quarta-feira, 13 de julho de 2022

Quase tudo pronto para a reabertura do Museu do Ipiranga

Para muitas pessoas a palavra museu ainda está associada a um lugar chato e destinado a guardar coisas antigas.

Este conceito tende a mudar a partir da reabertura do Museu do Ipiranga, prevista para acontecer em 7 de setembro de 2022, data do bicentenário da Independência do Brasil.   

A restauração completa do prédio histórico, inaugurado em 1895, foi concluída no mês de fevereiro deste ano.

Falta ainda colocar em ordem os ambientes internos que incluem o saguão, as salas de exposições e os corredores, mas tudo isso deve ficar pronto dentro do prazo previsto.

Pelo lado de fora, os testes para a reativação dos chafarizes junto aos jardins franceses, a cargo da prefeitura, estão em andamento.

A grande novidade é que o público poderá interagir e caminhar entre os jatos d’água dos chafarizes, sem se molhar.

Dentro do museu para os visitantes, a forma de se contar a história do Brasil foi revista e modernizada pela colocação de imagens e textos digitais em multimídia.

Por outro lado, peças tradicionais do acervo, como a escultura em mármore do bandeirante Antônio Raposo Tavares serão mantidas, embora o contexto histórico dessas obras tenha sido modificado.

Os bandeirantes não estão sendo encarados como colonizadores, mas agora por alguns historiadores, como escravizadores de índios.

Se trata de um assunto ainda polêmico e como a escultura do artista plástico Luigi Brizzolara, integra o chamado eixo monumental do museu, que está tombado e não pode ser mexido, a estátua continuará onde está.

Ao todo são 54 pinturas e 9 esculturas entre as quais a tela Independência ou Morte, de Pedro Américo, que permaneceu dentro do museu durante a reforma e lá mesmo foi restaurada.


Ao lado de cada uma dessas obras de arte teremos explicações relativas ao contexto histórico da época que levou à colocação delas em uma ala tão importante do acervo.

O Museu do Ipiranga foi fechado em 2013, após uma ampliação assustadora na quantidade de cupins e rachaduras nos pilares e outras estruturas do centenário edifício.


Os primeiros problemas foram relatados décadas atrás em uma reportagem que apresentei na Rádio Eldorado, dentro do programa São Paulo de Todos os Tempos, gravado nas dependências do Museu Paulista, em 1997.

Na ocasião entrevistamos o então diretor da instituição, o professor José Sebastião Witter de saudosa memória.

A reforma agora concluída, acreditamos, coloca um ponto final aos problemas estruturais, comentados pelo então diretor.

O local foi adaptado dentro dos critérios arquitetônicos do “desenho universal”, seguidos pelos museus e demais edificações mundo afora.

Uma nova entrada foi construída para facilitar a acessibilidade de todas as pessoas, além de elevadores, escadas rolantes, auditório, sala de café e leituras.

Para quem quiser ouvir a reportagem gravada feita nas dependências do Museu do Ipiranga, em 1997, seguem os links de acesso ao Anchor e Spotify.

Basta clicar:

Um passeio pelo Museu do Ipiranga #133 de São Paulo de Todos os Tempos (anchor.fm)


Um passeio pelo Museu do Ipiranga #133 - São Paulo de Todos os Tempos | Podcast no Spotify

 


 

Fontes: Jornal da USP e Folha de S. Paulo

sábado, 2 de julho de 2022

Entenda como foi a Revolução Constitucionalista de 1932

Para entender a Revolução Constitucionalista de 1932 é preciso retroceder à Proclamação da República, em 1889.

O fim da Monarquia não suscitou na implantação da plena democracia, fez sim ascender ao poder os grandes fazendeiros, empresários e comerciantes ligados ao café.

São Paulo, até então uma província interiorana afastada dos negócios e dos interesses da capital federal se viu transformada na “locomotiva da nação”.


Todo o café produzido era exportado e o que ficava da safra excedente era comprado pelo governo e depois queimado.

Assim, os preços no exterior se mantinham estáveis e, no mercado interno, o mesmo se fazia em relação ao leite produzido nas fazendas de Minas Gerais.

Tal procedimento garantia a riqueza dos fazendeiros independente do que acontecesse no plantio ou na colheita.

Em razão disso passou a haver alternância do poder somente entre governantes paulistas e mineiros.

Para se ter uma ideia de como era o Brasil nesses tempos, a participação popular na política se limitava a apenas 5% da população com direito ao voto.


