domingo, 17 de maio de 2026

O final comovente das transmissões da Rádio Eldorado

Nunca o anúncio do final de uma emissora causou tamanho impacto quanto este: A Rádio Eldorado saíra do ar à zero hora do dia 15 de maio de 2026.

Nem mesmo a Tupi, pioneira na mídia televisiva, que encerrou as atividades, em 1980, mobilizou tantos para pedir a volta ao ar de uma emissora.

No caso da TV Tupi o desenlace já era esperado, o canal fundado por Assis Chateaubriand estava afundado em dívidas.

A Rádio Eldorado, por sua vez, sempre foi deficitária porque surgiu com a missão de divulgar cultura em vários segmentos, pautada na credibilidade do jornal O Estado de S. Paulo.

O Estadão, inclusive, anunciou em primeira página a inauguração da emissora, em 4 de janeiro de 1958.

Durante seus 68 anos de existência a Eldorado garantiu ao Estadão o retorno afetivo de um público ouvinte formador de opinião, a rádio servia ao jornal o custo benefício de sua credibilidade.

Professores universitários de várias áreas, intelectuais, acadêmicos, artistas, cientistas, enfim, até mesmo políticos demonstravam nas conversas serem ouvintes da Eldorado.


Ao longo das décadas todos os executivos que passaram pelo comando do Grupo Estado souberam respeitar e manter a emissora por esses aspectos.

Desta vez, entretanto, faltou a sensibilidade aos atuais comandantes do Estadão.

Um de seus principais executivos é do Rio de Janeiro, nada contra a cidade maravilhosa.

O motivo é que ondas da Eldorado não chegavam ao Rio e, por conseguinte, este executivo nunca ouviu e nem quis ouvir a emissora, uma pena porque no RJ também se faz rádio de qualidade.


Não dá para chamar este executivo de insensível, mas podemos classificá-lo como desinformado, para ele um pouco de história da radiofonia paulista.

Durante 25 anos, as transmissões pelo AM 700 levavam ao público, programas cujos locutores de vozes sóbrias, apresentavam músicas de qualidade.  

O jornalismo também acontecia nessa época com notícias redigidas na própria redação de O Estado de S. Paulo.

A audiência sempre foi pequena, mas fiel, os diretores sabiam disso e o jornal prosperava, em parte, por causa da rádio.


Em 1982 surgiu o projeto Nova Eldorado AM. sob o comando de João Lara Mesquita.

Ele trouxe inovações também para a Eldorado FM na frequência 92,9 MHz.

A Eldorado passou a dar exemplos para as emissoras concorrentes pela capacidade de mobilizar a opinião pública.

Uma campanha pela despoluição do Rio Tietê foi realizada e através de um abaixo-assinado se colheu mais de 1 milhão e duzentas mil assinaturas.

A mobilização se deu em um tempo em que ainda não havia internet e sensibilizou o governo do Estado que implantou o Projeto Tietê.


Antes a Eldorado tinha trazido novidades, como o repórter aéreo em uma época em que ninguém sonhava com a existência do Waze ou do Google Maps.



Graças ao telefone celular, surgiram os “ouvintes-repórteres” e a Eldorado passou a fazer um verdadeiro “show” de reportagens em torno da Grande São Paulo em todos os finais de tarde.



Partiu da Rádio Eldorado a iniciativa de defender o fim da obrigatoriedade de retransmissão de “A Voz do Brasil”.

Todos os dias no horário das 19 horas, as rádios de todo o país tinham que interromper sua programação para transmitir um noticiário oficial existente desde os tempos da Ditadura Vargas.

João Lara Mesquita passou a questionar essa obrigatoriedade no sentido de garantir a liberdade de programação no horário em que ouvinte parado no trânsito mais precisava.

Todas as concorrentes abraçaram a ideia na época, menos a Jovem Pan.

Atualmente, o programa oficial continua sendo de apresentação obrigatória, mas seu horário foi flexibilizado.


Depois da saída de João Lara Mesquita, em 2003, a Rádio Eldorado seguiu realizadora.

