segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Adhemar de Barros e os primórdios do marketing político-eleitoral no Brasil

Dando continuidade em nosso blog à série sobre eleições, falaremos da trajetória política de Adhemar Pereira de Barros, interventor, prefeito e governador paulista.

Foi candidato na maioria dos pleitos realizados entre as décadas de 1940 e 1960, perdendo e ganhando eleições.

Nasceu em Piracicaba no dia 22 de abril de 1901, formou-se em Medicina, tendo lutado por São Paulo na Revolução Constitucionalista de 1932.

Ingressou na política, assim que foi promulgada a constituição exigida pelos paulistas em1934, tendi sido eleito para um mandato de deputado estadual que deveria durar quatro anos, onde ficou apenas dois (1935 - 1937).

O motivo foi a implantação do Estado Novo pelo então presidente Getúlio Vargas que mandou fechar todas as casas legislativas.

Depois, convidado pelo próprio Getúlio foi designado interventor federal em São Paulo, cargo correspondente ao de governador, onde permaneceu de 1938 a 1941.

Com o fim da Ditadura Vargas, se elegeu governador novamente, desta vez pelo voto direto seguindo à frente do executivo paulista de 1947 a 1952.

Foi se tornou prefeito da capital ao ganhar a eleição de 1957 e reeleito governador em 1962.

Em seu dia-a-dia foi aprendendo a lidar com as estratégias eleitorais, implantando ideias hoje chamadas de marketing político.





Além dos panfletos, programas de rádio, matérias pagas em jornais e revistas havia marchinhas musicais da dupla sertaneja Alvarenga e Ranchinho apresentando canções favoráveis a ele.

Sua marca registrada nas campanhas passou a ser o trevo de quatro folhas e o slogan: "Adhemar pra ganhar".

Mas, de onde vinha o dinheiro para se pagar tudo isso? Essa era a grande pergunta e acusações de corrupção não faltavam.

Além de político, era um empresário bem sucedido, dono da Chocolates Lacta e da Rádio Bandeirantes, entre outras empresas.

A emissora depois, seria transferida ao genro também empresário João Jorge Saad.

Contam que certa vez em um comício Adhemar teria dito: "No meu bolso nunca entrou dinheiro público." Na plateia, alguém retrucou: "Calça nova, doutor!"

A verdade é que nunca se explicou direito de onde vinham as verbas para as suas campanhas.

Os opositores e parte da imprensa deram então um nome a esses procedimentos, “Caixinha do Adhemar”.

A. de Barros, como escrevia o Estadão para insultá-lo, contratou uma equipe de cinema para a montagem do cinejornal Bandeirantes da Tela, mais conhecido pela sigla BT.

Apresentado de 1947 a 1956, em edições quinzenais, as produções traziam as realizações do então governador pelo ponto de vista favorável a ele e seus apoiadores.

Esses filmes hoje pertencem ao acervo da Cinemateca Brasileira, por sinal fechada, sob risco de perda de seu imenso material ali arquivado.

                              

Em uma foto extraída do livro comemorativo de 80 anos do TRE-SP, lançado em 2012, vemos estampada a abertura do cinejornal Bandeirantes da Tela.

Médico, mas principalmente político, Adhemar Pereira de Barros costumava dizer em seus discursos não se esquecer das obrigações condizentes à missão de clinicar.

De fato, realizou muito em prol da saúde pública, tendo inaugurado o Hospital das Clínicas, administrado pela Faculdade de Medicina da USP.

Sua esposa, dona Leonor Mendes de Barros, pessoa muito caridosa, foi a primeira mulher de um político a promover benemerências.

No bairro do Belenzinho, na capital paulista, funciona até hoje um hospital público com o nome dela, na Avenida Celso Garcia, 2477.




Adhemar levava a família em seus comícios e após discursar, era abraçado por esposa e filhos.

O populismo tão comentado nos dias de hoje, fazia parte de suas estratégias de marketing político. Ao mesmo tempo em que abraçava as angústias dos mais pobres, defendia com unhas e dentes o conservadorismo da classe dominante.