Quase não havia para a classe média oportunidades de emprego, deste modo o que se almejava na vida era seguir uma carreira tradicional de comerciante, padre ou militar.

Isto fez surgir uma quantidade enorme de tenentes, ou seja, oficiais de menor patente que com o passar do tempo ficou em número maior que o de oficiais graduados como coronéis e generais.

Esta situação conflituosa deu origem a um movimento político iniciado dentro dos quartéis chamado tenentismo.

Medidas que desagradavam os tenentes, davam motivo para insurreições como foi o caso da Tomada do Forte de Copacabana, em 1922 e a Revolução de 1924, em São Paulo.

A quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, afetou a economia brasileira, os preços do café despencaram no mercado externo e isto fez aumentar internamente o desemprego e a fome.

Em consequência, os fazendeiros de São Paulo e Minas se desentenderam e o então presidente Washington Luiz, decidiu quebrar a regra de alternância e buscou eleger um outro paulista para a presidência da República, Júlio Prestes.

Os tenentes que já haviam tentado destituir a República do Café com Leite, nos levantes de 1922 e 1924, se revoltaram contra o resultado das eleições.

Diferente das outras vezes, a mobilização dos tenentes aconteceu em todos os quartéis do país e o presidente Washington Luiz foi deposto e seu sucessor, Júlio Prestes, nem chegou a assumir.

Os tenentes unidos aos militares de maior patente decidiram conduzir ao poder Getúlio Vargas, que havia sido derrotado nas urnas por Júlio Prestes, em uma eleição considerada por eles fraudulenta.

Este desenrolar entrou para a história com o nome: Revolução de 1930.

Em São Paulo, o PD - Partido Democrático – surgido de uma dissidência do PRP – Partido Republicano Paulista, de início apoiou Getúlio Vargas.

Este, desfila em carro aberto pela capital paulista, antes de prosseguir sua viagem de trem na direção do Rio de Janeiro onde tomaria posse.

Se acreditava que Getúlio Vargas fosse nomear para o governo paulista algum integrante do Partido Democrático, mas essa expectativa não se concretizou.

Em vez de governadores, Getúlio Vargas nomeou para os estados, tenentes-interventores e para São Paulo, escolheu João Alberto Lins de Barros, um pernambucano linha dura e fiel cumpridor de ordens.

Tal atitude irritou os liberais paulistas que deixaram de apoiar Getúlio.

João Alberto para contrapor e provocar a população, colocou seus colegas tenentes vindos de outros estados em cargos importantes do funcionalismo e estes passaram a abusar do poder.

Os nomeados de João Alberto compareciam a lugares de luxo como os restaurantes, por exemplo, comiam e depois penduravam a conta em nome da Revolução de 1930.

No Distrito Federa, o "governo provisório", seguia baixando decretos e mantendo fechadas as casas legislativas, sem manifestar a intensão de transferir o poder de forma democrática e sem sequer cogitar a possibilidade de elaboração de uma nova Carta Magna.

Em 1º. de janeiro de 1931, uma quinta-feira, o jornal O Estado de S. Paulo publicou um editorial no qual propunha ao país a realização de uma assembleia constituinte e fazia lembrar que já era hora de se retomar a normalidade democrática.

Getúlio responde ao jornal através de um porta-voz de sua confiança, Juarez Távora e diz ser ainda cedo porque, “antigos republicanos poderiam reacender a manipulação das eleições”.

Ao retrucar o jornal, o porta-voz acabou unindo os opositores de São Paulo contra os tenentes e contra Getúlio.

Os estudantes da Faculdade de Direito passaram a sair às ruas promovendo comícios e conclamando o povo a pedir uma nova constituição.

João Alberto se contrapõe e dá início à repressão, tendo o cuidado antes de retirar as armas dos quartéis da Força Pública de São Paulo para assim evitar uma possível reação.

As propostas constitucionalistas apresentadas por São Paulo ganham adeptos no Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.

O Partido Democrático rompe com Getúlio e cria uma frente única propondo um governador paulista.

Em 25 de janeiro de 1932 acontece um grande comício na Praça da Sé e em várias partes do país surgem descontentes que apontam estarem os tenentes mandando mais que os generais.

No Rio Grande do Sul e em São Paulo se iniciam mobilizações para que Getúlio seja afastado do poder. Este, pressionado, destitui João Alberto.