Propostas como o “Pintou Limpeza” para a reciclagem do lixo doméstico a partir de cada domicílio que hoje, é uma prática cotidiana surgiu pelos microfones da emissora.

Em 2008, quando a Rádio Eldorado comemorou 50 anos, a prefeitura concedeu um terreno nas margens do Rio Pinheiros, para o plantio das 186 árvores.

Ao lugar, na época, deram o nome Bosque Eldorado, daquelas árvores se iniciou o que é hoje, o Parque Bruno Covas.


Em 2011 o projeto Rádio Estadão/ESPN transferiu a Rádio Eldorado para a frequência 107,3 MHz, arrendada junto à Fundação Brasil 3000.

Com o fim da Rádio Estadão as frequências em AM 700 e FM 92,9 foram vendidas, mas a Rádio Eldorado prosseguiu na FM 107,3, bem no canto do dial, mesmo assim com ouvintes fiéis.

O “Jornal Eldorado” voltou ao ar em 2016, sob o comando de Haisem Abaki e a participação de Carolina Ercolin.

As boas propostas continuaram como “O Verde é Pop”, do botânico Ricardo Cardim.

O quadro “Vencer Limites” com Luiz de Souza Ventura, voltado ao segmento PcD ganhou destaque na programação dos 107,3. Nunca houve no rádio alguém tão bem informado sobre este assunto quanto o Ventura.

A Eldorado FM dirigida por Emanoel Bonfim manteve uma programação musical diferenciada das demais.

Graças a tantas propostas inovadoras, a emissora continuou pequena, mas versátil.

Mais recentemente surgiu uma nova frase, “Não é algoritmo, é Eldorado”, para mostrar sua independência musical.  

A emissora fez questão de manter o slogan dos tempos de João Lara Mesquita, “ A Rádio dos Melhores Ouvintes”, nada mais verdadeiro, por isso permanecerá nas lembranças.

Mesmo assim todos foram pegos de surpresa, funcionários e ouvintes ficaram perplexos quando veio a decisão abrupta do Grupo Estado. 

O Estadão jogou pelo ralo uma pedra preciosa preservada durante 68 anos, quatro meses e 10 dias.

O anúncio do encerramento das operações mobilizou ouvintes como a artista Nina Vogel que organizou um abaixo assinado e promoveu uma manifestação maravilhosa na Avenida Paulista.

Rádio nenhuma obteve manifestação popular tão espontânea quanto essa, ocorrida na tarde agradável de um domingo, 3 de maio de 2026.

Depois disso, no fim de semana seguinte, mesmo diante da fria garoa paulistana, o público se reuniu na “Casa de Francisca”, um espaço cultural existente no centro da cidade para pedir: "Volta Eldorado!"

Na noite de 14 de maio a programação da Eldorado foi especial com depoimentos dos atuais funcionários, como mostra a foto, e daqueles que trabalharam na emissora ao longo das décadas.

A Rádio Bandeirantes ocupa agora a frequência 107,3 e para conquistar novos ouvintes, criou um estúdio multimídia. Parabéns! Parabéns!

O Grupo Estado segue parado no tempo com seu jornal impresso ultra conservador e o Portal Estadão de colunistas de uma só tendência.

A Rádio Eldorado era o que havia de mais inovador e democrático no Grupo Estado e, respeitosamente, levava ao ar todas as manhãs a "Opinião do Estadão", na voz da locutora Andrea Machado.

Os executivos do Estadão não assimilaram o crescimento da mídia radiofônica, após a pandemia, a partir das Redes Sociais

Pesquisas recentes do setor de áudio conduzidas pela Kantar IBOPE Media, indicam que o rádio segue presente no cotidiano das pessoas.

Em âmbito nacional o alcance chega a atingir cerca de 79% dos brasileiros.

A média expressiva de quase 4 horas por dia à escuta do rádio, é uma realidade, diz a pesquisa.

Este resultado é significativo para a cidade de São Paulo onde a população perde horas paradas no trânsito ouvindo rádio dentro de seus automóveis.

