincadeira considerada ofensiva e de mau gosto.

O mais importante é que depois quaresma, vem a Páscoa! Graças a Deus!



Obs: Valéria Rambaldi - jornalista colaborou na pesquisa

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Confissões de um vereador: Livro revela verdades sobre a cidade de São Paulo e faz desabafo

“São Paulo é um lugar onde a luta por soluções nunca termina”, afirma o médico e ex-vereador Gilberto Natalini, em seu livro "Lutas Sem Fim", lançado em 2021. 

No final do ano passado, compareci como convidado a um evento presidido pelo vereador Eliseu Gabriel, em comemoração aos 87 anos do bairro Itaim-Bibi e Natalini também estava por lá.

Na saída do encontro perguntei ao ex-vereador os motivos que o levaram a não tentar a reeleição para a Câmara Municipal na eleição de 2020.


Gilberto Natalini explicou que não houve uma única razão, mas uma série de acontecimentos alguns dos quais colocados em seu livro recém-lançado.

Na obra ele faz um balanço de suas atividades durante as cinco legislaturas em que exerceu o cargo de vereador, entre 2002 e 2020.

Nestes 18 anos estiveram no comando da prefeitura: Marta Suplicy, José Serra, Gilberto Kassab, Fernando Haddad, João Doria e Bruno Covas.

Suas áreas preferenciais de atuação na Câmara Municipal foram saúde pública e meio ambiente.

O livro tem linguagem pesada e às vezes confusa, mas trata de assuntos importantes como a "Carta de Atenas", elaborada em 1933, após um congresso que reuniu na Grécia arquitetos e urbanistas do mundo todo.

Na ocasião foram estabelecidos critérios para o crescimento harmônico das cidades, mas houve falhas em propostas importantes como a preservação da higiene dos rios e regras relacionadas ao desmatamento e uso do solo.

Os equívocos da "Carta de Atenas" ajudam explicar os erros cometidos em São Paulo que fizeram da metrópole um lugar inóspito e estéril em vários aspectos, inclusive no que diz respeito às relações humanas.

Gilberto Natalini está prestes a completar 70 anos, além de político, é médico e ambientalista, por isso no livro o tempo todo ele aborda questões científicas e técnicas. Sobre o efeito estufa, ele escreve:

“... Se trata de um processo iniciado no século 19, de aumento da temperatura média dos oceanos e da atmosfera da terra, causado por emissões de gases lançados da queima de combustíveis fósseis, desmatamentos e mudanças nos costumes que passaram a observar a natureza como material de exploração...”


A cidade de São Paulo com o seu trânsito caótico, colabora para o aumento do efeito estufa no planeta sem a devida compensação ambiental.

Foram transcritos dados interessantes que dizem respeito à Mata Atlântica: 

“O bioma ocupa 15% do território brasileiro, se concentra na costa, passa por 17 estados do país e sua extensão hoje representa apenas 12,4% da área original. A cidade de São Paulo abriga somente 17% dos remanescentes florestais originais...


“... No início do século 20, a Mata Atlântica cobria 69% da área ocupada pelo Estado de São Paulo, hoje restam apenas 13,7% desse total.

De acordo com o Atlas dos Remanescentes Florestais, nos últimos 30 anos foram desmatados mais de 183 mil hectares de Mata Atlântica no estado paulista.

Dos 645 municípios existentes no estado, 574 possuem cobertura de Mata Atlântica, mas para nenhum deles existe uma solução que traga tudo que foi perdido de volta...”

Como conclusão o livro define:

“... O que nos resta é realizar atividades no sentido de manter o que ainda existe e para isso se faz necessário modificar formas de comportamento, além de se conscientizar a todos sobre a necessidade de preservação permanente. Todavia se sabe que o aquecimento global e suas consequências deverão continuar século 21 adiante...”


“... Poderemos ter, elevação dos mares e o declínio da biodiversidade que envolve fauna e flora, além do agravamento em larga escala dos índices de fome, epidemias e conflitos violentos pelo fato de muitos perderem o que possuem por causa de sucessivas e bruscas mudanças ambientais...”



