segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Confissões de um vereador: Livro revela verdades sobre a cidade de São Paulo e faz desabafo

“São Paulo é um lugar onde a luta por soluções nunca termina”, afirma o médico e ex-vereador Gilberto Natalini, em seu livro "Lutas Sem Fim", lançado em 2021. 

No final do ano passado, compareci como convidado a um evento presidido pelo vereador Eliseu Gabriel, em comemoração aos 87 anos do bairro Itaim-Bibi e Natalini também estava por lá.

Na saída do encontro perguntei ao ex-vereador os motivos que o levaram a não tentar a reeleição para a Câmara Municipal na eleição de 2020.


Gilberto Natalini explicou que não houve uma única razão, mas uma série de acontecimentos alguns dos quais colocados em seu livro recém-lançado.

Na obra ele faz um balanço de suas atividades durante as cinco legislaturas em que exerceu o cargo de vereador, entre 2002 e 2020.

Nestes 18 anos estiveram no comando da prefeitura: Marta Suplicy, José Serra, Gilberto Kassab, Fernando Haddad, João Doria e Bruno Covas.

Suas áreas preferenciais de atuação na Câmara Municipal foram saúde pública e meio ambiente.

O livro tem linguagem pesada e às vezes confusa, mas trata de assuntos importantes como a "Carta de Atenas", elaborada em 1933, após um congresso que reuniu na Grécia arquitetos e urbanistas do mundo todo.

Na ocasião foram estabelecidos critérios para o crescimento harmônico das cidades, mas houve falhas em propostas importantes como a preservação da higiene dos rios e regras relacionadas ao desmatamento e uso do solo.

Os equívocos da "Carta de Atenas" ajudam explicar os erros cometidos em São Paulo que fizeram da metrópole um lugar inóspito e estéril em vários aspectos, inclusive no que diz respeito às relações humanas.

Gilberto Natalini está prestes a completar 70 anos, além de político, é médico e ambientalista, por isso no livro o tempo todo ele aborda questões científicas e técnicas. Sobre o efeito estufa, ele escreve:

“... Se trata de um processo iniciado no século 19, de aumento da temperatura média dos oceanos e da atmosfera da terra, causado por emissões de gases lançados da queima de combustíveis fósseis, desmatamentos e mudanças nos costumes que passaram a observar a natureza como material de exploração...”


A cidade de São Paulo com o seu trânsito caótico, colabora para o aumento do efeito estufa no planeta sem a devida compensação ambiental.

Foram transcritos dados interessantes que dizem respeito à Mata Atlântica: 

“O bioma ocupa 15% do território brasileiro, se concentra na costa, passa por 17 estados do país e sua extensão hoje representa apenas 12,4% da área original. A cidade de São Paulo abriga somente 17% dos remanescentes florestais originais...


“... No início do século 20, a Mata Atlântica cobria 69% da área ocupada pelo Estado de São Paulo, hoje restam apenas 13,7% desse total.

De acordo com o Atlas dos Remanescentes Florestais, nos últimos 30 anos foram desmatados mais de 183 mil hectares de Mata Atlântica no estado paulista.

Dos 645 municípios existentes no estado, 574 possuem cobertura de Mata Atlântica, mas para nenhum deles existe uma solução que traga tudo que foi perdido de volta...”

Como conclusão o livro define:

“... O que nos resta é realizar atividades no sentido de manter o que ainda existe e para isso se faz necessário modificar formas de comportamento, além de se conscientizar a todos sobre a necessidade de preservação permanente. Todavia se sabe que o aquecimento global e suas consequências deverão continuar século 21 adiante...”


“... Poderemos ter, elevação dos mares e o declínio da biodiversidade que envolve fauna e flora, além do agravamento em larga escala dos índices de fome, epidemias e conflitos violentos pelo fato de muitos perderem o que possuem por causa de sucessivas e bruscas mudanças ambientais...”



Enfim, valeu a pena ter lido o livro “Lutas Sem Fim”, e de ter comparecido em dezembro ao evento de aniversário do Itaim-Bibi. 

Ao Gilberto Natalini, embora com certo atraso, parabéns pelo lançamento!

