domingo, 4 de setembro de 2022

O Rádio no Brasil completou oficialmente 100 anos, neste 7 de setembro, mas sua história é repleta de fatos inusitados

Oficialmente a história do Rádio no Brasil, como veículo de comunicação, começa no dia 7 de setembro de 1922, com a abertura da Exposição Internacional do Centenário da Independência, realizada no Rio de Janeiro.

No total, 14 países de 3 continentes, participaram do evento que recebeu da abertura até o encerramento, em 15 de novembro do mesmo ano, cerca de 3 milhões de visitantes.

O que mais surpreendeu em termos de tecnologia e modernidade foi a presença de um aparelho de rádio receptor, capaz de reproduzir a voz humana pronunciada em longa distância, algo até então desconhecido pela maioria dos brasileiros.  

Para que a irradiação acontecesse, foi preciso instalar uma torre no Morro do Corcovado e um transmissor de ondas sonoras com microfone, no gabinete do então presidente da República, Epitácio Pessoa, cujo rosto aparece em um selo comemorativo do evento.

Do Palácio do Catete, o presidente fez um discurso que pôde ser ouvido por todos os presentes na cerimônia inaugural da exposição.

Entre os visitantes estava o médico, professor e escritor, Edgard Roquette Pinto que viu na nova tecnologia, segundo palavras dele, “uma máquina importante para educar nosso povo”.


Terminada a mostra internacional, em 15 de novembro, ninguém se interessou em adquirir o equipamento de transmissão radiofônica trazido ao Brasil, pela empresa norte-americana Westinghause.

Roquette Pinto solicitou uma audiência com Epitácio Pessoa, na tentativa de convencer o governo federal a comprar os equipamentos, sob o argumento da força política daquele meio de comunicação.

Assim mesmo, não veio do presidente da República, a receptividade esperada.

Procurou então, a Academia Brasileira de Ciências e sugeriu aos representantes que eles próprios em sociedade, comprassem os equipamentos para serem usados com a finalidade educativa e sua ideia foi aceita.

Graças a esse esforço, em 20 de abril de 1923, foi inaugurada a primeira emissora oficial de rádio do país, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, tendo Roquette Pinto como diretor.

Em 1936, ano em que os aparelhos de rádio passaram a ser vendidos em todas as lojas do ramo no país, a Rádio Sociedade, foi doada ao Ministério da Educação e Saúde, para se cumprir a intenção de um veículo primordialmente educativo.

Entretanto, o presidente Getúlio Vargas, transferiu sua administração para o Departamento de Propaganda e Difusão Cultural que mais tarde, em 1939, se transformaria no DIP, órgão responsável pela censura exercida durante boa parte da Era Vargas.

Consta que, ao se despedir do comando da emissora que fundara, Edgard Roquette Pinto sussurrou chorando ao ouvido da filha Beatriz: "Entrego esta rádio com a mesma emoção com que se casa uma filha".


Este é só o início da História do Rádio Brasil, outros artigos virão, peço que acompanhem a cada semana uma nova postagem.


Fontes: Tavares/Reynaldo C./Histórias que o Rádio não Contou/Herbra/São Paulo/1999.

Fotos: Acervo particular professor Pedro Vaz – Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero/São Paulo e Wikipedia

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Em 1972, Dom Pedro I virou herói de uma revista em quadrinhos

Pensei que só eu lembrasse da história que levou ao Grito do Ipiranga contada em uma revista em quadrinhos editada nos tempos do “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

Eis que, no entanto, navegando pela internet, deparei com um artigo assinado por Luiz Santiago, no Portal Plano Crítico, no qual algumas imagens dessa publicação impressa foram resgatadas.



No ano de 1972, quando o País comemorou o sesquicentenário da Independência do Brasil, uma revista de cunho didático paga pelo governo à Editora Brasil-América, especializada em quadrinhos, deixou deslumbrados os adolescentes e as crianças daquela época.

