sábado, 4 de abril de 2026

A complicada e polêmica história do Pátio do Colégio

Pode parecer exagero, mas só agora dá para entender por que o nosso mestre em História, Hernâni Donato (1922-2012), levou 70 anos para concluir sua importante obra; “Pateo do Collegio: Coração de São Paulo”.

O livro lançado por este imortal da Academia Paulista de Letras, possui 280 páginas e foi publicado pela Edições Loyola.

A data da tarde de autógrafos aconteceu em 25 de janeiro de 2008, para assim saudar a cidade que ele tanto amou.


A história do lugar onde a capital dos paulistas foi concebida é entremeada por brigas, discussões e polêmicas desde a sua fundação pelos jesuítas, em 1554, até os dias atuais.

O resultado é que quase nada do que existiu ficou preservado com exceção de uma parede esquecida durante séculos.  


De tão precária a primeira construção do colégio, reproduzida na pintura acima, mostra como era frágil a construção quando da  inauguração por Manuel da Nóbrega e José de Anchieta, entre outros. 

Erguida em madeira e coberta por sapé, a obra de tão precária precisou ser refeita dois anos depois.

O encarregado de realizá-la foi o padre Afonso Brás, hoje considerado precursor da arquitetura brasileira. 

Foi no ano de 1556 que Afonso Brás tomou para si a iniciativa de recolher terra úmida, rica em argila e areia, amassar e colocar tudo em fôrmas feitas com a madeira extraída dos taipais.

Para compactar socou múltiplas vezes com a ajuda somente de um pilão manual.

Deu trabalho, mas a construção manteve-se firme anos a fio e a esse método construtivo deu-se o nome “taipa de pilão”.

O tempo passou e começaram as brigas entre bandeirantes e jesuítas, cuja ideia era catequizar e não escravizar os indígenas.

Os religiosos acabaram expulsos em 1640, retornaram 13 anos depois e, pela segunda metade do século 17, foi erguida uma terceira edificação em taipa de pilão reforçada por pedras.

A réplica da igreja que temos hoje seguiu por base essa reconstrução de 1653, retratada na pintura de Benedito Calixto.

O desenho atual, entretanto, possui um telhado perfeitamente alinhado e paredes lisas, algo impossível para aquela época.

Do que havia de antigo, só se preservou a parede encontrada por acaso na parte interna da construção primitiva no momento da demolição.

Dentro da construção atual a parede foi mantida, por isso o Pátio do Colégio merece ser visitado.

Esses acontecimentos ajudam explicar por que o estudo da história do Pátio do Colégio deu tanto trabalho ao professor Hernâni Donato, eterno presidente de honra do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo - IHGSP.

Ele precisou desvendar os motivos das polêmicas intermináveis entre políticos, historiadores, arquitetos e urbanistas, associados à falta de documentação que dificultaram as pesquisas.

Para se ter uma ideia da confusão, entre 1765 e 1896, o colégio dos jesuítas deu lugar à sede do governo paulista.

Um palácio foi construído e alterações foram feitas nos cômodos para abrigar as áreas administrativas.

Percebam acima, que a igreja e a torre seguiam preservadas na fotografia de 1872 tirada no então Largo do Palácio.


Neste cartão postal do início do século 20 o mesmo Palácio do Governo se apresenta com outro formato arquitetônico, sem a presença da igreja e da antiga torre.

Em 1881 houve uma reforma significativa que deu feições europeias ao edifício e tal medida causou muita discussão.

Religiosos exigiram que a igreja e torre de 1653 fossem mantidas, isso aconteceu, mas sem a devida manutenção.

Com o passar do tempo a construção do século 17 ficou deteriorada e na iminência de cair.

Para que não desabassem torre e igreja ficaram escoradas por caibros, como mostra a foto acima.


Mas não teve jeito, em 1898, durante uma forte chuva, parte da antiga construção desabou, decidiu-se pela demolição. 

Só não há documentos que confirmem a data exata de quando tudo foi colocado abaixo.

Em 1912 o governo de São Paulo adquiriu o Palácio dos Campos Elísios e lá instalou sua sede administrativa.


O antigo Palácio do Governo continuou de pé, sem a igreja, conforme mostra a foto tirada por volta de 1930.

Em frente já estava o monumento "Glória Imortal aos Fundadores de São Paulo", esculpido por Amadeo Zani, em 1925.