Criou um partido próprio, o PSP - Partido Social Progressista, abraçando em seus quadros todos os que se diziam adhemaristas.




Quando Getúlio Vargas se lançou candidato à Presidência da República pelo voto direto, nas eleições de 1950, Adhemar preferiu não concorrer.

Os dois selaram um acordo: Getúlio apoiaria Adhemar na sua sucessão, mas em 24 de agosto de 1954, Vargas praticou o suicídio e o apoio deste foi por água abaixo,


Ainda assim, Adhemar de Barros se candidatou na eleição eleição presidencial de 1956, mas perdeu para Juscelino Kubitschek.

Na eleição seguinte, 1960, foi derrotado por Jânio Quadros e pelo marechal Teixeira Lott, ficando na terceira colocação.

Voltou como governador eleito em 1962 e acabou cassado antes mesmo do término do seu mandato.

Em 1964 apoiou a derrubada de João Goulart pelos militares acreditando que as eleições presidenciais de 1965 aconteceriam e com elas a chance de tentar, mais uma vez, chegar ao cargo mais importante da nação.

Quando o marechal Castelo Branco anunciou a extinção dos partidos e a supressão das eleições presidenciais, Adhemar fez críticas severas à decisão.

Acabou cassado pelos generais, tendo sido o seu nome o terceiro na lista de cassação, atrás apenas de Carlos Lacerda e Juscelino Kubistchek, também pré-candidatos.

Pela terceira vez em sua vida política, Adhemar de Barros seguiria ao exílio, fixando moradia em Paris, capital francesa.

Tendo adoecido, foi operado em janeiro de 1969, de hérnia e litíase, buscando a cura em águas consideradas milagrosas do santuário e gruta de Lourdes, na França, após visitar sofreu uma síncope.

Morreu em Paris, a 12 de março de 1969, aos 68 anos.

Seu corpo transladado para o Brasil foi desembarcado no Aeroporto de Viracopos, obra inaugurada por ele. 

O transporte até a capital paulista se deu pela Via Anhanguera, outra obra que teve a sua inauguração.

O sepultamento aconteceu no Cemitério da Consolação, em 16 de março, com grande presença de público e o toque de silêncio para o veterano da Revolução de 1932.


Fontes:  Paulistânia Eleitoral Ensaios e Memórias – Organização: José D’Amico Baub – pg. 209 com a colaboração de Rodrigo Archangelo, doutor em história social pela Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e autorização do Centro de Memória Eleitoral do TRE-SP.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Eleições municipais chegando, como nos tempos de Jânio e Erundina

Estamos dando início a uma série de postagens para contar fatos interessantes acontecidos nas campanhas eleitorais falando depois sobre as gestões dos eleitos.

Na política sempre há muitos insultos e provocações foi o que aconteceu entre os Jânio, Erundina, FHC e Maluf.

Em 1° de janeiro de 1989, Luiza Erundina de Souza assumiu o cargo de prefeita, depois de uma eleição bem disputada em turno único. Sua vitória foi sobre Paulo Maluf, com pequena margem de votos.

Primeira mulher a gerir os destinos da capital paulista, cuja população na época era de 9,8 milhões de habitantes, a paraibana de Uiraúna, antes vereadora, ganhou a eleição fazendo oposição ao então prefeito Jânio da Silva Quadros. 

O homem da vassoura defendeu durante sua gestão a implantação de garagens subterrâneas e um túnel por baixo do Rio Pinheiros, priorizando assim o transporte individual. 

Para contrapor, a candidata passou a defender caso fosse eleita, investimentos na melhoria do transporte coletivo.

Mas a política é contraditória, enquanto Jânio instituiu na cidade ônibus dois andares, beneficiando o transporte coletivo, Erundina, em sua gestão, inaugurou um os dos túneis do Anhangabaú e construiu mais um ponte na Marginal do Pinheiros, a Ponte Bernardo Goldfarb. 