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Os hotéis de São Paulo e as histórias que poucos conhecem

São Paulo é campeã na qualidade e quantidade de hotéis em relação às demais capitais brasileiras.

A cidade perdeu recentemente o Maksoud Plaza, mas recebeu em troca o Rosewood São Paulo, primeiro hotel seis estrelas no Brasil nas dependências do complexo Cidade Matarazzo que terá até árvores nas varandas.


Pesquisas internacionais sempre mostram São Paulo entre as cidades campeãs em hospitalidade no mundo, graças à boa receptividade de seus hotéis.

Na capital paulista funcionam cerca de 1350 estabelecimentos deste tipo que recebem anualmente mais de 2,3 milhões de hóspedes.

A pandemia fez diminuir a quantidade de viagens, mesmo assim os números ainda colocam a Pauliceia na liderança do País no recebimento de turistas.

Parece surpreendente porque não há praias, o forte de São Paulo é o turismo de negócios, e mesmo aquele que vem a trabalho sempre encontra tempo para desfrutar de algum atrativo.

Existem agências que promovem pacotes de visitas a lugares como as arenas esportivas de futebol, jóquei clube, autódromo, galerias de arte, museus, além é claro, dos restaurantes.

São Paulo é a única cidade a oferecer pratos que constam no cardápio de 48 nações, por isso é chamada de “capital mundial da gastronomia”.


A história da hospitalidade paulistana, entretanto, mostra um passado nada recomendável em termos de bom-acolhimento e respeito aos turistas ou visitantes. 

No século 17, mais propriamente em 1620, existia apenas uma cama pertencente ao morador Gonçalo Pires. O restante da população dormia em redes ou simplesmente no chão.

Tal situação é descrita no livro “No Tempo dos Bandeirantes”, do cronista Belmonte, publicado em 1939. A obra é repleta de curiosidades a respeito da Piratininga do Brasil colonial.

A Câmara de Vereadores obrigou Gonçalo Pires a emprestar sua cama para uma autoridade que viria de Portugal.


Depois que o hóspede foi embora e sua cama devolvida, Gonçalo Pires apresentou um protesto por escrito à câmara municipal, conforme registro em atas da edilidade paulistana.

Se decidiu então implantar uma casa para hospedagens e um cidadão, cujo nome era Marcos Lopes, ficou encarregado de ser o hospedeiro oficial.

Seu atendimento, entretanto, foi considerado rudimentar pelos hóspedes e por tal motivo o serviço não seguiu adiante.


A falta de lugares para descanso dos viajantes, prosseguiu até a primeira metade do século 19, conforme relato do francês Auguste Saint-Hilaire em seu livro, “Visita à Província de São Paulo”.

O autor descreve que em 1819, morava no Largo do Piques um português chamado João Bexiga, que recebia em sua residência pessoas que quisessem dormir e não cobrava nada, pedia dinheiro apenas para cuidar dos cavalos.

Após passar uma noite nesse lugar, a conclusão de Saint-Hilaire foi que os cavalos acabavam sendo mais bem tratados que seus  proprietários, porque as acomodações da casa de João Bexiga eram péssimas.


Em 1826, houve uma leva de imigrantes alemães recém-chegados ao Brasil que por ordem de Dom Pedro I, vieram parar em São Paulo.

Ao chegarem se constatou que não havia lugar para eles e o grupo de alemães permaneceu esparramado pelas ruas durante alguns meses uma situação quase semelhante à dos sem-teto de hoje.

Só depois de algum tempo, é que o Senador Vergueiro teve a ideia de mandá-los para Santo Amaro onde fundaram uma colônia alemã que hoje é nome de um bairro na região de Parelheiros.


Bares noturnos surgiram a partir do ano seguinte à vinda dos alemães, 1827, por causa da implantação dos cursos jurídicos no Largo São Francisco e jovens estudantes passaram a circular pela cidade até as altas horas.

Hotéis de verdade, mas ainda precários, vieram só depois de 1850 e o primeiro deles foi o Hotel Paulistano.

Em seguida foram inaugurados os hotéis do Comércio e Universal, além deles o Hotel Quatro Nações tornou-se bem conhecido, tendo modificado seu nome depois para Hotel de França.