No ano de 1953 o Palácio do Governo de São Paulo foi demolido e a decisão ocorreu no início da década de 1950.

Como haveria as celebrações do IVº Centenário da Cidade de São Paulo, a comissão organizadora dos festejos, propôs a reconstrução do antigo conjunto histórico jesuíta.

Durante a demolição descobriu-se por acaso a grossa parede em taipa de pilão que se manteve por séculos.

Historiadores e urbanistas intervieram por considerarem a parede uma relíquia arquitetônica.

A prefeitura acatou a sugestão e decidiu preservá-la.

Só não houve acordo em relação à data de aniversário da parede, alguns entendidos dizem ser de 1653.

Outros consideram ser até mais antiga, não dos tempos de Afonso Brás, mas de uma reforma realizada em 1585.

Decidida a preservação da parede, a mesma encontra-se agora protegida por uma redoma de vidro. 

Também durante as comemorações do IVº Centenário, a prefeitura devolveu a posse do terreno aos jesuítas.

A municipalidade também se comprometeu em reconstruir os edifícios do colégio e da igreja.

Parte da obra de reconstrução ficou paralisada por falta de verbas e a área em torno passou a servir de estacionamento, como mostra a foto de 1969.

As polêmicas prosseguiram por questões diferentes como a ocorrida no início da década de 1970.

Foi apresentado o projeto de um arranha-céu com 20 andares a ser construído nas vizinhanças do Pátio do Colégio.

A ideia não seguiu adiante e, após sucessivos debates, ficou então definido que a prefeitura concluiria a reconstrução de acordo com a proposta original mostrada em 1954.


A foto aérea de 1979 aponta como ficou o Pátio do Colégio depois de pronto.

As obras de conclusão foram reiniciadas em 1974, na gestão do prefeito Miguel Colassuono.

Recursos da prefeitura foram transferidos para a Sociedade Brasileira de Educação - Companhia de Jesus.

A empresa responsável pela conclusão do projeto foi a Construtora Adolpho Lindenberg.


Este pode ser considerado o rosto de como ficou o Pátio do Colégio reproduzido na pintura artística de Cristiane Carbone.

Torre e igreja foram reconstruídas e no prédio anexo onde funcionava o antigo colégio, existe agora o Museu Anchieta.

Nele há um acervo que reúne cerca de 700 objetos expostos em seis salas, além de uma biblioteca especializada em História do Brasil e dos Jesuítas. 


Do antigo Palácio do Governo restaram as portas que hoje servem de entrada ao prédio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo - IHGSP - Rua Benjamin Constant, na capital paulista.


Fontes: José Vignoli – pesquisador e membro do IHGSP – Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Site oficial: www.vigplan.com.br  

Site São Paulo Antiga: https://saopauloantiga.com.br/breve-historia-do-patio-do-colegio/

Roteiro Histórico da Região Central da Cidade de São Paulo/Coccid – Comitê de Civismo e Cidadania da ACSP - Associação Comercial de São Paulo/2021

Donato, Hernâni -  “Pateo do Collegio: Coração de São Paulo”/Edições Loyola/1a. edição/São Paulo/2008

Pinturas reproduzidas via Google de Benedito Calixto, J. Wasth Rodrigues, Clovis Graciano

Reprodução da pintura da artista plástica Cristiane Carbone com autorização da autora

 

 

 

 

 

 

 





quinta-feira, 19 de março de 2026

Ladrão de livros raros volta a atacar em São Paulo

Na sede do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo - IHGSP, Rua Benjamin Constant, bem no centro da metrópole, um velho conhecido da polícia tentou agir.

Laéssio Rodrigues de Oliveira, ficou famoso por roubar livros raros e obras de arte para revendê-los de forma clandestina, já foi preso três vezes, agora foragido, está na mira da polícia novamente.

Ao perceber que estava sendo observado, conseguiu burlar a segurança e foi embora antes que os policiais chegassem.

Laéssio ganhou fama durante a década de 2000, furtou e roubou livros raros e obras de arte valiosas de instituições culturais.

Suas ações criminosas renderam a ele cerca de 300 mil dólares obtidos em vendas no mercado ilegal.


O Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo é um guardião da história paulista, mantém em suas dependências um acervo que inclui diversos livros e pinturas.

João Tomás do Amaral, é o presidente do instituto, ele já conhecia o histórico do assaltante que costuma visitar museus, bibliotecas onde se apresenta como “pesquisador cultural”.