Depois de idas e vindas, em 7 de março de 1932, Getúlio Vargas indica um paulista como interventor: Pedro de Toledo.

Em São Paulo, os generais Isidoro Dias Lopes e Euclides de Figueiredo articulam com o general Bertholdo Klinger, do Mato Grosso, um plano para destituir Getúlio Vargas.

No sul do país, o general Flores da Cunha, antigo aliado getulista, se diz revoltado e promete enviar tropas em apoio a São Paulo, assim como o governo de Minas Gerais.

Essas informações chegam até o gabinete presidencial que passa a prometer eleições e uma assembleia constituinte para o ano seguinte, mas já era tarde.

Em 22 de maio, estudantes paulistas se municiam de armas e seguem até a Praça da República com o objetivo de invadir a sede política dos tenentes.



Há um tiroteio e a batalha termina na madrugada do dia 23 de maio com vários corpos de estudantes estendidos nas calçadas entre a Praça da República e a Rua Barão de Itapetininga.

Entre os manifestantes mortos aparecem os nomes Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, um deles de apenas 14 anos, fato causador da comoção popular e revolta contra o ditador.

No dia seguinte é fundado o movimento MMDC, com as iniciais dos quatro jovens, cuja missão seria a de conclamar as pessoas para uma guerra pela destituição de Getúlio e criação de uma assembleia nacional constituinte.

A data para o ataque fica marcada para o dia 14 de julho, a mesma da revolução francesa, mas Getúlio ao ser informado, destitui do cargo, o general Klinger, comandante militar no Mato Grosso.

Isidoro Dias Lopes sugere então que os paulistas se antecipem ao ataque, porque se temia não haver tempo para os gaúchos e mineiros chegarem antes da data acertada e a tese de Isidoro acaba prevalecendo.

“Os jornais não falavam em revolução, anunciavam que haveria uma guerra e passam a convocar os jovens paulistas para o alistamento e adesão a um exército paulista formado por São Paulo”, explica o historiador Hernâni Donato, em sua obra, “Breve História da Revolução Constitucionalista”.

"O clamor popular é intenso e até as jovens solteiras conclamam à luta seus noivos ou namorados: Houve quem dissesse a quem não quisesse vestir a farda, que então vestisse uma saia”. Outra fase: “Homem que é homem vai à guerra", escreve Hernâni Donato em seu livro.

Mais de 200 mil paulistas se inscreveram nas frentes de batalha, muitos jamais haviam pegado em armas, mas foram à luta com coragem e disposição. “Todos os que lutaram pela causa constitucionalista, em 1932, devem ser considerados heróis”, ressalta o historiador em suas páginas.


Cerca de 100 mil mulheres residentes na capital e em outras cidades, passam a oferecer serviços às organizações de apoio para costurar os uniformes dos voluntários e a confecção de agasalhos.

O inverno de 1932 foi dos mais rigorosos as mulheres voluntárias confeccionaram mais de 440 mil fardas e várias delas se prestaram aos serviços de enfermagem para o atendimento dos combatentes feridos.

Ninguém cobrou pelos serviços, as costureiras se revezaram em turnos diurnos e noturnos à frente de 800 máquinas de costura.

"Tal disposição não pode ser esquecida, as mulheres paulistas se portaram como verdadeiras heroínas", destaca o escritor.

A Associação Comercial se mobilizou na manutenção dos salários às famílias dos voluntários em guerra. Até menores de idade foram recrutados para serviços de “office-boy” dentro da cidade.

Na madrugada de 9 de julho, as tropas comandadas pelo general Euclides Figueiredo seguiram rumo à divisa entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Lá, bloquearam o túnel ferroviário, impedindo a passagem do trem que ligava o distrito federal com a capital paulista.

Ali parados, ficaram esperando o reforço das tropas que acreditavam vir em apoio do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais.

Em revide, Getúlio determina a interdição do Porto de Santos e impede a chegada ou a saída de qualquer tipo de embarcação ou mercadoria.

Ao mesmo tempo, o ditador passa a negociar no sentido de demover os comandantes militares dos outros estados da ideia de se associar ao movimento constitucionalista de São Paulo.

No dia seguinte, por aclamação, Pedro de Toledo é nomeado governador de São Paulo, enquanto do outro lado, o poder central passa a divulgar a notícia inverídica que a luta dos paulistas era separatista.