Boas-vindas à TMC - Transamérica e à Nova Brasil FM que criaram equipes de jornalismo.

Saudações à CBN, Rádio Bandeirantes e Band News por manterem acesas as chamas do jornalismo feito no rádio.

O Estadão perdeu um nicho de mercado que na verdade nunca soube explorar como deveria.

Como diz a canção; “...o tempo passou na janela e só Carolina não viu”.






quinta-feira, 23 de abril de 2026

Siga o caminho das Índias ao lado de Pedro Álvares Cabral

O que aconteceu durante a viagem de ida e volta às Índias sob o comando de Pedro Álvares Cabral? Embarque nesta nau, siga com a gente e leia até o fim, essa história daria um bom filme.

A chegada às Índias se deu em Calecute e foi seguida de incidentes graves que resultaram na morte de Pero Vaz de Caminha, em 16 de dezembro de 1500.

Para quem não teve a oportunidade de ler a primeira parte dessa história, acesse em nossas postagens:

 Blog do Geraldo Nunes: Foi mesmo Pedro Álvares Cabral quem descobriu o Brasil? Há controvérsias

A expedição de Cabral zarpou de Lisboa em 9 de março de 1500 para alcançar as Índias, com uma escala a mais no roteiro.

Já se sabia que o Brasil existia, a vinda foi necessária para sacramentar o Tratado de Tordesilhas, feito com a Espanha dois anos antes.

Após “descobrirem” oficialmente o Brasil, uma das 13 caravelas retornou a Portugal levando a carta de Pero Vaz de Caminha ao rei Dom Manuel.

O texto de Caminha aponta que foram 10 dias maravilhosos em terras brasileiras, de 22 de abril a 2 de maio de 1500.

A carta transcrita para o português atual por Rubem Braga, em 1968, é rica em detalhes.

“...Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios por essas árvores e deles verdes e outros pardos, grandes e pequenos, de maneira que me parece que haverá muitos...algumas pombas-seixas, e pareceram-me bastante maiores que as de Portugal...

Alguns diziam que viram rolas; eu não as vi. Mas, os arvoredos são muitos e mui grandes, e de infindas maneiras, não duvido que por esse sertão haja muitas mais aves!"

Pero Vaz de Caminha não retornaria a Lisboa, acabou sendo morto em Calicute, quando a feitoria instalada por Cabral acabou sendo atacada por um exército árabe.

Após partir de Porto Seguro a frota de Pedro Álvares Cabral navegou pelo menos mais 1.000 km pela costa brasileira.

A riqueza dos contornos e a variada vegetação deixou a certeza de que não se tratava de uma ilha, mas de um imenso continente ao qual se daria o nome, "Terra de Santa Cruz".

A esquadra, enfim, se afasta do litoral e em 23 de maio de 1500, ao cruzar o Cabo das Tormentas, no sul da África, enfrenta uma horrível tempestade.

O desespero toma conta dos tripulantes. “Se queres aprender a orar, faça-te ao mar”, e assim seguiu-se à risca o velho provérbio português.

Cinco navios afundaram e morreram mais de 300 homens, entre eles o grande navegador português Bartolomeu Dias.

Pouco representativo em sua época, por não ter sangue nobre, hoje é venerado pelos portugueses.

Em 1488, debaixo de um outro temporal que durou 10 dias, sua nau conseguiu passar da costa africana para o Oceano Índico.

Ele deu nome ao lugar de Cabo das Tormentas, mas o rei mandou mudar para Cabo da Boa Esperança.

Dom Manuel I levou em consideração o sonho que dali se iniciariam os bons negócios para Portugal, ele estava certo.

Em 30 de setembro de 1500 a expedição cabralina chega a Calecute no sul da Índia.

A riqueza da cidade deixa maravilhados os portugueses, como relatam os diários de bordo da época.

Pedro Álvares Cabral então se reúne com o Samorim, sumo mandatário e detentor do comércio local e a ele entrega uma carta assinada pelo rei de Portugal.

Escrita em árabe, para que assim se entendesse, a carta pede de modo gentil, autorização para se implantar uma feitoria.