Em 27 de fevereiro, uma sexta-feira, o ladrão que já cumpriu penas por furto e roubo de livros raros, apresentou-se na portaria do IHGSP.

Laéssio se identificou como um visitante capixaba que conhecia São Paulo pela primeira vez, acompanhado de duas pessoas.

De boa conversa, articulado e culto, é muito simpático, mesmo assim despertou atenção porque estava de máscara cirúrgica e disse estar com a saúde fragilizada. 

“Enquanto ele se atinha observando alguns quadros em expsoição nas dependências do instituto, procurei no meu celular e encontrei a foto dele, o reconheci imediatamente”, explicou João Tomás.

O presidente do IHGSP, se afastou alguns instantes do suspeito e acionou a segurança interna.

Laéssio percebeu a movimentação, imediatamente desceu por outro elevador e saiu do prédio antes que os seguranças chegassem até ele.

Na entrada o acusado assinou dois livros de visitas. No primeiro, colocou o nome completo e no segundo um outro nome, o que configura falsidade ideológica.

A polícia investiga o caso, ainda não há relação confirmada da participação dele no roubo da Biblioteca Mario de Andrade, em dezembro do ano passado.


O que se sabe é que Laéssio Rodrigues de Oliveira foi estagiário de um curso de biblioteconomia no início dos anos 2000, ele entende de livros.

Último advogado a defendê-lo, José Carlos Abissamra Filho, afirmou que não tem mais contato com ele.

A história desse ladrão poderia até render um filme, ela está contada em detalhes na extensa reportagem da BBC Brasil, assinada pelo jornalista Carlos Juliano Barros. 

Acesse: A história do 'maior ladrão de livros raros do Brasil' - BBC News Brasil


Fontes: IHGSP - BDSP – Fábio Behend

Fotos: BBC News

Pintura Pátio do Colégio: Cristiane Carbone


terça-feira, 10 de março de 2026

Polilaminina: Descoberta brasileira traz esperança a paraplégicos e tetraplégicos

A maioria das pessoas ainda não sabe o significado da palavra polilaminina, mas em breve iremos pronunciá-la mais vezes.

Estudos mostram que uma proteína natural produzida pelo corpo humano, quando desenvolvida em laboratórios, pode regenerar lesões medulares.

A surpresa é que essas pesquisas estão sendo desenvolvidas aqui no Brasil e os resultados altamente positivos.

O sonho de voltar a andar faz parte da vida de todas as pessoas que, após lesões na coluna vertebral, se tornaram paraplégicas ou tetraplégicas.

Por enquanto, é bom ressaltar, essas pesquisas não estão concluídas, mas os resultados parciais são animadores.

Sou jornalista, tenho uma deficiência física e como convivo com essa situação há muito tempo, percebo entre os colegas de profissão, certa dificuldade para lidar com o tema.

Não podemos aumentar demais as expectativas, porque entre as PcDs, cada caso é diferente um do outro, é preciso ter cautela na hora de informar.

Entre os colegas de imprensa são poucos os especialistas no assunto, um dos entendidos é Rodrigo Antônio Rosso.

Ele não é PcD, mas comanda a Revista Reação, voltada a esse público.

Em editorial assinado na edição nº 165, deste mês - março 2026 - Rodrigo faz referências à cientista-bióloga, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

Dra. Tatiana Sampaio, é a coordenadora da pesquisa que aos poucos está revelando os caminhos que levam à regeneração da medula espinhal abalada por lesões graves.

Testes realizados por ela com um tipo de proteína, a “laminina”, apontaram que é possível restituir tecidos para estimular a reconexão neural.

Em outras palavras funciona “como uma espécie de 'tapete' ou um 'andaime'” – descreve Rodrigo Rosso.

A polilaminina auxilia as células a se prenderem e crescerem organizadas de forma a cicatrizar as lesões”.

Ao ser aplicada a polilaminina oferece ao corpo grande potencial para restaurar movimentos, os resultados estão sendo promissores mais para as lesões recentes do que nas antigas.

A notícia causou alvoroço no público interessado e com isso alguns colegas, não sabendo lidar com o tema, aumentam demais as expectativas.

“Recentemente a Anvisa autorizou o início de estudos clínicos da fase 1 para avaliar a real segurança em humanos” - informa o editorialista da Revista Reação.