Mais adiante, em 1878, foi inaugurado o Grande Hotel, na Rua São Bento, cuja foto aparece acima. Em pouco tempo o lugar passou a ser considerado, o melhor do Brasil. 

Seu proprietário, Frederico Glete, recebeu em 1886, com toda pompa e circunstância, a famosa atriz francesa Sarah Bernhardt, uma das primeiras mulheres no mundo das artes cênicas a obter projeção internacional.


Jornais da época, como o Correio Paulistano, noticiaram que após sua apresentação em uma noite chuvosa no Teatro São José, estudantes da Faculdade de Direito acompanharam a atriz até a entrada do hotel de um modo cavalheiresco nunca antes visto.



Para que a diva não sujasse os sapatos na terra molhada, os jovens colocaram seus paletós no chão para que a estrela pudesse caminhar sobre eles até a entrada do hotel. 

Sarah Bernhardt mostrou-se lisonjeada com a atitude e ao agradecer, lançou beijos a todos em meio ao burburinho de vozes, assovios e aplausos.

A atriz do século 19, de tão famosa, virou marca de sabonete. Esta é apenas uma entre tantas histórias de São Paulo em seus primórdios.

Segue abaixo um anúncio de jornal sobre o show de Sarah Bernhardt.



 

Livros: 

Belmonte/No Tempo dos Bandeirantes/Editora Melhoramentos/21a. edição/São Paulo/1998

De Saint-Hilaire, Auguste/Visita à Província de São Paulo/Garnier Editora/2a edição/São Paulo/2020

Obs: Outras informações foram obtidas na entrevista com a professora Raquel D'Alessandro Pires, da Faculdade de Hotelaria da Unip e da Unisa – Sorocaba, autora da dissertação, Hotéis da Cidade de São Paulo, história e trajetória (1889-1971) em 2006.

Ouça a entrevista em podcast acessando: 

https://open.spotify.com/episode/0FBeNfBBp7NNytMSIbhqy2?si=NkTuA23sQOiqbBXbNY6qCA&utm_source=whatsapp&nd=1


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Monteiro Lobato x Anita Malfatti e muito mais sobre a Semana de 22

Fevereiro de 1922 foi o mês em que aconteceu a Semana de Arte Moderna que aos poucos modificou pensamentos em relação à concepção do que é arte no Brasil. O movimento modernista não foi revolucionário, mas transformador e o centenário deste encontro histórico, se dará no domingo, 13 de fevereiro de 2022.

Todos nós sabemos que nada surge de uma hora para outra, já existia na Europa ações culturais diferenciadas dos moldes tradicionais e no Brasil, em 1917, uma exposição de pinturas levantou discussões que culminaram na elaboração da Semana de 22, em resposta aos intelectuais conservadores de então.




A “Exposição de Pintura Moderna Anita Malfatti”, inaugurada no dia 12 de dezembro daquele ano, reuniu em um salão do centro de São Paulo, 53 quadros da artista que convidou para a mostra outros pintores com os quais compartilhara experiências nos Estados Unidos.

Logo na primeira semana, 8 pinturas de Anita foram vendidas, mas eis que, numa quinta-feira, 20 de dezembro de 1917, aparece nas páginas de “O Estado de S. Paulo", um texto avassalador assinado por ninguém menos que Monteiro Lobato.



Cronista e escritor já bem lido e conhecido, Lobato na coluna, até que tentou preservar Anita de sua revolta contra os modernistas, naquele tempo chamados também de futuristas.


Na crônica buscou mostrar simpatia à pintora, mas a deixou de “saia justa” ao escrever que os modernistas,
“vêm anormalmente a natureza e a interpretam à luz das teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva”.

Quanto a Anita ele diz: “Essa artista possui um talento vigoroso, fora do comum...Entretanto, seduzida pelas teorias do que ela chama arte moderna, penetrou nos domínios de um impressionismo discutibilíssimo, e pôs todo o seu talento a serviço duma nova espécie de caricatura. Sejamos sinceros: futurismo, cubismo, impressionismo e tutti quanti não passam de outros ramos da arte caricatural...”

O ataque do escritor de Taubaté mexeu com aquilo que a pintura de Anita Malfatti possui de mais valioso, a fuga do desenho formal de rostos e dimensões. Isto pareceu ousado demais para o pensamento conservador da época do qual o próprio Lobato fazia parte. 