Enfim, valeu a pena ter lido o livro “Lutas Sem Fim”, e de ter comparecido em dezembro ao evento de aniversário do Itaim-Bibi. 

Ao Gilberto Natalini, embora com certo atraso, parabéns pelo lançamento!

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Os hotéis de São Paulo e as histórias que poucos conhecem

São Paulo é campeã na qualidade e quantidade de hotéis em relação às demais capitais brasileiras.

A cidade perdeu recentemente o Maksoud Plaza, mas recebeu em troca o Rosewood São Paulo, primeiro hotel seis estrelas no Brasil nas dependências do complexo Cidade Matarazzo que terá até árvores nas varandas.


Pesquisas internacionais sempre mostram São Paulo entre as cidades campeãs em hospitalidade no mundo, graças à boa receptividade de seus hotéis.

Na capital paulista funcionam cerca de 1350 estabelecimentos deste tipo que recebem anualmente mais de 2,3 milhões de hóspedes.

A pandemia fez diminuir a quantidade de viagens, mesmo assim os números ainda colocam a Pauliceia na liderança do País no recebimento de turistas.

Parece surpreendente porque não há praias, o forte de São Paulo é o turismo de negócios, e mesmo aquele que vem a trabalho sempre encontra tempo para desfrutar de algum atrativo.

Existem agências que promovem pacotes de visitas a lugares como as arenas esportivas de futebol, jóquei clube, autódromo, galerias de arte, museus, além é claro, dos restaurantes.

São Paulo é a única cidade a oferecer pratos que constam no cardápio de 48 nações, por isso é chamada de “capital mundial da gastronomia”.


A história da hospitalidade paulistana, entretanto, mostra um passado nada recomendável em termos de bom-acolhimento e respeito aos turistas ou visitantes. 

No século 17, mais propriamente em 1620, existia apenas uma cama pertencente ao morador Gonçalo Pires. O restante da população dormia em redes ou simplesmente no chão.

Tal situação é descrita no livro “No Tempo dos Bandeirantes”, do cronista Belmonte, publicado em 1939. A obra é repleta de curiosidades a respeito da Piratininga do Brasil colonial.

A Câmara de Vereadores obrigou Gonçalo Pires a emprestar sua cama para uma autoridade que viria de Portugal.


Depois que o hóspede foi embora e sua cama devolvida, Gonçalo Pires apresentou um protesto por escrito à câmara municipal, conforme registro em atas da edilidade paulistana.

Se decidiu então implantar uma casa para hospedagens e um cidadão, cujo nome era Marcos Lopes, ficou encarregado de ser o hospedeiro oficial.

Seu atendimento, entretanto, foi considerado rudimentar pelos hóspedes e por tal motivo o serviço não seguiu adiante.


A falta de lugares para descanso dos viajantes, prosseguiu até a primeira metade do século 19, conforme relato do francês Auguste Saint-Hilaire em seu livro, “Visita à Província de São Paulo”.

O autor descreve que em 1819, morava no Largo do Piques um português chamado João Bexiga, que recebia em sua residência pessoas que quisessem dormir e não cobrava nada, pedia dinheiro apenas para cuidar dos cavalos.

Após passar uma noite nesse lugar, a conclusão de Saint-Hilaire foi que os cavalos acabavam sendo mais bem tratados que seus  proprietários, porque as acomodações da casa de João Bexiga eram péssimas.


Em 1826, houve uma leva de imigrantes alemães recém-chegados ao Brasil que por ordem de Dom Pedro I, vieram parar em São Paulo.

Ao chegarem se constatou que não havia lugar para eles e o grupo de alemães permaneceu esparramado pelas ruas durante alguns meses uma situação quase semelhante à dos sem-teto de hoje.

Só depois de algum tempo, é que o Senador Vergueiro teve a ideia de mandá-los para Santo Amaro onde fundaram uma colônia alemã que hoje é nome de um bairro na região de Parelheiros.