Com texto e roteiro de Pedro Anísio e ilustrações do excelente e pouco lembrado cartunista, Eugênio Colonnese, a saga aponta Dom Pedro I como o principal e maior herói da Pátria.


Guardei comigo, por alguns anos, um desses exemplares entregues gratuitamente nas escolas públicas, mas com o passar do tempo a publicação desapareceu. Afinal, já se passaram cinco décadas.

Claro que havia toda uma abordagem política por trás de tudo aquilo, mas isso não chegava até nós ginasianos. O que me despertava a atenção, era a qualidade dos desenhos.

As histórias em quadrinhos proporcionavam aos jovens uma viagem lúdica. Em cada estampa se imaginava a cena seguinte e isto me deixa fascinado até hoje.

Na publicação de 1972, o Super-Homem e o Batman, deram lugar a Tiradentes e Dom João VI, para culminar no lindo rosto de Dom Pedro, pintado pelo artista Eugênio Colonesse.

O texto bem-escrito por Pedro Anísio, mostra ser possível trabalhar temas históricos com o dinamismo dos quadrinhos.

Não sei se as HQs hoje seriam tão atraentes aos jovens estudantes quanto foram para mim, nas comemorações do sesquicentenário.

Se alguém encontrar em algum sebo, a Independência do Brasil em Quadrinhos, terá nas mãos um documento de leitura obrigatória para sociólogos e entusiastas das HQs no mundo todo.

Com essa postagem, encerro minha série de artigos neste blog sobre os 200 anos da Independência do Brasil!

Veja abaixo outros símbolos que marcaram a passagem do sesquicentenário.





A Independência do Brasil em Quadrinhos (Brasil, 1972)

Texto: Pedro Anísio

Desenhos: Eugênio Colonnese

Editora: Brasil-América Ltda./Rio de Janeiro

Editor – chefe: Adolfo Aizen (O Pai dos Quadrinhos no Brasil)


segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Quem foi José Bonifácio, o Patriarca da Independência. Confira

Ministro do Reino Unido de Portugal – Brasil e Algarves e dos Negócios Estrangeiros, entre janeiro de 1822 e julho de 1823, José Bonifácio de Andrada e Silva, foi o grande articulador político da independência do Brasil.

Nascido em uma família abastada de Santos, no dia 13 de junho de 1763, quando completou 20 anos de idade, viajou para estudar na Universidade de Coimbra, os cursos de Direito, Filosofia e Ciências Naturais.

Aplicado nos estudos, buscou na ciência, explicações para tudo e precisou deixar Portugal, em 1790, por causa da Inquisição, que passou a investigá-lo por ter proferido em seus discursos que era ateu.

Seguiu para a França em um momento que o país, passava pelo processo pós-revolução que afastou a monarquia e muitas cabeças começaram literalmente a rolar por causa de guilhotina.

Possivelmente, José Bonifácio assistiu cenas daquele banho de sangue que ocorreu nas praças públicas de Paris e, até por isso, acreditamos, manteve-se monarquista.

Mudou-se depois para a Suécia, onde estudou mineralogia tendo descoberto e dado nome a quatro espécies de minerais, uma delas a andradita, batizada em sua homenagem. Depois, na Alemanha, se especializou em metalurgia.

Todo esse conhecimento o fez voltar à Universidade de Coimbra onde passou a dar aulas, tendo inclusive, ocupado cargos públicos em Portugal.

Ao retornar ao Brasil, em 1819, depois de 36 anos na Europa, recebeu de Dom João VI, o título de conselheiro.

Com o retorno do rei a Portugal, em 1821, ocupou o cargo de ministro do então príncipe regente, Pedro de Alcântara, 30 anos mais moço.

José Bonifácio conseguiu convencê-lo a permanecer no Brasil para impedir que as juntas governativas, formadas durante o reino unido a Portugal, proclamassem a independência antes que ele.

Depois, já coroado imperador, Dom Pedro I instituiu os trabalhos para a elaboração de uma Assembleia Nacional Constituinte.

Nela o Patriarca tomou parte e, apesar de conservador, começou defender ideias avançadas para o seu tempo, como a abolição gradual da escravatura.