Na mesma oportunidade, Cabral presenteia o líder político com moedas de ouro e prata, sedas e brocados em valor altíssimo.

Tudo o que foi entregue tinha valor muito superior ao apresentado por Vasco da Gama, que ofereceu dois anos antes apenas potes de açúcar e azeite.

Se acreditava que em razão dos pobres presentes o Samorim teria desprezado os portugueses.

A princípio a ideia pareceu ter dado resultado, o líder político se mostra feliz com os ricos presentes e autoriza Portugal instalar sua feitoria.

Dias depois ele muda de ideia e manda um exército com mais de 300 soldados árabes e hindus atacar a feitoria matando cerca de 50 portugueses.

Entre as vítimas estava entre Pero Vaz de Caminha, morto em 16 de dezembro de 1500.

Apesar de bela, Cabral determina um bombardeio sobre a cidade de Calecute e mais pessoas morrem.

A expedição portuguesa então se dirige ao reino vizinho de Coxim, 200 quilômetros ao norte, conforme relato manuscrito em 20 de dezembro de 1500.

Lá, Cabral consegue negociar mais facilmente com um rajá rival do Samorim e Portugal implanta em definitivo sua feitoria.

De Coxim as embarcações conseguem zarpar superlotadas e se inicia a volta para Lisboa, com as tão sonhadas especiarias.

Logo após o início da viagem, uma das naus encalha em um banco de areia.

Cabral manda incendiá-la porque sabia que piratas poderiam se apossar da carga posteriormente.

Nessa altura restavam somente cinco navios, dos 13 que partiram de Lisboa, em 9 de março de 1500.

A armada dobra o perigoso Cabo das Tormentas, em 22 de maio de 1501, desta vez sem nenhum problema.

Uma outra nave ainda se perderia na costa africana durante o trajeto de volta.

O desembarque em Portugal acontece no dia 22 de julho de 1501 e, apesar das perdas, ainda assim, se obteve um lucro calculado em 800%, conforme cálculos da época.

Os banqueiros de Gênova e Florença, financiadores da expedição, comemoram e o rei Dom Manuel anuncia uma nova viagem.

A essa expedição ele daria o nome de Esquadra da Vingança.

Cabral se apresenta para comandá-la, mas o rei decide escolher Vasco da Gama como capitão oferecendo a ele um segundo posto.

O descobridor oficial do Brasil reclama, afinal, ele alcançara o objetivo proposto.

O Venturoso se surpreende com a atitude e determina que Cabral seja afastado da corte e passe a viver isolado.

Ele passa a morar em Santarém, cujas terras pertenciam a Isabel de Castro, sua esposa.

Ela sim, influente na corte, era neta por parte de pai e avós dos reis de Portugal e Espanha.

Estabelecem moradia no Castelo de Belmonte, mandado construir por Álvaro Gil Cabral, ancestral da família que deu origem ao sobrenome.

Assim que chegou ao oriente, o descobridor do Brasil ficou doente, contraiu malária nas Índias e nunca mais se livrou dos efeitos do mal que o acometeu.

Deste modo, passou a ser assolado por febres frequentes que o levaram à morte em 1520, aos 52 anos, sem as honrarias que se fez merecedor.

Foi enterrado na Igreja da Graça de Santarém, mas durante anos se acreditou que ali existisse somente no túmulo, os despojos da esposa dele.

No Brasil, Cabral sempre foi reconhecido, tendo seu rosto sido colocado nas notas lançadas na época das comemorações de 500 anos do nosso descobrimento.

Mesmo assim, só passou a fazer parte de nossa história no século 19, durante o período regencial. 

Foi a partir da fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 21 de outubro de 1838, que se iniciou o levantamento dos fatos relativos ao descobrimento.

O historiador Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878), ficou encarregado de atender esse pedido e se deslocou a Lisboa.

Foi ele quem localizou o túmulo de Cabral e desengavetou a íntegra da carta de Pero Vaz de Caminha.

A exumação do corpo de Pedro Álvares Cabral, aconteceu em 1871 quando então constataram ter ele, 1 metro e 90 de altura, algo raro na época em que viveu.