Jânio instituiu a Guarda Civil Metropolitana - GCM e Erundina os “marronzinhos" da Companhia de Engenharia de Tráfego - CET” que ela preferia chamar de “amarelinhos”.


Foto de 1986 mostra o surgimento dos Arcos do Jânio após demolição dos sobrados
Foto de 1987 aponta o surgimento dos "Arcos do Jânio" após derrubada de antigos sobrados

Durante sua campanha eleitoral, Luiza Erundina, que era vereadora, criticava em plenário o ex-presidente - prefeito que retrucava na mesma medida. 

As discussões eram tantas que o nosso eterno chefe, José Paulo de Andrade, chegou a dizer em uma das edições do programa O Pulo do Gato que Jânio e Erundina, faziam lembrar a dupla musical “Jane e Herondy”, que fazia sucesso com uma música sobre um casal que vivia brigando, mas se amava profundamente. O nome da música? "Não se vá".


                                                                                       Jane e Herondy 


Conhecido em São Paulo por ter sido de tudo um pouco; prefeito, governador e presidente da República que renunciou sete meses depois de assumir, o varre-varre vassourinha estava de volta 25 anos depois.

Tendo sido prefeito entre 1953 e 1955, retornou em 1986 alimentando polêmicas com nuances engraçadas,  uma característica dele.

A primeira coisa foi a desinfetar a cadeira onde se sentava o prefeito.

“Desinfeto. Por ter sido ocupada por nádegas indevidas”, explicou.

Seu adversário na ocasião, o então senador Fernando Henrique Cardoso, dias antes da eleição foi ao gabinete do então prefeito, Mario Covas e tirou fotos sentado em sua cadeira.

Jânio utilizou aquilo em seu favor, acusando o gesto de arrogante pelo fato da eleição ainda não ter acontecido.

De fato, FHC que até aquele momento estava na frente nas pesquisas acabou perdendo.

Montagem reúne foto de FHC na cadeira do prefeito e Jânio fazendo a desinfecção dias depois


Eleito prefeito, Jânio Quadros deu início às suas decisões polêmicas, a primeira delas mandar colocar cercas em volta dos parques públicos sem consultar os vereadores. 

Houve reclamações e petições em contrário, mas as cercas permaneceram e estão lá até hoje,  ninguém mais reclama delas.

Depois mandou demolir, na calada da noite, um conjunto de antigos sobrados no bairro da Bela Vista, até então considerados de patrimônios históricos.

Aconteceu que ao se derrubar as antigas casas, se descobriu - sem querer - uma construção ainda mais antiga; um paredão erguido em tijolos para escorar o morro mais acima estava coberto pelos sobrados.

Não se encontrou na prefeitura nenhum documento que confirmasse a data daquela edificação, portanto, a obra encontrada valia mais, em termos de preservação, do que a existente antes.  Daí, o apelido de “Arcos do Jânio”.


Jânio dispensou as capas do paletó, mas passou a vesti-lo com camiseta no mesmo tom


De vez em quando o prefeito dava escapulida até Londres, cidade que dizia adorar. Depois se descobriu que havia outros motivos naquelas viagens.

Sem comunicar à Câmara Municipal que estava saindo em viagem, deixava os vereadores furiosos.

Depois, imitando os londrinos, levou adiante seu projeto de colocar em  São Paulo, ônibus de dois andares para o transporte coletivo.


Em 8 de setembro de 1987, São Paulo virou Londres recebendo o "Fofão", apelido dado pelo povo 


Nada parecia abalar o burgomestre que quase ao final de seu mandato, conseguiu aprovar a proposta de se construir o túnel que passa por baixo do Rio Pinheiros na direção do Morumbi.

Aí então, Luiza Erundina volta à nossa história.


Foto mostra Luiza Erundina, em 1989, sentada na mesma cadeira desinfetada por Jânio

Como queria priorizar o transporte coletivo, a "Tia" já eleita, argumentou que a continuidade da obra do túnel sairia cara demais aos cofres públicos, 

Ela preferiu aplicar o dinheiro na ampliação da frota de ônibus da hoje privatizada Companhia Municipal de Transportes Coletivos - CMTC.