Antes, defendera em carta ao rei de Portugal, a construção de uma cidade no planalto central, para melhor ocupar as terras brasileiras.


Tais propostas, consideradas liberais demais, desagradaram o Imperador que de surpresa destituiu a assembleia, prendeu todos os constituintes e os mandou para o exílio, inclusive José Bonifácio.

A primeira constituição brasileira, promulgada em 1824, surgiu de modo autoritário, redigida pelo próprio Dom Pedro I, causando a ele sério desgaste político. Ali começou sua derrocada.

Em 1829, permitiu a volta ao Brasil dos exilados. José Bonifácio chegou ao Rio de Janeiro, em 23 de julho, trazendo consigo o cadáver da esposa, Narcisa Emília, morta no navio durante a viagem.

Com a abdicação de D. Pedro I, em 7 de abril de 1831, José Bonifácio foi nomeado por ele, tutor de seu filho de cinco anos, o futuro D. Pedro II.

Apesar de não ter sido bom marido, o imperador era um pai dedicado e enternecido de todos os filhos, legítimos ou não.

Deste modo, assinou um decreto em que nomeava “tutor dos meus amados e prezados filhos ao muito probo, honrado e patriótico cidadão José Bonifácio de Andrada e Silva, meu verdadeiro amigo”.

Bonifácio tinha 68 anos quando aceitou conduzir seus pupilos, mas seu temperamento e seu feitio não fizeram dele o tutor ideal.

O patriarca não caiu nas graças de Mariana Carlota, a Dadama, aia e mãe de criação, do príncipe herdeiro e suas irmãs Januária, Paula Mariana e Francisca, tendo permanecido pouco tempo no cargo.

Ao deixar a vida política, passou a morar em sua casa de veraneio na ilha de Paquetá, dentro da Baía de Guanabara.

Morreu ali perto, em Niterói, aos 75 anos, no dia 6 de abril 1838.

Fontes:

BUENO, Eduardo. Brasil, uma história. São Paulo. Editora Ática, 2007

CARVALHO, José Murilo de. Dom Pedro II - Ser ou não ser. São Paulo. Companhia das Letras. 2a edição. 2007

CAVALCANTE, Berenice. José Bonifácio: razão e sensibilidade, uma história em três tempos. Rio de Janeiro: FGV, 2001.

DOLNIKOFF, Miriam (org.). Projetos para o Brasil, José Bonifácio de Andrada e Silva. São Paulo: Cia. das Letras, 1998.

sábado, 13 de agosto de 2022

Dona Leopoldina foi quem assinou o decreto de Independência do Brasil

A tragédia que destruiu parte da história brasileira até então guardada no Museu Nacional do Rio de Janeiro, devorou também os originais do decreto da independência, assinado por D. Maria Leopoldina.

Então princesa regente do Brasil, Leopoldina redigiu e assinou o documento nas dependências do mesmo prédio, no dia 2 de setembro de 1822, um domingo, 196 anos antes do catastrófico incêndio.

O Museu Nacional segue sendo recuperado e nós, ao lembrarmos os 200 anos da Independência do Brasil, preparamos esse estudo para revelar como foram os dias que antecederam o 7 de setembro de 1822, Dia do Grito.

A relação entre brasileiros e portugueses se deteriorou a partir da volta de D. João VI a Portugal, em 1821.

Desde então, as cortes de Lisboa passaram a exigir o retorno imediato de D. Pedro para a metrópole, mas os portugueses que aqui ficaram e prosperaram em seus negócios, juntamente com os brasileiros viram a necessidade de se proclamar a independência com ou sem o príncipe D. Pedro.

Portugal se deu conta da situação e pediu a revogação de uma série de medidas em vigência no Brasil como a elevação à reino unido que passou a ser considerada como “privilégio”, especialmente depois da volta de D. João.

As ordens foram lidas por D. Maria Leopoldina, que convocou uma sessão extraordinária do Conselho de Ministros. Este aprovou, em 2 de setembro de 1822, a assinatura da declaração de independência.