Em 30 de dezembro de 1903, uma parte do seu esqueleto foi trazida para o Brasil.

O esquife pode ser visitado na Igreja do Carmo, do Rio de Janeiro.



Pesquisa em livros: Brasil, Terra à Vista e Viagem do Descobrimento – Eduardo Bueno. Nau Capitânia – Walter Galvani. Imagens extraídas do Google



sábado, 4 de abril de 2026

A complicada e polêmica história do Pátio do Colégio

Pode parecer exagero, mas só agora dá para entender por que o nosso mestre em História, Hernâni Donato (1922-2012), levou 70 anos para concluir sua importante obra; “Pateo do Collegio: Coração de São Paulo”.

O livro lançado por este imortal da Academia Paulista de Letras, possui 280 páginas e foi publicado pela Edições Loyola.

A data da tarde de autógrafos aconteceu em 25 de janeiro de 2008, para assim saudar a cidade que ele tanto amou.


A história do lugar onde a capital dos paulistas foi concebida é entremeada por brigas, discussões e polêmicas desde a sua fundação pelos jesuítas, em 1554, até os dias atuais.

O resultado é que quase nada do que existiu ficou preservado com exceção de uma parede esquecida durante séculos.  


De tão precária a primeira construção do colégio, reproduzida na pintura acima, mostra como era frágil a construção quando da  inauguração por Manuel da Nóbrega e José de Anchieta, entre outros. 

Erguida em madeira e coberta por sapé, a obra de tão precária precisou ser refeita dois anos depois.

O encarregado de realizá-la foi o padre Afonso Brás, hoje considerado precursor da arquitetura brasileira. 

Foi no ano de 1556 que Afonso Brás tomou para si a iniciativa de recolher terra úmida, rica em argila e areia, amassar e colocar tudo em fôrmas feitas com a madeira extraída dos taipais.

Para compactar socou múltiplas vezes com a ajuda somente de um pilão manual.

Deu trabalho, mas a construção manteve-se firme anos a fio e a esse método construtivo deu-se o nome “taipa de pilão”.

O tempo passou e começaram as brigas entre bandeirantes e jesuítas, cuja ideia era catequizar e não escravizar os indígenas.

Os religiosos acabaram expulsos em 1640, retornaram 13 anos depois e, pela segunda metade do século 17, foi erguida uma terceira edificação em taipa de pilão reforçada por pedras.

A réplica da igreja que temos hoje seguiu por base essa reconstrução de 1653, retratada na pintura de Benedito Calixto.

O desenho atual, entretanto, possui um telhado perfeitamente alinhado e paredes lisas, algo impossível para aquela época.

Do que havia de antigo, só se preservou a parede encontrada por acaso na parte interna da construção primitiva no momento da demolição.

Dentro da construção atual a parede foi mantida, por isso o Pátio do Colégio merece ser visitado.

Esses acontecimentos ajudam explicar por que o estudo da história do Pátio do Colégio deu tanto trabalho ao professor Hernâni Donato, eterno presidente de honra do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo - IHGSP.

Ele precisou desvendar os motivos das polêmicas intermináveis entre políticos, historiadores, arquitetos e urbanistas, associados à falta de documentação que dificultaram as pesquisas.

Para se ter uma ideia da confusão, entre 1765 e 1896, o colégio dos jesuítas deu lugar à sede do governo paulista.

Um palácio foi construído e alterações foram feitas nos cômodos para abrigar as áreas administrativas.

Percebam acima, que a igreja e a torre seguiam preservadas na fotografia de 1872 tirada no então Largo do Palácio.


Neste cartão postal do início do século 20 o mesmo Palácio do Governo se apresenta com outro formato arquitetônico, sem a presença da igreja e da antiga torre.

Em 1881 houve uma reforma significativa que deu feições europeias ao edifício e tal medida causou muita discussão.

Religiosos exigiram que a igreja e torre de 1653 fossem mantidas, isso aconteceu, mas sem a devida manutenção.