Isto aponta, segundo ele, “que embora os resultados preliminares sejam animadores ainda não há um tratamento disponível”.

Ainda é preciso comprovar cientificamente os resultados positivos das próximas fases para garantir a eficácia e segurança no tratamento em larga escala.

Em seu editorial a Revista Reação relata que alguns resultados favoráveis apresentados na mídia animaram a todos.

Bruno Drumond, tetraplégico por lesão medular, depois da aplicação de polilaminina voltou a andar, isso despertou esperanças em pessoas com problemas semelhantes.

“Até agora o que se sabe é que os resultados são mais positivos nas pessoas recém-lesionadas”, enfatiza o jornalista da Revista Reação. 

Rodrigo Rosso, na foto acima, recomenda que se dê tempo ao tempo para a cientista e sua equipe trabalhar em paz, focados na pesquisa.

O apelo de nosso colega vale também para nós profissionais de imprensa em geral.

Dra. Tatiana Sampaio vem sendo solicitada em demasia para entrevistas, com isso recebe críticas de outras áreas e certos comentários podem atrapalhar o trabalho dela.

Rodrigo Rosso da Revista Reação defende a cientista ao concluir: “Só pelo que ela alcançou até aqui já merece um Prêmio Nobel”.

Agora falta alcançar a tão almejada comprovação científica, as pesquisas continuam.

Esperamos que não ocorram interferências políticas, empresariais ou econômicas que dificultem o aprimoramento no Brasil da polilaminina.

Aos paraplégicos e tetraplégicos por lesão medular recomendo fé e esperança. Essa, é a última que morre.


Para saber mais sobre o universo das Pessoas com Deficiência, acesse o Portal Revista Reação: Revista Reação


Fonte: Revista e Portal Reação
Fotos: Pesquisa Google

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

A cada 300 metros existe um rio canalizado em São Paulo

Todos os anos é a mesma coisa: inúmeras reportagens são apresentadas sobre as enchentes em São Paulo durante o verão.

Também pudera, existe uma imensidão de riachos escondidos debaixo do asfalto e quando chove eles ressurgem.

Nem mesmo a prefeitura possui números exatos, mas chega perto de 800 o número de córregos canalizados na capital paulista e outros 57 receberão canalização ainda este ano.

Pode parecer um sonho, mas se todos esses "riozinhos" estivessem seguindo seu curso natural e a céu aberto como estaria a nossa cidade hoje? Melhor ou pior?

O desenvolvimento urbano colocou os córregos debaixo do asfalto, a começar pelo Anhangabaú e, atualmente, são cerca de 3.600 km de galerias dando vazão a esses riachos que recebem à rede de esgotos da Sabesp.

Na maioria todos são afluentes dos três maiores rios da Grande São Paulo. Tamanduateí, Tietê e Pinheiros.


Na foto acima, a pintura Várzea do Carmo, de José Wasth Rodrigues, retrata o Rio Tamanduateí do passado com a presença de senhoras lavadeiras e mais acima, no alto da colina, o Convento do Carmo.

Como era cheio de curvas, quem chegasse em São Paulo, dentro de alguma embarcação com especiarias provenientes do Porto de Santos, precisava antes fazer as sete curvas entre a atual Avenida Dom Pedro I e a região do Glicério.

Depois desse emaranhado é que se chegava ao Porto Geral, desativado depois de uma obra gigantesca. Para esse serviço muitos homens, boa parte escravizados, precisaram escavar e depois transportar a terra no dorso de mulas.

Só assim transpuseram a margem do Tamanduateí para um lugar mais distante do centro e do lugar do primitivo Porto Geral restou apenas o nome da ladeira utilizada para se chegar nele.

O novo caminho recebeu o nome Rua da Várzea, depois Rua das Sete Voltas e a partir de 1865, Rua 25 de Março.

O Rio Tietê também era cheio de curvas e a partir da década 1940, sua paisagem começou a mudar. De espaço para o lazer de banhistas suas margens serviram à construção duas avenidas. 

Suas águas confinadas passaram a receber, além da poluição industrial, todo o esgoto produzido pela cidade e depois, na tentativa de remediar, surgiu um projeto de despoluição, mas a sujeira acumulada por décadas, parece não ter fim.

O Rio Pinheiros é outro que recebe as águas de afluentes canalizados e, portanto, não haverá como torná-lo totalmente limpo.