Quatro anos se passaram e o adversário dela na eleição anterior, Paulo Maluf, saiu candidato novamente e dessa vez levou a melhor.

Eleito prefeito, mandou concluir a obra que sua antecessora havia deixado para trás e o túnel acabou pronto em 1994

Foi assim que o burgomestre virou nome de uma importante obra viária de São Paulo

Hoje para se chegar ao Túnel Presidente Jânio Quadros, é necessário passar antes pela Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, por ironia do destino seu antecessor na chefia da nação.

No curto período em que foi presidente, JQ criticou muito JK e vice-versa.

Agora os dois seguem juntos, emprestando suas nomenclaturas a duas vias públicas unidas em uma mesma direção, coincidência que na época ninguém notou.



Antiga foto de jornal mostra Jânio e Juscelino aderindo à Frente Ampla de 1967


O mais importante de tudo que foi contado é que todos os nomes citados foram eleitos pelo voto direto.

Sendo assim, viva a democracia!

 

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Repórter Aéreo foi o primeiro a noticiar volta do sequestrador à casa de Sílvio Santos

Logo depois de ter iniciado minha carreira de repórter aéreo, descobri onde morava o apresentador e magnata das comunicações, Silvio Santos.

Todas as manhãs ele costumava fazer Cooper, dando voltas pelo quintal de sua mansão no Morumbi.

Quando nos via, brincalhão como é, sorria e dava tchauzinhos para nós no helicóptero.

Isto acabou sendo útil para mim anos depois quando a filha dele, Patrícia Abravanel, foi sequestrada, em 2001.

Na ocasião, fui o primeiro a noticiar pelo helicóptero que o sequestrador, Fernando Dutra Pinto, havia voltado à residência no dia seguinte ao resgate ter sido pago.

Sílvio Santos e sua filha procuram sorrir após desfecho dramático 

Todos acreditaram que o sequestro havia terminado.

Funcionários do flat-hotel onde ele havia se hospedado, na cidade de Osasco, viram armas de grosso calibre e avisaram a polícia.

Três investigadores compareceram ao local para prendê-lo, mas no tiroteio dois desses policiais civis foram mortos e o terceiro ficou gravemente ferido.

Após o tiroteio, Fernando Dutra Pinto, desceu do prédio onde estava pelo lado de fora, pulando de andar em andar.

Entrou em um carro e seguiu dirigindo até a casa do dono do SBT.

Chegando à residência fez do empresário-apresentador seu refém, assim como a filha Patrícia, e o restante da família.

Seu objetivo não era agora conseguir um novo resgate, mas a chance de se livrar da prisão.

Fernando Dutra Pinto, um dos mais ousados bandidos já surgidos foi morto em briga no presídio 

Na manhã daquele 30 de agosto de 2001, tendo este repórter aéreo tomado conhecimento do término do sequestro pelo noticiário do dia anterior, antes de decolar, passou instruções ao comandante Glaucos Delgado, que voaria naquele dia para a Rádio Eldorado.

Partimos, noticiando o trânsito como de praxe, mas indo na direção da casa de Sílvio Santos, localizada nas proximidades da Ponte do Morumbi.

Embora não se soubesse ainda dos desdobramentos, queria eu me certificar que tudo estava bem. Faro jornalístico, modéstia à parte.

Lembrei Sílvio Santos se exercitando no quintal, me acenando alegremente. 

O que vimos, no entanto, foi a mansão cercada por viaturas policiais.

Avisei a redação da Rádio Eldorado sobre o que estava acontecendo e imediatamente foram encaminhados repórteres para noticiar por terra, os desdobramentos na Rua Antônio Andrade Rebelo, endereço do apresentador.

A checagem da redação confirmou a invasão da residência e um novo sequestro em andamento dentro da casa.

Pude assim ser o primeiro a noticiar do helicóptero o que se passava em torno da residência, já explicando o motivo da presença de tantas viaturas policiais.