Mais à frente no texto    , o escritor enfatiza: “...não fosse profunda, a simpatia que nos inspira o belo talento da sra. Malfatti, e não viríamos aqui com esta série de considerações desagradáveis.”

E prossegue: “Como já deve ter ouvido numerosos elogios à sua nova atitude estética, há de irritá-la como descortês impertinência, a voz sincera que vem quebrar a harmonia do coro de lisonjas. Entretanto, se refletir um bocado, verá que a lisonja mata e a sinceridade salva...”




Ainda que na tentativa de preservar Anita, Monteiro Lobato na verdade a deixou desconcertada, a ponto dela receber de volta 5 dos 8 quadros vendidos. O artigo foi grosseiro, de uma raiva descabida em relação aos modernistas e nunca houve alguém que testemunhasse a visita dele à exposição, ou seja, criticou sem ver.

A exposição começou perto do natal, depois vieram as festas de ano novo e uma resposta ao autor, foi apresentada quase um mês depois, por Oswald de Andrade, assinando com as iniciais, O.A. nas páginas do "Jornal do Comércio".

Ao fazer a defesa da artista, Oswald elogiou o pioneirismo e originalidade das pinturas, só que em 18 de janeiro de 1918, um dia após o término da exposição.



Uma discussão entre de Mário de Andrade e Monteiro Lobato, foi retratada na minissérie, “Um Só Coração”, de Maria Adelaide Amaral, levada ao ar em 2004 pela Rede Globo. A conversa suscitou no rompimento entre os dois.




Monteiro Lobato manteve-se irredutível em seu parecer, a ponto de relançar a crítica em seu livro, "Ideias de Jeca Tatu", de 1919, com o título “Paranoia ou Mistificação”.

Em resposta ao que consideravam intransigência do escritor, os empresários e mecenas Paulo Prado, Rene Thiollier e outros paulistanos endinheirados da época, decidiram financiar a criação da Semana de Arte Moderna de 1922. Para isso escolheram o espaço cultural mais caro, requintado e desejado da cidade, o Teatro Municipal de São Paulo.

Ao relembrar os 100 anos da Semana de 1922 tenho dedicado meu tempo a refletir as razões pelas quais ainda não surgiram no Brasil do século XXI, mentes criadoras que possam trazer inovações aos nossos meios culturais, artísticos e musicais como aconteceu na São Paulo de um século atrás.

Aprecie abaixo duas outras obras da artista plástica Anita Malfatti.

O Farol - 1917
Homem Amarelo - 1917

Leia nosso artigo: https://blogdogeraldonunes.blogspot.com/2022/01/brasil-2022-segue-parado-na-linha-do.html

Fontes:

Monteiro Lobato/Artes e Artistas /O Estado de São Paulo/20/12/1917

Portal Outras Palavras: A exposição de Anita Malfatti - 26/04/2014

Portal Toda Matéria: Anita Malfatti por Daniela Diana, professora licenciada em Letras

Andrade, Oswald/Um homem sem profissão/2ª. ed. Rio de Janeiro/Civilização Brasileira/1976

Lobato, José Bento Monteiro/Ideias de Jeca Tatu/35a ed. São Paulo/Editora Brasiliense/1973



segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

“Minha Casa, Minha Rua”: Na capital paulista há 32 mil pessoas sem-teto, população acima de muitas cidades

A prefeitura de São Paulo apresentou durante o mês de janeiro, um censo para determinar a quantidade pessoas que vivem nas ruas da capital paulista. Os números apontaram a triste marca de quase 32 mil pessoas. 

Essa quantidade é superior à população de 34% dos 5.570 municípios brasileiros, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE. Outro dado alarmante é o que indica um aumento de 31% no total de moradores de rua, em comparação a 2019.

Para o Ministério Público – MP de São Paulo, essa quantidade pode ser ainda maior, por isso notificou a prefeitura para que apresente em 15 dias detalhes de como foi feito o levantamento.

Uma reportagem publicada pelo Estadão mostrou que há tempos, famílias em situação de rua não ocupam somente as calçadas do centro com suas barracas, estão também em vários bairros paulistanos tanto da zona leste, quanto nas regiões norte e sul.