Bares noturnos surgiram a partir do ano seguinte à vinda dos alemães, 1827, por causa da implantação dos cursos jurídicos no Largo São Francisco e jovens estudantes passaram a circular pela cidade até as altas horas.

Hotéis de verdade, mas ainda precários, vieram só depois de 1850 e o primeiro deles foi o Hotel Paulistano.

Em seguida foram inaugurados os hotéis do Comércio e Universal, além deles o Hotel Quatro Nações tornou-se bem conhecido, tendo modificado seu nome depois para Hotel de França.



Mais adiante, em 1878, foi inaugurado o Grande Hotel, na Rua São Bento, cuja foto aparece acima. Em pouco tempo o lugar passou a ser considerado, o melhor do Brasil. 

Seu proprietário, Frederico Glete, recebeu em 1886, com toda pompa e circunstância, a famosa atriz francesa Sarah Bernhardt, uma das primeiras mulheres no mundo das artes cênicas a obter projeção internacional.


Jornais da época, como o Correio Paulistano, noticiaram que após sua apresentação em uma noite chuvosa no Teatro São José, estudantes da Faculdade de Direito acompanharam a atriz até a entrada do hotel de um modo cavalheiresco nunca antes visto.



Para que a diva não sujasse os sapatos na terra molhada, os jovens colocaram seus paletós no chão para que a estrela pudesse caminhar sobre eles até a entrada do hotel. 

Sarah Bernhardt mostrou-se lisonjeada com a atitude e ao agradecer, lançou beijos a todos em meio ao burburinho de vozes, assovios e aplausos.

A atriz do século 19, de tão famosa, virou marca de sabonete. Esta é apenas uma entre tantas histórias de São Paulo em seus primórdios.

Segue abaixo um anúncio de jornal sobre o show de Sarah Bernhardt.



 

Livros: 

Belmonte/No Tempo dos Bandeirantes/Editora Melhoramentos/21a. edição/São Paulo/1998

De Saint-Hilaire, Auguste/Visita à Província de São Paulo/Garnier Editora/2a edição/São Paulo/2020

Obs: Outras informações foram obtidas na entrevista com a professora Raquel D'Alessandro Pires, da Faculdade de Hotelaria da Unip e da Unisa – Sorocaba, autora da dissertação, Hotéis da Cidade de São Paulo, história e trajetória (1889-1971) em 2006.

Ouça a entrevista em podcast acessando: 

https://open.spotify.com/episode/0FBeNfBBp7NNytMSIbhqy2?si=NkTuA23sQOiqbBXbNY6qCA&utm_source=whatsapp&nd=1


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Monteiro Lobato x Anita Malfatti e muito mais sobre a Semana de 22

Fevereiro de 1922 foi o mês em que aconteceu a Semana de Arte Moderna que aos poucos modificou pensamentos em relação à concepção do que é arte no Brasil. O movimento modernista não foi revolucionário, mas transformador e o centenário deste encontro histórico, se dará no domingo, 13 de fevereiro de 2022.

Todos nós sabemos que nada surge de uma hora para outra, já existia na Europa ações culturais diferenciadas dos moldes tradicionais e no Brasil, em 1917, uma exposição de pinturas levantou discussões que culminaram na elaboração da Semana de 22, em resposta aos intelectuais conservadores de então.




A “Exposição de Pintura Moderna Anita Malfatti”, inaugurada no dia 12 de dezembro daquele ano, reuniu em um salão do centro de São Paulo, 53 quadros da artista que convidou para a mostra outros pintores com os quais compartilhara experiências nos Estados Unidos.

Logo na primeira semana, 8 pinturas de Anita foram vendidas, mas eis que, numa quinta-feira, 20 de dezembro de 1917, aparece nas páginas de “O Estado de S. Paulo", um texto avassalador assinado por ninguém menos que Monteiro Lobato.



Cronista e escritor já bem lido e conhecido, Lobato na coluna, até que tentou preservar Anita de sua revolta contra os modernistas, naquele tempo chamados também de futuristas.