Narrei tudo o que eu via de cima, conseguindo aquilo que se chama furo de reportagem.

Percebe-se pela claridade que outros helicópteros sobrevoaram a casa bem depois do início da manhã

Naquele momento, provavelmente 7h30 da manhã, não havia ninguém da imprensa sobrevoando o local, apenas este repórter pela Rádio Eldorado.

Ficamos horas seguidas girando sobre a região com deslocamentos apenas para reabastecer a aeronave.

Repórteres da emissora, em frente do endereço, noticiavam de um outro ponto de observação ou entrevistando policiais porque ninguém estava autorizado a entrar dentro da casa.

Percebe-se por esta foto tirada da rua, o quanto foi difícil o trabalho da imprensa naquele dia

Diante daquele desenrolar coube a nós anunciar a chegada de mais viaturas policiais e as interferências no trânsito decorrentes da ação.

Por volta do meio-dia ou pouco depois disso, o então governador do Estado, Geraldo Alckmin, entrou na residência deixando policiais e jornalistas atônitos.

O ousado sequestrador poderia ter matado Sílvio Santos, sua família e ainda o governador do Estado.

Se tratava de uma pessoa perigosa e destemida que teve a capacidade de matar dois policiais e de ferir gravemente um outro

Foram momentos de muita tensão naquele trabalho de informar o ouvinte, qualquer palavra poderia ser mal interpretada 

Muitas horas se passaram até que o sequestrador decidiu se entregar, os motivos que o levaram a essa decisão ainda são contraditórios, mas enfim tudo deu certo.

Após a retirada pelos fundos da casa de Fernando Dutra Pinto pela polícia, Silvio Santos e o governador saíram à janela e da sacada do andar superior da mansão falaram aos jornalistas na rua.

Sílvio Santos surge ao lado do então governador Geraldo Alckmin para dar informações sobre o fim do sequestro

Explicaram sem muitos detalhes o desfecho que resultou na solução do impasse.

Em seguida o governador se retirou e Silvio Santos continuou diante da imprensa buscando passar serenidade vindo sua filha Patrícia, então com 23 anos, logo depois.

Do alto observei o apresentador conversando, suas palavras chegaram até mim, pela escuta do rádio, mas seu sorriso não era nem poderia ser o mesmo dos programas de auditório.

Ao caminhar de volta para dentro de sua residência, notei um Sílvio Santos buscando disfarçar o nervosismo.


Sílvio Santos se despede dos repórteres com um aceno

Contei isso aos ouvintes naquele exato momento e depois um repórter da Rede Globo disse a mesma coisa durante o Jornal Nacional, só que utilizando outras palavras.

Após o fim do sequestro retornei em definitivo à base, acredito por volta das 4 horas da tarde, obviamente faminto.

No dia posterior ao acontecimento voltei mais uma vez em sobrevoo à mansão de Silvio Santos.

Vi quando ele deixou sua casa conduzindo sozinho o seu Lincoln branco, ano 1976, uma das marcas registradas dele até então.


O carro de Sílvio Santos na época do sequestro, em 2001 era este Lincoln 76

Não havia nenhuma segurança particular ou mesmo uma viatura policial a escoltá-lo.

Acompanhei o automóvel vendo do alto ele descer a  Avenida Morumbi e avistei o carro ingressando na Marginal do Pinheiros.

Dali ele tomou o rumo da Via Anhanguera, onde fica o SBT, e só depois, em uma entrevista, explicou porque não pediu escolta policial.

“Dirijo sempre sozinho, minha segurança sou eu mesmo, todos conhecem o Sílvio Santos”.

Se alguém achar que exagerei ou contei alguma mentira, segue aqui a reportagem do JN sobre o sequestro



Confira a edição de 30 de agosto de 2001, do Jornal Nacional com apresentação de William Bonner e Fátima Bernardes.

Nosso helicóptero aparece entre as inserções. 