Em seguida a princesa organizou uma mensagem e enviou-a em caráter de urgência para D. Pedro que estava em São Paulo.

As cartas escritas pela princesa e por José Bonifácio, chegaram às mãos de do príncipe regente no dia 7 de setembro, junto às margens do riacho Ipiranga.

Nelas se informava que a independência já estava consumada, faltava apenas oficializá-la publicamente.

Foi o que fez D. Pedro ao proferir o grito histórico “Independência ou Morte”, ali mesmo onde estava, junto às margens do Ipiranga.

Leia a carta de Dona Leopoldina, vertida para a ortografia atual:

“Pedro, o Brasil está como um vulcão, até no paço há revolucionários e até oficiais das tropas são revolucionários.

As Cortes Portuguesas ordenam vossa partida imediata, ameaçam-vos e humilham-vos. O Conselho de Estado aconselha-vos para ficar. Meu coração de mulher e de esposa prevê desgraças, se partirmos agora para Lisboa.

Sabemos bem o que tem sofrido nossos pais. O rei e a rainha de Portugal não são mais reis, não governam mais, são governados pelo despotismo das Cortes que perseguem e humilham os soberanos a quem devem respeito.

Chamberlain (cônsul-geral da Inglaterra), vos contará tudo o que sucede em Lisboa.

O Brasil será em vossas mãos um grande país. O Brasil vos quer para seu monarca. Com o vosso apoio ou sem o vosso apoio ele fará a sua separação.

O pomo está maduro, colhei-o já, senão apodrece. Ainda é tempo de ouvirdes o conselho de um sábio que conheceu todas as cortes da Europa (José Bonifácio) que, além de vosso ministro fiel, é o maior de vossos amigos.

Ouvi o conselho de vosso ministro, se não quiser Pedro, o momento é o mais importante de vossa vida.

Já dissestes aqui o que ireis fazer em São Paulo. Fazei, pois.

Tereis o apoio do Brasil inteiro e, contra a vontade do povo brasileiro, os soldados portugueses que aqui estão nada podem fazer.

Leopoldina”.

Nossa futura imperatriz aderiu aos ideais de independência do Brasil, antes mesmo que o marido, em nome da conservação da monarquia.

Ela temia os excessos das revoluções populares. Eram fortes as lembranças contadas a ela por José Bonifácio, sobre as execuções ocorridas durante a Revolução Francesa quando foi guilhotinada sua tia-avó Maria Antonieta.

Havia a concordância dela com as ideias dos Andradas e seus partidários monarquistas, por isso defendeu a permanência de D. Pedro no Brasil simbolizada no Dia do Fico.

Leopoldina, segundo alguns autores, foi quem idealizou a bandeira do Brasil, surgida da união do verde da Casa de Bragança com o amarelo ouro da Casa de Habsburgo-Lorena.

Depois, como imperatriz, Leopoldina se empenhou a fundo no reconhecimento da independência do Brasil pelas cortes europeias, escrevendo cartas ao pai, imperador da Áustria, e ao sogro, rei de Portugal.


Fontes:

Neves, Lúcia Bastos Pereira das/ Emancipação política. In: Vaifas, Ronaldo/Dicionário do Brasil Imperial (1822-1889). Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.

Rezzutti, Paulo/ D. Leopoldina: a história não contada: a mulher que arquitetou a independência do Brasil. Ed. Leya, 2017. 

Del Priore, Marry/ A carne e o sangue. A imperatriz D. Leopoldina, D. Pedro I e Domitila, a Marquesa de Santos. Rio de Janeiro: Rocco, 2012.

Schumaher, Shuma e Brazil, Érico Vital (org.). Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000

Portal CGP - Centro de Estudos Constitucionais e de Gestão Pública: Maria Leopoldina assinou o decreto de independência do Brasil 

Blog: Ensinar História - Joelza Ester Domingues

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Polêmica levantada por Monteiro Lobato marcou a inauguração do Monumento do Ipiranga, há 100 anos

O Monumento do Ipiranga, inaugurado durante as comemorações do centenário da Independência do Brasil, em 1922, tem uma história polêmica que envolve o sempre combativo escritor Monteiro Lobato.