Já o noticiário de guerra dava conta aos jornais de São Paulo que a cada dia as tropas avançavam na direção do Rio de Janeiro, mas Hernâni Donato, em uma entrevista nos disse:
“As notícias eram estranhas porque citavam avanços dos soldados, mas ou se andava em círculos ou se recuava”.

O professor Donato descreve que os jornais um dia informavam que os soldados paulistas estavam no município de Lavrinhas, no outro dia em Piquete, mas não havia um avanço efetivo.

“A verdade, soube-se depois, é que a principal frente de batalha ficou parada na divisa com o Rio de Janeiro”, assim conclui o historiador.

Nos dias da revolução, a Rádio Record se tornou a porta-voz dos paulistas  com a  narração das notícias vindas do front nas vozes de César Ladeira e Nicolau Tuma se revezando nos microfones.

Mensagens de apoio escritas pelo poeta Guilherme de Almeida passaram a ser lidas tendo como fundo musical a marcha Paris Belfort.

A escolha da música se deu de forma aleatória pelo técnico de som, mas se tornou o tema que faz lembrar a Revolução Constitucionalista.

As tropas provenientes de Minas Gerais vieram como se esperava, mas ao contrário do previsto, chegaram atirando nos paulistas pegando-os pelas costas e de surpresa.

O mesmo aconteceu em Itapeva e Buri, ao sul do estado, diante das forças provenientes do Rio Grande do Sul.


Houve ataques também em outras localidades do interior paulista pelas tropas provenientes do Mato Grosso e aviões bombardearam o Campo de Marte para impedir a saída da pequena aviação paulista pertencente à Força Pública.

Diante destes acontecimentos, a população começou a ficar temerosa com o risco da cidade de São Paulo ser bombardeada como já havia acontecido durante a Revolução de 1924.

Ao final, as tropas federais ao entrarem por São José do Barreiro, atacaram as trincheiras paulistas e tomaram para si o controle do túnel ferroviário.

Não havia mais o que fazer, São Paulo perdeu a guerra nas armas.

No dia 3 de outubro de 1932, uma segunda – feira, o Estadão publicou em primeira página os termos de um armistício que colocou fim à guerra. 

Ao lado, na primeira página do jornal, o governador Pedro de Toledo, publica uma mensagem onde explica: “Tudo o que e se pôde fazer foi feito, até uma moeda paulista foi emitida quando os recursos federais foram cortados...”

Uma campanha com valores em ouro de fato foi feita, para dar lastro ao novo dinheiro emitido durante a revolução: “Ouro para o bem de São Paulo”, se chamou o movimento.

 Após a revolução, o que sobrou do montante arrecadado se aplicou na construção de um prédio no centro da cidade, cujo formato lembra a bandeira paulista.

Todos os que comandaram a revolução foram exilados e só depois de longas tratativas, anistiados.

Como o ideal constitucionalista ultrapassou as fronteiras do estado de São Paulo, o país todo passou a exigir uma posição do governo a esse respeito.


Por isso é que se diz; São Paulo não venceu nas armas, mas ganhou graças à defesa dos ideais democráticos.

Isto é verdade, cerca de mil soldados morreram do lado paulista durante a Revolução de 1932 e desse total aproximado, somente 634 foram devidamente identificados estando seus nomes e suas biografias publicados no livro “Cruzes Paulistas – os que tombaram em 1932 pela glória de servir São Paulo”, cuja edição original é de 1936.


A publicação aconteceu como parte de uma campanha desenvolvida para a construção do monumento e do mausoléu hoje existentes no Ibirapuera.

Em 2014, graças ao empenho da Sociedade dos Veteranos de 32 e do incentivo do Centro de Memória Eleitoral do TRE-SP, a obra foi reimpressa pela Imprensa Oficial do Estado para lembrar a existência destes heróis às novas gerações.

No ano de 1934, o Brasil obteve uma constituição que assegurou pela primeira vez, preceitos democráticos que permaneceram garantidos pelas constituições que vieram depois como o direito ao voto secreto com dignidade e o direito de voto à mulher.


Para se entender ainda mais o sentido da Revolução dos Paulistas, é importante fazer lembrar que, até então, não se sabia no Brasil o amplo significado da palavra democracia, como demonstra o histórico levantado neste texto.

A defesa dos ideais democráticos deve ser encarada pelos mais jovens como uma luta permanente em defesa da transparência, cidadania e do estado de direito para todos.

São palavras atuais que fazem sentido também aos ideais do passado, daqueles que lutaram na Revolução Constitucionalista de 1932.