Apesar do intenso processo de decantação que deverá prosseguir para sempre, ainda ocorrem problemas de mau cheiro em alguns trechos e acúmulo de lixo.

Afluente do Tietê, o córrego Aricanduva, nasce no Pico do Cruzeiro, no extremo leste de São Paulo. Em épocas de chuva, ele costuma transbordar e causar alagamentos nos bairros onde passa.

Todos os rios citados nessa postagem são considerados doentes (ou quase mortos) pelo nível de degradação. Quando chove forte não há como reter as águas dos afluentes que circulam no subsolo.

Além disso com tantas vias pavimentadas, as enxurradas não têm para onde ir e, daqui para frente, com o solo cada vez mais sedimentado pela presença de tantos edifícios, as enchentes serão sempre cada vez maiores.

Seria melhor se os córregos não tivessem sido canalizados? 

Essa é uma pergunta difícil de responder e até mesmo de explicar porque São Paulo seria uma cidade muito diferente dessa que temos hoje, talvez mais voltada ao turismo e não seria a metrópole atual. 


 

 

Fontes e fotos: Prefeitura de São Paulo e Site São Paulo Secreto

 


segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Paulo Bomfim: iremos comemorar os 100 anos de seu nascimento em 2026

Um dos maiores orgulhos em minha carreira de jornalista foi ter sido amigo do poeta Paulo Bomfim.

Nascido na capital paulista, em 30 de setembro de 1926 ele continua vivo no coração de seus admiradores, graças à sua poesia apaixonada e às boas recordações que deixou.

Quando comecei apresentar o programa São Paulo de Todos os Tempos na Rádio Eldorado, décadas atrás, tentei localizá-lo.

Não havia os recursos de hoje, tudo era marcado na base dos telefonemas e não dispúnhamos do número dele.

Eis então que certo dia, toca o telefone na redação e quem está do outro lado da linha? Paulo Bomfim.

O poeta me revela ser ouvinte do programa, faz elogios ao meu trabalho e passa a sugerir nomes para serem entrevistados.

Acolhi com todo carinho as sugestões, mas disse que primeiramente o entrevistado seria ele que aceitou e prontamente compareceu ao estúdio no dia e hora marcados.

Foi um programa lindíssimo, Paulo contou histórias e recitou vários de seus poemas como “Minha Insólita Metrópole”.

“Minha insólita metrópole, capital de todos os absurdos!... Cidade feita de cidades, bairros proclamando independência, ruas falando dialetos, homens com urgência de viver...”

Durante essa entrevista, o poeta contou que conviveu com as pintoras modernistas Anita Malfatti e Tarsila do Amaral.

De Tarsila recebeu a ilustração que serviu de capa para o seu primeiro livro de poesias, ‘Antonio Triste’, lançado em 1946, com prefácio de Guilherme de Almeida. 

Pela obra, Paulo Bomfim recebeu o Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileiras de Letras - ABL.


Anita Malfatti pintou o retrato do poeta ainda jovem em óleo sobre tela, cuja imagem ilustraria depois a capa de ‘Aquele Menino’, livro de contos e crônicas. Aclamado, 'Príncipe dos Poetas Brasileiros' publicou ao todo 37 obras.

Generoso e solícito, Paulo Bomfim compareceu a algumas das premiações que obtivemos como a Medalha Anchieta e o Diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo, oferecidos pela Câmara Municipal de São Paulo.

Paulo Bomfim também compareceu à nossa posse como integrante do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, em 2002 e, posteriormente, nos tornamos confrades na Academia Paulista de História - APH, em 2011.

Tive a honra de conhecer sua esposa Emy (Emma Gelfi Bomfim), com quem foi casado durante 50 anos, bem como Raul Paulo, o filho do casal. Todos já se foram.


Pena que um dia o poeta precisou partir. Se existissem mais pessoas com a sensibilidade de Paulo Bomfim, a cidade de São Paulo seria melhor, mais humana.

O poeta nos deixou em 7 de julho de 2019 aos 92 anos, mas sua poesia é imortal e ao longo deste 2026, iremos lembrar outras passagens dele, através deste blog e nossos podcasts.


Agradecimentos ao Estadão Conteúdo e à jornalista Di Bonetti, curadora da obra e responsável pelo site de Paulo Bomfim:  paulobomfim.com.br