Em 1917, mesmo ano em que o escritor fez um levante nas páginas do Estadão contra os modernistas durante a exposição das pinturas de Anita Malfatti, um edital publicado pelo governo paulista convocou escultores para a participação em um concurso que iria escolher o monumento a ser construído em homenagem aos 100 anos do célebre grito de Dom Pedro I.

Participaram da licitação artistas renomados da Europa e das Américas, como Luigi Brizzollara e Nicola Rollo, entre outros, além de um desconhecido até então para os brasileiros, Ettore Ximenes.

Todas as maquetes desses projetos foram colocadas em exposição no Palácio das Indústrias e, no último dia da mostra, anunciou-se a obra vencedora. Coube a vitória ao projeto do escultor italiano.

Jornais da época consideraram que a decisão dos jurados não foi a melhor e levantou-se a hipótese de haver por trás da decisão um jogo de cartas marcadas. Todos acharam que o resultado foi uma tremenda marmelada.

O motivo estava no fato de um projeto de Ettore Ximenes ter sido derrotado em um concurso semelhante na Bélgica e sua inscrição no Brasil veio com o propósito premeditado de fazê-lo ganhar.



De fato, o monumento possui esculturas que nada têm a ver com a independência, como, por exemplo, um carro de combate romano que se chama Biga, sendo puxado por cavalos na parte mais alta.

Em um livro publicado em 1974 com o título “Ipiranga”, o autor Roney Bacelli apresenta um texto extraído de um jornal paulistano chamado "O Parafuso", publicado em 30 de março de 1920, no qual Monteiro Lobato escreve de modo irônico que a obra de Ettore Ximenes foi, de fato, escolhida por antecedência:

“... num dado momento cruzou conosco um tipo enfunado, de marca exótica, com o ar petulante dos que chegam à colônia vêm e vencem. O escultor Ximenes, cochichou-nos um amigo, é o tal que vai fazer o Monumento da Independência!

O concurso para esse monumento, aberto em 1917, ia encerrar-se somente em 1920; estranhamos, pois, que, com tamanha antecipação, já se apontasse na rua o vencedor. Vai fazer, como? Inquirimos. Não está encerrado o concurso, não se conhecem os projetos, não houve julgamento: como já pode haver um vencedor?

Ingênuo! Não conheces ainda São Paulo? Julgas acaso que um certame artístico possa ser regido por um critério moral diferente do que rege os casos políticos e os concursos para empregos públicos?

Concorra quem concorrer, Miguel Ângelo, Rodin ou Jevach, ainda que ressuscitados, o vencedor há de ser este Ximenes. 

Ele ‘acordou cedo’, já teceu os paus, já organizou a vitória. Outros serão eleitos, mas o ‘reconhecido’ será ele. Verás”.

Foi o que aconteceu, a obra de Ettore Ximenes foi a vitoriosa.

Fizeram parte da comissão julgadora do concurso para a escolha do monumento alguns vereadores, empreiteiros, engenheiros e funcionários públicos. O que acham vocês?


Embora execrado pela mídia da época, o italiano Ximenes fixou residência em São Paulo e acompanhou, do começo ao fim, a instalação do Monumento do Ipiranga. 

Na foto acima, tirada das páginas do meu livro "São Paulo de Todos os Tempos Vol. II", vemos esculturas do monumento ainda no ateliê do artista plástico, com os funcionários em sua volta.

Mesmo quando faltou a verba oferecida pelo governo e só depois enviada, o escultor não desistiu. Na ocasião, disse que tocaria a obra ainda que fosse com dinheiro do próprio bolso.

Talvez tenha sido exagerado, não foi preciso chegar a tanto, porque o dinheiro saiu.

Ettore Ximenes permaneceu no Brasil até o final das obras do monumento, concluídas em 1926, ano em que ele faleceu na cidade de Roma, no dia 20 de dezembro.