Sempre que surgirem na vida pública, decisões que não respeitem esses princípios, estarão sendo contrariadas as propostas daqueles que tombaram não só por São Paulo, mas pela Pátria.

Não podemos dar ouvidos aos golpistas, a democracia é, e será sempre fundamental.

Por tudo isso a melhor definição para o movimento constitucionalista continua sendo a do poeta Paulo Bomfim: “A trincheira de 32 foi a pia batismal da democracia em nossa terra”.


 

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Roberto Luna: o último boêmio da Pauliceia

Boêmio sempre foi um sujeito com estilo de vida diferenciado dos padrões convencionais.

Sua preferência pela noite e a garoa no lugar do sol e da luz do dia, tinha por finalidade colocar as paixões e coisas do amor em primeiro plano.

Todo boêmio era envolvido com alguma atividade artística, fosse ela musical, literária ou de dramaturgia.

Os boêmios sempre foram pessoas errantes, aventureiras, apaixonadas por aquilo que faziam sem renunciar aos apelos vindos do coração.

Utilizei os verbos no passado porque já não há mais boêmios.

O último deles partiu neste domingo, 26 de junho, aos 92 anos.

Roberto Luna foi o último dos cantores boêmios da Pauliceia Desvairada que existiu no século 20 a se despedir de nós. Agora não há outro, não ficou mais ninguém.


Conheci Roberto Luna em um 25 de janeiro, aniversário de São Paulo pelos idos da década de 1990, na emblemática esquina da Ipiranga com a São João.

Naquele tempo o Bar Brahma ainda mantinha um “Pianos Bar” em suas dependências e Luna passou a cantar acompanhado apenas pelo pianista.

Vestimenta impecável, terno e gravata escuros em contraste com os cabelos brancos arredios já rareando.

Caminhava de mesa em mesa cantando e ao perceber que o cliente sabia a canção, aproximava o microfone para que a outra voz pudesse também ser ouvida por todos.

Sua interpretação cativante levava o público a uma espécie de catarse coletiva, contagiante e emocionada.

Sou sincero em dizer, nunca assisti a show tão intimista quanto aquele, de calar o coração para depois deixar nossa alma lavada.


Roberto Luna nasceu na cidade de Serraria, Estado da Paraíba, em 1º de dezembro de 1929.

Seu nome de batismo é Valdemar Farias, estudou em Campina Grande, onde fez os cursos primário e secundário.

Em 1945, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro onde concluiu seus estudos e passou a trabalhar como caixa em uma empresa imobiliária.

Fez escola de música e de teatro, tendo sido aluno do ator polonês naturalizado brasileiro, o grande Ziembinsky.

Pelo final dos anos 1940, passou a se apresentar como “crooner” nas boates cariocas.

O locutor Afrânio Rodrigues foi quem escolheu para Valdemar Farias o nome artístico Roberto Luna e assim ficou para sempre.

1951, é o ano que marca sua chegada a São Paulo que o deixou deslumbrado pela novidade surgida, a televisão. Seu nome está incluso na lista dos pioneiros da TV brasileira.

No ano seguinte, 1952, lançou seu primeiro disco, o bolero “Por Quanto Tempo?” e o samba-canção; “Linda”.

Foi nesta época que passou a ter um programa de rádio exclusivo: “Audições Roberto Luna”.


Houve então um incidente entre ele e o colega cantor Nelson Gonçalves que passou a andar armado para poder matá-lo.

Nelson quis acertar contas por causa de uma namorada que o deixou se dizendo apaixonada por Roberto Luna.

Este, por sua vez, se escondeu e por uns tempos não apareceu nos lugares onde Nelson Gonçalves pudesse estar.

Foram quase dois anos às escondidas até a raiva passar para que os dois amigos voltassem a se entender.


Não houve ninguém na Música Popular Brasileira do século 20, vivo ou morto, que Roberto Luna não tenha conhecido com exceção do compositor Noel Rosa.

Roberto Luna se foi e com ele fica decretado o fim da boemia nos moldes do século 20 das noites de serenatas ao lado da garoa envolvente desta São Paulo a vagar por ruas vazias das madrugadas infindas.




Uma vida recheada de emoções, canções e acontecimentos interessantes foi contada em 2008 no programa de rádio São Paulo de Todos os Tempos.