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

João Doria pisa na bola ao excluir pessoas com deficiência da isenção do IPVA


Somente depois que tirei a minha Carteira Nacional de Habilitação – CNH, muitos anos atrás, é que fiquei sabendo que as Pessoas Com Deficiência – PCD, tinham direito à isenção do pagamento do IPVA em seus automóveis.

Para o meu carro particular atual e para o anterior, por força da lei, houve o pagamento do IPVA. Não conto mais com a isenção, mas fico preocupado com quem ainda tem esse direito e encontra dificuldades para pagar este imposto caro, pela necessidade de ter um carro adaptado, cujo preço é mais alto que um modelo popular, mesmo não podendo dirigir.




Essa é uma história longa, cheia de detalhes e que se modifica de tempos em tempos, mas vou tentar resumir.

Em 2008, uma Lei Estadual relacionada à cobrança do Imposto Sobre a Propriedade de Veículos Automotores, passou a determinar que “não precisa pagar o imposto o PCD que tenha um único veículo de sua propriedade”.

Essa lei passou a isentar todas as pessoas com deficiência física, inclusive as que não podem dirigir como os autistas, os cegos e síndrome de down.

Em 2017, Geraldo Alckmin então governador, sancionou alterações nesta legislação determinando a isenção do IPVA somente para veículos com valor máximo de R$ 70 mil.

Entidades de apoio aos portadores de deficiência, saíram em defensa dos que dependem inteiramente do carro, reivindicando que o valor máximo de isenção fosse aumentado.

“Os carros sobem de preço e o valor da isenção continua o mesmo e muitas dessas pessoas dependem de carros automáticos ou com adaptações”, explica Rodrigo Rosso, presidente da Assoc. Bras. da Indústria, Comércio e Serviços de Tecnologia Assistiva – Abridef, mas aconteceu justamente o contrário.

O governo do Estado de São Paulo encaminhou recentemente à Assembleia Legislativa o projeto de lei n° 529/2020, estabelecendo medidas voltadas ao ajuste fiscal e ao equilíbrio das contas públicas.

Entre as proposituras se pede: “critérios mais adequados para a isenção aos portadores de deficiência que possuem carro, mas não dirigem.

Existem cadeirantes que não dirigem e não conseguem entrar ou sair de um veículo sem a ajuda de alguém

As pessoas que não dirigem, não precisam de carros adaptados e por essa razão existe o risco de fraudes, ou seja, alguém pode comprar o carro no nome dessa pessoa sem que ela faça uso do mesmo. 

Pode ocorrer, mas haveria tantos fraudadores desse tipo a ponto de colocar em risco as contas públicas?

Nenhum levantamento a esse respeito foi mostrado pela Secretaria da Fazenda para justificar a medida.

Também precisa ser explicado qual é o tamanho dessa renúncia fiscal em valores relativos ao orçamento estadual. 

Sinceramente, parece haver outro tipo de implicância a esse respeito, pois acreditamos que não existam tantas pessoas com deficiências severas ou profundas que coloquem em risco os cofres do governo.

O governador João Doria precisa ser mais sensível, porque o prejuízo social causado por uma decisão desse tipo, pode ser maior do que os lucros para o governo.

Daí nosso apelo para que o governador, o seu líder na Alesp, e os demais deputados estaduais abordem com carinho esse trecho do projeto 529/2020.




Assuntos que dizem respeito à qualidade de vida de cidadãos que enfrentam limitações, merecem análise criteriosa para não se maltratar ainda mais quem já sofre em demasia.

Diz a gíria esportiva: De repente, João Doria está pisando na bola, por desconhecimento sobre a real da situação existente dentro dos lares de inúmeras famílias que arcam com as despesas dessas pessoas.

Precisamos ser ainda mais sensíveis nessa hora!