Com o passar do tempo a construção do século 17 ficou deteriorada e na iminência de cair.

Para que não desabassem torre e igreja ficaram escoradas por caibros, como mostra a foto acima.


Mas não teve jeito, em 1898, durante uma forte chuva, parte da antiga construção desabou, decidiu-se pela demolição. 

Só não há documentos que confirmem a data exata de quando tudo foi colocado abaixo.

Em 1912 o governo de São Paulo adquiriu o Palácio dos Campos Elísios e lá instalou sua sede administrativa.


O antigo Palácio do Governo continuou de pé, sem a igreja, conforme mostra a foto tirada por volta de 1930.

Em frente já estava o monumento "Glória Imortal aos Fundadores de São Paulo", esculpido por Amadeo Zani, em 1925.

No ano de 1953 o Palácio do Governo de São Paulo foi demolido e a decisão ocorreu no início da década de 1950.

Como haveria as celebrações do IVº Centenário da Cidade de São Paulo, a comissão organizadora dos festejos, propôs a reconstrução do antigo conjunto histórico jesuíta.

Durante a demolição descobriu-se por acaso a grossa parede em taipa de pilão que se manteve por séculos.

Historiadores e urbanistas intervieram por considerarem a parede uma relíquia arquitetônica.

A prefeitura acatou a sugestão e decidiu preservá-la.

Só não houve acordo em relação à data de aniversário da parede, alguns entendidos dizem ser de 1653.

Outros consideram ser até mais antiga, não dos tempos de Afonso Brás, mas de uma reforma realizada em 1585.

Decidida a preservação da parede, a mesma encontra-se agora protegida por uma redoma de vidro. 

Também durante as comemorações do IVº Centenário, a prefeitura devolveu a posse do terreno aos jesuítas.

A municipalidade também se comprometeu em reconstruir os edifícios do colégio e da igreja.

Parte da obra de reconstrução ficou paralisada por falta de verbas e a área em torno passou a servir de estacionamento, como mostra a foto de 1969.

As polêmicas prosseguiram por questões diferentes como a ocorrida no início da década de 1970.

Foi apresentado o projeto de um arranha-céu com 20 andares a ser construído nas vizinhanças do Pátio do Colégio.

A ideia não seguiu adiante e, após sucessivos debates, ficou então definido que a prefeitura concluiria a reconstrução de acordo com a proposta original mostrada em 1954.


A foto aérea de 1979 aponta como ficou o Pátio do Colégio depois de pronto.

As obras de conclusão foram reiniciadas em 1974, na gestão do prefeito Miguel Colassuono.

Recursos da prefeitura foram transferidos para a Sociedade Brasileira de Educação - Companhia de Jesus.

A empresa responsável pela conclusão do projeto foi a Construtora Adolpho Lindenberg.


Este pode ser considerado o rosto de como ficou o Pátio do Colégio reproduzido na pintura artística de Cristiane Carbone.

Torre e igreja foram reconstruídas e no prédio anexo onde funcionava o antigo colégio, existe agora o Museu Anchieta.

Nele há um acervo que reúne cerca de 700 objetos expostos em seis salas, além de uma biblioteca especializada em História do Brasil e dos Jesuítas. 


Do antigo Palácio do Governo restaram as portas que hoje servem de entrada ao prédio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo - IHGSP - Rua Benjamin Constant, na capital paulista.


Fontes: José Vignoli – pesquisador e membro do IHGSP – Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Site oficial: www.vigplan.com.br  

Site São Paulo Antiga: https://saopauloantiga.com.br/breve-historia-do-patio-do-colegio/

Roteiro Histórico da Região Central da Cidade de São Paulo/Coccid – Comitê de Civismo e Cidadania da ACSP - Associação Comercial de São Paulo/2021

Donato, Hernâni -  “Pateo do Collegio: Coração de São Paulo”/Edições Loyola/1a. edição/São Paulo/2008

Pinturas reproduzidas via Google de Benedito Calixto, J. Wasth Rodrigues, Clovis Graciano

Reprodução da pintura da artista plástica Cristiane Carbone com autorização da autora