O prefeito Ricardo Nunes explicou que sua intenção não é discutir e sim colaborar com o MP para que se definam logo as políticas públicas a serem levadas adiante para minimizar o problema.

A Prefeitura anunciou para breve o lançamento de um projeto chamado Vila Reencontro que irá oferecer moradias provisórias às famílias que passaram a viver na condição de rua, a partir da crise econômica trazida pela pandemia.

As famílias beneficiadas ficarão 12 meses em uma moradia de 18 m² com direito a cozinha, quarto, sala e banheiro.

Neste período será oferecido um aporte de recursos e assistência social para que os chefes dessas famílias recuperem sua autonomia.

Após a reinserção dessas pessoas no convívio social, serão apresentadas oportunidades para a aquisição de uma moradia permanente.

Falta ainda definir a data de lançamento do programa, o primeiro núcleo de moradias será montado no Parque Dom Pedro II.

Este é um assunto preocupante que não se resolverá facilmente, porque em São Paulo quanto mais se faz, muito mais se precisa  fazer.

Só para concluir: Quem mora em São Paulo sabe que aqui é uma luta sem fim.

Fontes: Portal G1

 https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2022/01/26/mp-da-15-dias-para-prefeitura-de-sp-esclarecer-como-foi-feito-censo-da-populacao-de-rua.ghtml

Portal Estadão:

https://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,crise-joga-familias-nas-ruas-e-barracas-se-espalham-por-sao-paulo,70003965142

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Faixa Azul foi o melhor presente de aniversário para São Paulo nos seus 468 anos

Desde os meus tempos de repórter aéreo se buscava uma forma de diminuir a quantidade de acidentes de trânsito envolvendo os motoboys, cujo apelido pejorativo na época era “cachorro louco”.

Certa vez discuti com alguns colegas de redação, contrários a uma ideia do então presidente da Companhia de Engenharia de Tráfego - CET, Roberto Salvador Scaringella, que iria testar uma faixa exclusiva para motos na Avenida 23 de Maio.

Argumentei na ocasião que a tentativa era válida pelo objetivo de preservar vidas no trânsito.

Naquele tempo, 2006, morriam em média dois motociclistas por dia no trânsito paulistano, tais ocorrências movimentam viaturas de resgate, equipes do Samu e até o helicóptero da PM que transporta para os hospitais os casos mais graves.

Os colegas de redação, por sua vez, insistiam na questão do “cachorro louco” e argumentavam que os motoboys acidentados são os mesmos que cometem diariamente infrações diversas, chutam portas, quebram espelhos retrovisores dos carros e depois fogem.

De fato, esses “profissionais” em duas rodas ainda fazem coisas desse tipo, mas minha tese era que deixá-los morrer pelo fato de serem inconsequentes não passava de um exagero cruel.


A morte de um cidadão no trânsito, por pior condutor que ele seja, modifica o destino de famílias inteiras.

Muito do estresse deles ao dirigir é resultado dos baixos salários e da preocupação permanente em sustentar os filhos, as esposas e demais familiares muitas vezes doentes em uma cama.

Todos nós sabemos onde dói o calo, a pandemia está aí para mostrar o quanto sofre uma família que perde seus entes queridos.

A iniciativa do engenheiro fundador da CET, entretanto, foi inglória; os testes realizados em 2006 não deram certo e os motoqueiros seguiram na sua trajetória de imprudências, pagas na maioria das vezes com a própria vida.

Roberto Scaringella morreu em 2013, mesmo ano em que foram implantadas as faixas exclusivas para ônibus nos dois sentidos da Avenida 23 de Maio.

Neste caso o resultado foi positivo, o transporte coletivo passou a fluir com mais velocidade, beneficiando milhares de passageiros.

As tentativas de diminuírem acidentes com motos ficaram no esquecimento, mas o número de ocorrências continuou em ordem crescente.

No ano passado, cerca de 400 motociclistas perderam a vida por envolvimento nas ocorrências de trânsito na capital paulista, a média manteve-se acima de uma morte por dia.