O escultor foi amigo do pintor Pedro Américo e, para homenageá-lo, fez uma reprodução em alto relevo no bronze do famoso quadro da independência, na parte frontal do monumento.

Os anos passaram e a obra de Ettore Ximenez agora é parte da paisagem urbana, abrigando em seu interior os restos mortais de Dom Pedro I e das imperatrizes Leopoldina e Amélia.

Pena que nem todos tenham tempo de ver o monumento com a devida atenção por causa do trânsito sempre agitado da metrópole.


O monumento está passando por um processo de limpeza para estar prontinho para as comemorações do 7 de setembro, quando a obra deixada por Ettore Ximenes completará seu centenário de inauguração.

Se possível deixe seu comentário abaixo e seu nome. Grato.


sexta-feira, 29 de julho de 2022

Descubra como era a São Paulo de 1822 no Dia do Grito e os acontecimentos em torno da Independência

Imagine São Paulo em 1822, cidadezinha com população de 15 mil habitantes, muito parecida à São Luiz do Paraitinga que temos hoje. 

Seu território em nada lembrava a metrópole atual, o núcleo urbano ficava concentrado unicamente nos entornos da região da Sé confinada entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí.

A pintura de François-René Moureaux, de 1844, expressa de modo mais próximo ao real como foi a entrada de Dom Pedro em São Paulo, depois de proclamar a independência às margens do Ipiranga.

Havia temores que uma guerra civil separasse a Província de São Paulo do restante do Brasil e o príncipe regente decidira vir do Rio de Janeiro até a capital dos paulistas na tentativa de acalmar os ânimos. Ao chegar preferiu antes hospedar-se na Penha.

Como não havia prédios, quem estivesse em frente à igreja, conseguia ver o burgo paulistano e Dom Pedro pediu ao secretário particular, Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, que viesse antes a São Paulo para sentir como estavam os ânimos.

Em 9 de janeiro de 1822, Dom Pedro, anunciou que ficaria no Brasil após ler uma carta mais parecida a uma intimação que José Bonifácio, seu ministro de de confiança, enviou e o colocou a par da situação.

“... A revolução já está preparada para o dia de sua partida. Ministro fiel que arrisquei tudo por minha Pátria e pelo meu príncipe, servo obedientíssimo do Senhor D. João VI, devo dizer que as cortes de Lisboa o têm na mais detestável coação. Eu, como ministro, aconselho a Vossa Alteza que fique e faça do Brasil um reino feliz, separado de Portugal, que é hoje escravo dessas cortes despóticas..."

Foi este documento que ocasionou o Dia do Fico.

Embora português, Dom Pedro se viu obrigado a proclamar a independência do Brasil, antes que algum outro fizesse, ele só não sabia em qual momento e hora, teria condições para anunciar essa decisão.

Informado que os ânimos estavam serenos, o jovem príncipe juntou uma comitiva formada por homens fiéis a ele e seguiu de São Paulo para a cidade de Santos.

Seu objetivo foi verificar como estavam as fortalezas que guardavam o porto caso houvesse uma reação por parte de Portugal.

Segundo registros do historiador santista, Francisco Martins dos Santos, “...As ruas pelas quais o cortejo passou estavam juncadas de flores e folhagens, apinhadas de povo. Das sacadas pendiam colchas de seda e senhoras e moças atiravam rosas e outras flores...”

Dom Pedro se hospedou no Convento dos Jesuítas, onde hoje fica a Alfândega de Santos. Antes, visitou a Fortaleza da Barra e o Forte Itapema, mostrados acima na pintura de Benedito Calixto. Depois, atendeu o convite para jantar na casa da família de José Bonifácio.

A viagem de retorno a São Paulo teve início às 5 horas da manhã, seguiu pela Calçada do Lorena, cujo trajeto íngreme de subida da serra impedia o acesso de cavalos, por isso o caminho foi feito sobre o dorso de mulas.