Ouça em podcast:

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Roberto Lima, o último cantor boêmio de São Paulo #131 - São Paulo de Todos os Tempos | Podcast no Spotify

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Roberto Lima, o último cantor boêmio de São Paulo #131 de São Paulo de Todos os Tempos (anchor.fm)

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Sem a presença de Walter Taverna, bairro do Bixiga corre o risco de esquecer a própria história

Fiquei triste quando soube do falecimento de Walter Taverna aos 88 anos, em maio último, depois de uma forte pneumonia.

Certamente fui o repórter que mais vezes o entrevistou, tanto que dediquei a ele um capítulo inteiro do meu livro São Paulo de Todos os Tempos Volume II, onde conto a saga de vários personagens eternos desta cidade e seus bairros.

Walter tocou adiante enquanto pôde, a tradição do Bolo do Bixiga iniciada em 1986, quando São Paulo completou 432 anos.

A festa idealizada por Armando Puglisi, o Armandinho do Bixiga, comemorava o aniversário da cidade com um bolo gigante, crescendo um metro a cada ano, na Rua Rui Barbosa.

Armandinho defensor das tradições históricas do bairro não aceitava o nome Bela Vista e dizia que a escrita deveria ser feita com i: “Bixiga”.

Walter Taverna teve uma trajetória de vida bonita, mas com acontecimentos tristes, pois assim como o menino Jesus, nasceu em meio ao cheiro dos animais, no ano de 1933.

A casa onde viviam seus pais, na Rua 13 de Maio 703, ficava nos fundos de uma estrebaria.

Quando tinha cinco anos de idade assistiu sua família ser despejada em uma véspera de Natal, 24 de dezembro. 

O proprietário da casa era seu avô, Victor Taverna, um siciliano de sangue quente que se desentendeu com o filho Carmelo por causa do aluguel atrasado.

Nervoso, mandou colocar todos os móveis do filho e sua família na rua, sem se importar com a data do aniversário de Jesus.

Desesperada, a mãe de Walter Taverna, dona Modesta, mandou cada um de seus sete filhos para a casa de um parente.

O menino Walter ficou com uma tia na Bela Vista, mas um dia chutando bola, quebrou a vidraça da sala e sua tia o mandou embora.

Sem ter para onde ir ficou perambulando pelas ruas e passou a dormir enrolado em jornais nas escadarias do Morro dos Ingleses, onde está a Praça Dom Orione.

Não faltaram oportunidades para se tornar um delinquente, ficou cinco meses dormindo na rua, até que uma outra tia que morava na Vila Mariana, ficou sabendo e lhe deu abrigo.

Tia Pepina, o colocou na escola, lhe deu carinho e assim que ficou mais crescido buscou para ele não um emprego, mas algum tipo de ofício.

Ela entrava em um estabelecimento comercial e pedia ao proprietário que ensinasse ao menino sua profissão.

Foi assim que o menino Walter aprendeu vários serviços como os de barbearia, de tapeceiro, marceneiro e cozinheiro.

Na profissão de barbeiro, como não tinha um salão, batia de porta em porta em oferecendo seus serviços.

Descobriu que havia muita gente doente ou mesmo idosa que não conseguia mais sair às ruas e passou a fazer a barba ou cortar o cabelo dessas pessoas.

Quando morria alguém no Bixiga o chamavam para dar banho, pentear e vestir os defuntos.

Ele me disse que nessas horas até gostava, “porque dava para cobrar um pouco mais pelo serviço e isso me ajudava”, explicou. 

Em 1957, ao completar 23 anos com o dinheiro que ganhava como barbeiro, alugou um apartamento na Rua Dr. Luís Barreto e chamou os pais, os irmãos e irmãs para morarem com ele.

 Certo dia, depois de umas economias, seu pai alugou um carro, colocou a mãe e quatro dos sete irmãos e foram para São Roque, ver a Festa do Vinho, mas nem chegaram lá. 

No Km 27 da Raposo Tavares, o carro em que estavam bateu de frente com um outro veículo que trafegava no sentido oposto e todos morreram. 

Depois desse desastre outras tragédias pessoais aconteceram, como a morte da primeira esposa Cleonice e de dois filhos, um deles chamado Walter Taverna Júnior, vítima de um disparo acidental de arma de fogo. 

Passado mais esse baque, casou-se novamente com dona Olga Morilha e com ela montou seu primeiro restaurante no Bexiga.