RESPOSTA DO GOVERNADOR VIA ASSESSORIA DE IMPRENSA:

O Governo de São Paulo identificou um crescimento desproporcional de isenções de IPVA, que indicam fraudes. A proposta tem o objetivo de coibir essa prática ilegal, enquanto garante o benefício para quem mais precisa e tem direito. Desde 2016, o número de isenções de IPVA cresceu 139%, de 138 mil para 330 mil veículos, e a compra desses veículos subiu 246%, de 29,5 mil em 2016 para 102,1 mil em 2019. Com isso, o valor das isenções desse imposto subiu de R$ 232 milhões para R$ 677,5 milhões. Enquanto isso, no mesmo período, a população de pessoas com deficiência no estado cresceu apenas 2,1% no estado - de 3.156.170 em 2016 para 3.223.594 em 2019, de acordo com a Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência.

Assessoria de Imprensa
Secretaria de Projetos, Orçamento e Gestão – 26/08/2020

Fonte: Revista Reação
https://revistareacao.com.br/projeto-de-doria-que-retira-beneficios-de-pcd-pode-ser-votado-pelos-deputados-estaduais-paulistas-a-qualquer-momento/


segunda-feira, 17 de agosto de 2020

São Paulo guarda debaixo do asfalto uma bacia hidrográfica por onde passam avenidas


Durante a construção do túnel Tribunal de Justiça, aconteceu um desmoronamento que ganhou manchetes nos telejornais.

Na madrugada de 24 de novembro de 1993, rompeu uma galeria do Córrego do Sapateiro, sob a Rua Antônio Joaquim de Moura Andrade, proximidades da Avenida São Gabriel.

Com isso as águas deste antigo riacho vieram à tona, dando o ar de sua graça como nos tempos em que seguia a céu aberto, na direção do Pinheiros

As águas que formam o Lago do Ibirapuera são provenientes do Córrego do Sapateiro com nascente na Rua Sena Madureira

 O Córrego do Sapateiro tem uma história interessante, durante uma parte do século 20 margeou o antigo matadouro da Vila Mariana, cujo prédio foi ocupado pela Cinemateca Brasileira, hoje em risco de abandono.

Depois, foi canalizado na altura da Rua Sena Madureira e suas águas formam o lago do Parque do Ibirapuera, inaugurado em 1954, continuando seu curso só que debaixo da terra.

Uma pequena usina de tratamento de esgotos faz com que as águas do córrego cheguem limpas ao Lago do Ibirapuera

Durante os reparos para continuidade da obra de implantação do Túnel Tribunal de Justiça, a construtora cercou tudo com tapumes e os desvios no trânsito, que já existiam, foram ampliados pela CET.

Com isso os transeuntes não podiam ver a cascata formada no antigo cruzamento que dava início à Avenida Juscelino Kubstcheck.

Apenas a visão privilegiada dos repórteres aéreos tinha acesso para descrever do alto o visual que se tinha lá embaixo.

Jornais e emissoras de TV alugaram helicópteros para fotografar e filmar aquele cenário inusitado.

Aquela cobertura despertou em mim, uma curiosidade imensa.

Busquei então fazer um levantamento da quantidade de avenidas que hoje existem sobre antigos córregos canalizados.

Muitas pessoas nem sabem de sua existência, mas a cidade de São Paulo guarda debaixo de si uma verdadeira bacia hidrográfica.

São os afluentes dos rios Tamanduateí, Tietê e Pinheiros, hoje guardados debaixo do asfalto.

Em São Paulo quando chove mais forte as águas dos riachos canalizados se sobrepõem às galerias e ganhas as ruas

Afluentes do Rio Tietê

Córrego do Pacaembu – Avenida Pacaembu
Córrego da Água Branca – Avenida Francisco Matarazzo
Córrego da Água Preta – Avenida Pompeia
Córrego Sumaré – Avenida Sumaré
Córrego Tatuapé – Avenida Salim Farah Maluf
Cabuçu de Baixo – Avenida Inajar de Souza
Ribeirão Verde – Avenida Edgar Facó