O mensageiro da coroa Paulo Bregaro, que havia partido do Rio de Janeiro para a entrega das cartas vindas de Portugal, além das assinadas por Dona Leopoldina e José Bonifácio, passou por São Paulo e seguiu com destino a Santos, mas encontrou com a comitiva que voltava.

Era a tarde do dia 7 de setembro de 1822, um sábado e o grupo às margens do Riacho Ipiranga, se preparava para a troca das montarias, substituindo assim, as mulas pelos cavalos, conforme o biógrafo Paulo Rezzutti.

Uma das cartas entregue a Dom Pedro, dava conta da assinatura da independência, decretada em 2 de setembro de 1822, por Dona Leopoldina, na condição de princesa regente do Brasil.

A futura imperatriz usou suas atribuições de chefe interina do governo, para assinar o documento que informava Portugal do resultado da reunião do Conselho de Estado que decidiu pelo rompimento dos laços que uniam os brasileiros ao reino de Lisboa.

O povo ainda não tinha conhecimento dessa decisão, ainda se acreditava no retorno de D. Pedro à sua terra natal, mas diante do que estava nas cartas somado à postura irredutível do governo português de rebaixar o país à condição de colônia, nada mais restava ao príncipe, senão anunciar ali mesmo que estava proclamada a Independência do Brasil.

Dom Pedro conclamou os acompanhantes e fez um breve discurso em voz alta finalizado com o célebre grito que entrou para a história: “Independência ou Morte!”

A pintura de Pedro Américo, concluída 50 anos depois, enobreceu e deu cores românticas ao ato. Em qualquer outro país fariam o mesmo.

Como a cidade de São Paulo ainda era pequena, a informação que o príncipe regente chegaria no final daquela tarde fez com que as pessoas saíssem às janelas e outras permanecessem nas ruas para acompanhar a entrada solene.

Dom Pedro e sua comitiva subiram a Ladeira do Carmo, tendo sido o príncipe recepcionado pelo bispo Dom Mateus de Abreu Pereira, o primeiro a ouvir de viva voz na cidade, a notícia da independência.

O futuro monarca seguiu em meio à festa popular para o Palácio do Governo, localizado onde está reconstruída a igreja do Pátio do Colégio.

À noite houve uma recepção festiva no Teatro da Ópera quando então pôde sua majestade ficar ao lado de Domitila de Castro que havia conhecido em sua primeira passagem por São Paulo, antes de seguir a Santos.

Aquela que seria a Marquesa de Santos, se tornou depois sua amante e confidente.


Ainda em São Paulo, no dia 9 de setembro, nomeou uma junta governativa para a Província de São Paulo, composta pelo bispo diocesano D. Mateus de Abreu Pereira, o ouvidor da comarca, Dr. José Corrêa Pacheco e Silva e o marechal Cândido Xavier de Almeida e Sousa.

Às 5 horas do dia 10 de setembro de 1822, deixou a capital paulista, partindo para o Rio de Janeiro, aonde chegaria em tempo recorde de cinco dias, apesar dos temporais pelo caminho.

Foi Dom Pedro I aclamado imperador, no dia em que completou 24 anos de idade, 12 de outubro de 1822, solenemente coroado e consagrado Defensor Perpétuo do Brasil.

Começava assim o processo de consolidação de nossa independência que segue em andamento até os dias atuais. 

Fontes:

Alves, Odair Rodrigues/Os homens que governaram São Paulo/Nobel/São Paulo/1986

Bittencourt, Vera Lúcia Nagib/De Alteza Real a Imperador/PDF/Universidade de São Paulo/2006

De Assunção, Paulo/São Paulo Imperial: a Cidade em Transformação/Editora Arke/São Paulo/2004

Rezzutti, Paulo/Independência: a história não contada: A construção do Brasil: 1500-1825/LeYa Brasil Editora/São Paulo/2022

Sérgio Ribeiro, Antonio/São Paulo - berço da Independência do Brasil/Portal Alesp/2021

Caminho feito por D. Pedro I/Priscila Mengue/O Estado de S. Paulo/27/07/2022 pg.10 A

Imagens: Google/Wikipédia

quinta-feira, 21 de julho de 2022

Incêndio na região da 25 de Março atinge parte da história

A Prefeitura de São Paulo deu início aos preparativos para demolição do prédio que pegou fogo na região da Rua 25 de Março, no dia 10 de julho de 2022.