Desse casamento nasceu a filha Solange, que lhe deu duas netas e um neto que passaram a ajudá-lo na Cantina da Conchetta, na Rua Treze de Maio, 560. Olga faleceu em 2004.

Mas foi com a morte de Armandinho do Bixiga, em 1994, que ficou para Walter Taverna, a tarefa de fazer o bolo de aniversário da cidade de São Paulo e assim promover o bairro.

Walter decidiu ampliar e fez o maior pão e a maior pizza do mundo, em um deles o evento foi realizado sobre a pista do Minhocão. 

Nesta cerimônia do pão, na Rua Rui Barbosa com Conselheiro Carrão, fiz minha visita e tiramos essa foto juntos.

Em seguida criou o Centro de Memórias do Bixiga, na Rua Treze de Maio 569, quando o museu criado por Armando Puglisi, na Rua dos Ingleses, passou a ter dificuldades por falta de apoiadores.


Também para Walter Taverna faltou patrocínio várias vezes e em algumas ocasiões, chegou a colocar dinheiro do próprio bolso para que a tradição se mantivesse. 

Agora sem ele o Bixiga perde seu último guardião da memória e por isso o bairro corre o risco de esquecer sua própria história. 

A velocidade de São Paulo atropela suas próprias tradições.


 


 Tchau! Taverna.

 

 

 

 

sábado, 4 de junho de 2022

O que temos em São Paulo: Especulação Imobiliária ou Indústria da Construção? Opine: Você decide

Pessoas reclamam comigo pelas redes sociais sobre a quantidade de demolições que colocam em risco as tradições e o patrimônio histórico da cidade de São Paulo.

“Tradição não enche barriga”, também já me disseram os mais céticos.

Maior exemplo é a Avenida Rebouças, onde quem sobe de carro da Faria Lima para a Avenida Brasil assiste a uma mudança radical sem precedentes na Lei do Zoneamento Urbano, tamanha a quantidade de demolições.

Casas como a da foto e sobrados vieram abaixo para subir no lugar edifícios comercias na Avenida Rebouças. 

Aos poucos o setor imobiliário avança na direção dos Jardins até então intocado e protegido por uma Lei do Zoneamento criada pela própria Companhia City que edificou o Jardim América há mais de um século.

Novas alterações no Plano Diretor começarão a ser discutidas em julho deste ano.

No Tatuapé e no Ipiranga, por exemplo, o processo de verticalização está trazendo um novo rosto para estes bairros.

Se isto é bom ou ruim só o tempo dirá, mas faz parte de um processo que não é de agora, começou há décadas na cidade de São Paulo.

Existem os que chamam este processo de especulação imobiliária, mas o setor imobiliário se defende explicando que na verdade o que existe é a indústria da construção que gera empregos e movimenta a economia.

Em parte, isto é verdade, tudo o que se constrói para a classe média é vendido em São Paulo, embora o déficit habitacional para as famílias carentes permaneça gigantesco.

Quanto ao Patrimônio Histórico defendo a existência de um órgão único de proteção. Hoje são dois na capital paulista; Compresp e Condephaat.

Essas duas instâncias tornam burocrático demais os processos de tombamento, ao mesmo tempo em que faltam estudos sobre a viabilidade de utilização de um imóvel depois que ele é tombado.

O uso do casarão que pertenceu à família Santos Dumont, na esquina das alamedas Nothmann e Clevland foi um dos poucos casos que deu certo, embora dentro de uma região degradada como é o caso dos Campos Elíseos.


Na maioria das vezes o tombamento torna o imóvel subutilizado, foi 
o que aconteceu com o Palacete Joaquim Franco de Mello, na Avenida Paulista, que agora pertence à Secretaria Municipal da Cultura, mas durante 27 anos houve um embate judicial com a família proprietária.

Em várias partes do mundo o proprietário de um imóvel tombado fica feliz, pois será indenizado pelo poder público que também sairá lucrando com a utilização cultural ou turística do lugar.

Aqui não, geralmente os donos de um imóvel tombado sentem desespero quando recebem a notícia.

Lembram quando os Matarazzos mandaram demolir o casarão da família na calada da noite, no início da década de 1990?

A empresa de demolição foi orientada para retirar da parede o brasão da família e os jornais publicaram. Tremenda vergonha!

Sobre o centro tão degradado ao que me consta não há por parte da prefeitura, um levantamento efetivo e atualizado do que pode ou deve ser tombado ou mesmo alguma destinação de edifícios para moradores sem teto. 