Na crônica buscou mostrar simpatia à pintora, mas a deixou de “saia justa” ao escrever que os modernistas,
“vêm anormalmente a natureza e a interpretam à luz das teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva”.

Quanto a Anita ele diz: “Essa artista possui um talento vigoroso, fora do comum...Entretanto, seduzida pelas teorias do que ela chama arte moderna, penetrou nos domínios de um impressionismo discutibilíssimo, e pôs todo o seu talento a serviço duma nova espécie de caricatura. Sejamos sinceros: futurismo, cubismo, impressionismo e tutti quanti não passam de outros ramos da arte caricatural...”

O ataque do escritor de Taubaté mexeu com aquilo que a pintura de Anita Malfatti possui de mais valioso, a fuga do desenho formal de rostos e dimensões. Isto pareceu ousado demais para o pensamento conservador da época do qual o próprio Lobato fazia parte. 




Mais à frente no texto    , o escritor enfatiza: “...não fosse profunda, a simpatia que nos inspira o belo talento da sra. Malfatti, e não viríamos aqui com esta série de considerações desagradáveis.”

E prossegue: “Como já deve ter ouvido numerosos elogios à sua nova atitude estética, há de irritá-la como descortês impertinência, a voz sincera que vem quebrar a harmonia do coro de lisonjas. Entretanto, se refletir um bocado, verá que a lisonja mata e a sinceridade salva...”




Ainda que na tentativa de preservar Anita, Monteiro Lobato na verdade a deixou desconcertada, a ponto dela receber de volta 5 dos 8 quadros vendidos. O artigo foi grosseiro, de uma raiva descabida em relação aos modernistas e nunca houve alguém que testemunhasse a visita dele à exposição, ou seja, criticou sem ver.

A exposição começou perto do natal, depois vieram as festas de ano novo e uma resposta ao autor, foi apresentada quase um mês depois, por Oswald de Andrade, assinando com as iniciais, O.A. nas páginas do "Jornal do Comércio".

Ao fazer a defesa da artista, Oswald elogiou o pioneirismo e originalidade das pinturas, só que em 18 de janeiro de 1918, um dia após o término da exposição.



Uma discussão entre de Mário de Andrade e Monteiro Lobato, foi retratada na minissérie, “Um Só Coração”, de Maria Adelaide Amaral, levada ao ar em 2004 pela Rede Globo. A conversa suscitou no rompimento entre os dois.




Monteiro Lobato manteve-se irredutível em seu parecer, a ponto de relançar a crítica em seu livro, "Ideias de Jeca Tatu", de 1919, com o título “Paranoia ou Mistificação”.

Em resposta ao que consideravam intransigência do escritor, os empresários e mecenas Paulo Prado, Rene Thiollier e outros paulistanos endinheirados da época, decidiram financiar a criação da Semana de Arte Moderna de 1922. Para isso escolheram o espaço cultural mais caro, requintado e desejado da cidade, o Teatro Municipal de São Paulo.

Ao relembrar os 100 anos da Semana de 1922 tenho dedicado meu tempo a refletir as razões pelas quais ainda não surgiram no Brasil do século XXI, mentes criadoras que possam trazer inovações aos nossos meios culturais, artísticos e musicais como aconteceu na São Paulo de um século atrás.

Aprecie abaixo duas outras obras da artista plástica Anita Malfatti.

O Farol - 1917
Homem Amarelo - 1917

Leia nosso artigo: https://blogdogeraldonunes.blogspot.com/2022/01/brasil-2022-segue-parado-na-linha-do.html

Fontes:

Monteiro Lobato/Artes e Artistas /O Estado de São Paulo/20/12/1917

Portal Outras Palavras: A exposição de Anita Malfatti - 26/04/2014

Portal Toda Matéria: Anita Malfatti por Daniela Diana, professora licenciada em Letras

Andrade, Oswald/Um homem sem profissão/2ª. ed. Rio de Janeiro/Civilização Brasileira/1976

Lobato, José Bento Monteiro/Ideias de Jeca Tatu/35a ed. São Paulo/Editora Brasiliense/1973