O incêndio que durou mais de 60 horas abalou as estruturas do edifício e ficou definido que não haverá implosão.

Operários serão elevados por guindastes para destruir a estrutura de cima para baixo e a demolição total deve durar até seis meses.


O fogo esparramou-se para outros quatro endereços localizados na região da Rua 25 de Março.

A Igreja Ortodoxa Antioquina da Anunciação à Nossa Senhora, que faz parte da história da região, foi atingida.

O templo considerado o mais antigo desta religião no Brasil, foi inaugurado em 1904.

Ali se reúnem para as celebrações, remanescentes dos imigrantes sírio-libaneses, netos e bisnetos de origem cristã.


A artista plástica Cristiane Carbone registrou essa igreja em uma de suas pinturas que ajudam a contar um pouco da história da cidade e isto pode colaborar, futuramente, na restituição da fachada original.

Uma das ruas paulistanas mais conhecidas em todo o Brasil, é a 25 de Março, graças ao comércio popular de tecidos, roupas de cama, mesa e banho, além dos artigos de bazar e papelaria.

Fazem parte da vizinhança ruas como a Cavalheiro Basílio Jaffet, Comendador Abdo Schahim e a Ladeira Porto Geral, cujo nome se deve a um porto de areia existente no passado, nas margens do Tamanduateí que por ali passava.

O pequeno porto servia ao desembarque das mercadorias vindas de Santos, trazidas por pequenas embarcações.

Bastante sinuoso em seu traçado original, o Tamanduateí também era chamado de Rio das Sete Voltas, devido ao emaranhado de curvas na região da Várzea do Carmo, parte que hoje se chama Glicério.


Após sua retificação completa, o Tamanduateí passou a ter cara de um riacho, como mostra a pintura de 1894, assinada por Antônio Ferrigno.

A Rua 25 de Março ganhou este nome por uma homenagem da prefeitura à data de promulgação da nossa primeira Carta Magna, assinada por Dom Pedro I, em 1824.

Mas quem retratou a região de forma exuberante, foi Benedito Calixto no quadro ‘Enchente na Várzea do Carmo’, de 1892.

Clique sobre a pintura para ampliá-la em seu celular.

Esta paisagem foi registrada dois anos antes da pintura de Antônio Ferrigno ser desenhada e nela se destaca a visão exuberante que se tinha do Rio Tamanduateí.

O Pátio do Colégio nesse tempo servia como mirante. Dele e da Rua Boa Vista, ainda é possível ver a baixada onde está agora o Parque Dom Pedro II e uma parte do Brás, naquele tempo repleto de chácaras, casarios e algumas das primeiras chaminés ao fundo.

Na pintura se observa à esquerda, o antigo Mercado dos Caipiras, substituído anos depois pelo atual Mercado Municipal, inaugurado em 1933.

Uma fotografia já do século 20 mostra o Mercado dos Caipiras decadente e quase vazio, sem a presença do Tamanduateí nas proximidades. A retificação do rio levou anos para ser concluída.

Quanto à situação atual, um véu deve ser colocado no alto do prédio incendiado para impedir que os escombros da demolição se desloquem e venham cair sobre outros edifícios ou até mesmo transeuntes.

A implosão, que seria um processo mais rápido, foi descartada por causa de possíveis abalos nas edificações vizinhas.

O prédio atingido pelo fogo tinha 79 salas comerciais onde funcionavam lojas, escritórios e depósitos. Os prejuízos ainda estão sendo calculados.


As fotos da noite do incêndio foram tiradas por um gari que trabalha na região e depois compartilhadas com Devanir Amâncio, nosso amigo e colaborador.



Fonte: O Estado de S. Paulo - Gonçalo Junior