Ruas do centro seguem ocupadas por centenas de barracas com famílias inteiras e o Projeto Renascer, anunciado pelo atual prefeito parece não ter avançado e ninguém mais toca no assunto.

Fiquei sabendo apenas de um projeto de transformação da Praça Princesa Isabel em um parque. Há também os que querem tombar tudo.



Lembram-se daqueles que defendiam o tombamento pelo Condephaat até mesmo do edifício São Vito, o famoso treme-treme vizinho do Mercadão?

Isto é São Paulo!

 

domingo, 29 de maio de 2022

O rádio, as feiras livres e o costume de reclamar

Durante anos apresentei um programa de rádio chamado De Olho na Cidade que abria espaço para as reclamações dos ouvintes. Dessa experiência cheguei à conclusão que o povo gosta e muito de reclamar, tenha motivo ou não.


Os ouvintes reclamavam de tudo e gostávamos porque aumentava a nossa audiência, mas até de questões pessoais que não tínhamos como resolver pintavam na programação. Por exemplo: o vizinho do apartamento ao lado que assiste televisão em volume alto até altas horas e dificulta o sono de quem precisa acordar cedo no dia seguinte.

Coisas assim precisam ser resolvidas entre as partes, mas o reclamante entra em contato com a rádio para não se expor e por achar que através dos microfones ele resolverá a questão.

Assuntos ligados ao sono eram recorrentes entre os ouvintes, mas certa vez um cidadão de um bairro da periferia, entrou no ar pelo telefone e reclamou de um sabiá-laranjeira que piava todas as madrugadas em uma árvore próxima de sua janela, a partir das 3h30 e o acordava cedo demais. 

O que fazer? Os galos também começam a cantar a partir destes horários e até pouco tempo atrás eu mesmo ouvia do meu quarto um galo cantando nas imediações, mas de repente seu canto sumiu. Acredito que o destino dele tenha sido o mesmo de outros da sua espécie, ou seja, alguma panela.

Outra reclamação costumeira pelo rádio era, e ainda é, contra os feirantes que começam a montar suas barracas antes do nascer do sol e fazem barulho, embora exista agora uma legislação a respeito desses horários.

Mas em São Paulo é assim, todos gostam das feiras livres, desde que aconteçam fora da rua onde moram.

Sabe-se que as feiras ocupam o espaço público, impedem o trânsito e interditam as garagens, mas a vantagem de tê-las por perto também é grande, por causa das frutas e verduras sempre fresquinhas.

As feiras livres fazem parte do cotidiano da cidade, desde o século 18. Contam os historiadores que chacareiros provenientes da Penha, do Tatuapé, de Pinheiros e do Ó, levavam até o centro os seus produtos para serem vendidos.

Os feirantes daquele tempo se utilizavam somente de um tabuleiro sem cobertura que ficava exposto ao sol e à chuva.

Geralmente não era o dono da chácara quem vendia os produtos, mas sim um escravo idoso que já não produzia bem na lavoura.

Esse trazia consigo algum outro ajudante que perdera parte da visão, ou que por algum motivo ficou aleijado.

A mulher escrava doente também se tornava feirante, só que os lucros iam todos somente para o chacareiro.

As feiras livres do século 18 tinham outro nome; “quitanda”, por isso existe até hoje a Rua da Quitanda, no centro velho.

O Largo do Café também leva esse nome por causa da comercialização deste produto naquele ponto. Por causa das feiras, é que surgiram na Pauliceia as ruas de comércio especializado.

Desde os tempos de Piratininga, os feirantes apregoam seus produtos fazendo algazarra para alegrar o ambiente.

As feiras livres como conhecemos hoje foram institucionalizadas na cidade de São Paulo em 1914, por decisão do prefeito Washington Luiz Pereira de Souza. A iniciativa se deu para oficializar algo que já ocorria informalmente, como explicamos, desde os primórdios.

A primeira feira livre nos moldes estabelecidos pela prefeitura contou com a presença de 26 feirantes e teve lugar no Largo General Osório e a segunda realizou-se no Largo do Arouche, com 116 feirantes. Houve depois a terceira, no Largo Morais de Barros.

Na atualidade, acontecem 922 feiras livres todas as semanas na capital paulista entre as terças e domingos, no horário entre 7h30 e 13horas. como manda a legislação.

A história paulista e das feiras livres caminham juntas, embora todos saibam que feira livre boa, é aquela que acontece na rua dos outros.