Uma parte da Avenida Salim Farah Maluf  tem por baixo de si o Córrego Tatuapé 

Afluentes do Rio Tamanduatei

Córrego Anhangabaú – Avenida Prestes Maia
Córrego Saracura – Avenida Nove de Julho
Córrego Itororó – Avenida 23 de Maio
Ribeirão da Mooca – Avenida Anhaia Mello
Córrego do Lavapés – Rua do Lavapés
Riacho Moinho Velho – Avenida Tancredo Neves
Riacho do Ipiranga – parte da Rodovia dos Imigrantes

O monotrilho segue sobre a Avenida Anhaia Mello e debaixo dela está o Riacho que segue da Vila Ema  até a Mooca

Afluentes do Rio Pinheiros

Córrego do Sapateiro – Avenida Juscelino Kubstcheck
Córrego da Traição – Avenida dos Bandeirantes
Córrego Uberabinha – Avenida Hélio Pelegrino
Córrego das Águas Espraiadas – Avenida Roberto Marinho
Córrego do Antonico – Avenida Jorge João Saad
Rio Pirajussara – Avenida Eliseu de Almeida

Por baixo da Avenida 9 de Julho sentido centro está o Córrego da Saracura, um afluente do Anhangabaú 


Acrescente-se que por baixo do Lago do Ibirapuera seguem os dois túneis do Complexo Viário Ayrton Senna, uma homenagem ao piloto tricampeão mundial de Fórmula 1, morto em 1° de maio de 1994.


A cidade guarda ainda muitos outros riachos canalizados, enumerá-los todos seria difíl porque nem a prefeitura possui um registro completo





segunda-feira, 10 de agosto de 2020

São Paulo teve um Arco do Triunfo, mas só por algumas semanas


O então presidente da República, Epitácio Pessoa, anunciou durante o ano de 1921 uma visita à capital paulista. 

Naquela época não havia os aviões de carreira e a viagem do Rio de Janeiro – então Distrito Federal – para São Paulo, aconteceria de trem.

Para tornar a recepção efusiva, afinal os chefes de estado viajavam bem menos que agora, o então prefeito paulistano Firmiano Pinto, mandou erguer um monumento exclusivo para aquela recepção.


Surgia assim o Arco do Triunfo de São Paulo, montado em madeira e gesso para durar só algumas semanas, pois não recebeu sequer um grão de cimento.

A ideia veio de um trabalho feito em Nova York para uma solenidade semelhante só durar alguns dias.

No Brasil, a execução ficou a cargo do Escritório Ramos de Azevedo e cerca de 200 operários fizeram tudo no curto prazo de três dias. 


Na foto acima, feita provavelmente de um avião, se observa o local exato da montagem naquela que seria hoje, a pista lateral da Avenida Tiradentes sentido centro, em frente à Estação da Luz.

O pontilhão à direita, na fotografia. ainda existe, agora coberto pelo asfalto e segue na direção da Rua Brigadeiro Tobias.

A pista central é que ainda não existia, na atualidade um viaduto passa sobre os trilhos da ferrovia, oferecendo ao tráfego viário circulação nos dois sentidos.


O Arco do Triunfo montada para a prefeitura paulistana tinha 28 metros de altura por 27 de largura.

Sua abertura era de 14 metros para cima e 10 metros de largura, se possibilitando assim a passagem dos bondes e demais veículos durante os dias que antecederam ao desfile. 

Ao fundo, na mesma foto se observa parte da Igreja e do Colégio de São Cristóvão.


Após desembarcar na Estação da Luz, o presidente Epitácio Pessoa seguiu trajeto pelas ruas da cidade.

Percebe-se na direita desta fotografia parte do prédio da atual Pinacoteca do Estado.


Jornais da época registraram o acontecimento em primeira página.


Observe a foto estampada na edição do Correio Paulistano de 20 de agosto de 1921, em tamanho ampliado.



Após a visita solene, o Arco do Triunfo em homenagem a Epitácio Pessoa foi demolido semanas depois e nunca mais se cogitou a volta dele.


Em Nova York aconteceu o contrário, a obra de curto prazo foi refeita a pedido da população. 

Reconstruído uma segunda vez e, definitivamente em concreto, segue localizado na entrada do Washington Square Park ao final da 5ª Avenida.