Dos que sobreviveram quase 7 mil saíram com ferimentos graves carregando consigo sequelas para tratamento médico nos centros de reabilitação pagos pelo SUS.


Diante da quantidade de ocorrências, a decisão da CET de realizar mais uma tentativa para diminuir acidentes envolvendo motoboys, foi ao nosso ver a melhor notícia deste início de ano.

Desde o dia 25 de janeiro, aniversário de 468 anos da cidade de São Paulo, está em operação o projeto-piloto “Faixa Azul”, no sentido centro-bairro, da Avenida 23 de Maio, cujo objetivo é diminuir em até 30% as ocorrências que envolvem motocicletas.

A diferença das propostas anteriores está na criação desta “Faixa Azul”, pontilhada no asfalto, junto à faixa da esquerda dos carros, lugar onde os motoboys se acostumaram a andar em espaço compartilhado com os demais veículos.


Efetivou-se uma prática que já acontecia, mas agora sinalizada, o que facilita a fiscalização. O motociclista que ingressar no corredor exclusivo terá que andar na velocidade dos carros com a vantagem de se arriscar menos.

A proposta é de tentar preservar vidas e não deixar impune os infratores.

O trecho sinalizado fica entre a Praça da Bandeira e o Parque do Ibirapuera, no sentido Aeroporto.

Em entrevista a um canal de televisão, o especialista em mobilidade urbana, Flamínio Fishmann, explicou que até hoje o sistema viário funcionou para atender somente os que andam de automóvel, “mas é preciso evoluir”.

Ele entende que pedestres, ciclistas e motociclistas fazem parte de um mesmo cenário e não podem continuar morrendo em tamanha quantidade.

Usando essas palavras, o especialista complementou aquilo que tentei argumentar aos meus colegas de profissão 16 anos atrás, sem conseguir. Lamento ter discutido com eles, mas sigo acreditando que fiz certo.

Por tudo isso entendo que a Faixa Azul foi o melhor presente de aniversário que a cidade de São Paulo obteve em 2022.

Os serviços de motoboys e moto fretes aumentaram muito em razão da pandemia e a geração de empregos cresceu no setor, então nada melhor que aumentar a segurança de quem trabalha e tem sua vida preservada.

Mortes de motociclistas

2020 = 345

2021 = 394 + de 1 por dia aumento de 16% 6.548 sofreram ferimentos graves

Faço votos que os motociclistas se conscientizem, obedeçam a sinalização, não procurem escapar utilizando outras faixas e que por amor a seus familiares preservem suas próprias vidas.


E agora, para descontrair, mostro uma marca de queijo que adoro.

Se alguém quiser me presentear, informo que aceitamos a pronta entrega através do serviço de um motoboy. Abraços aos leitores e leitoras, até mais ver!

 

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Depois do aniversário a pergunta: Como está a São Paulo de 468 anos em termos de acessibilidade?

O besteirol político que se fala na programação de boa parte das emissoras jornalísticas, fez com que eu perdesse o hábito de ouvir rádio diariamente.

Só que ainda não perdi o costume por completo, de vez em quando vacilo, mas para minha sorte ouvi no feriado de aniversário da cidade um conteúdo de qualidade.

Foi assim: No 25 de janeiro, acordei mais cedo que o habitual e então, liguei o rádio para ouvir o que as emissoras estavam falando sobre os 468 anos desta Pauliceia cada vez mais bruta e menos desvairada.

De estação em estação cheguei aos 107,3 FM onde o nosso estimado colega, Haisem Abaki, transmitia o Jornal Eldorado de tão boas lembranças para este ex-repórter voador.

Sintonizei bem na hora que se iniciava um bate papo com Luiz Fernando Ventura, editor do blog Vencer Sem Limites, do Portal Estadão, voltado aos assuntos de acessibilidade.

A conversa girou em torno de como está São Paulo nessa questão que também envolve a inclusão social, as explicações do blogueiro foram muito boas.

Ventura comentou um levantamento apresentado pela Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência, dando conta que dos 12 milhões de habitantes residentes na capital paulista, 892 mil possuem algum tipo de deficiência.

Desse total 42% são deficientes visuais, 26% deficientes físicos, 15% pessoas com deficiência intelectual e 14% com deficiência auditiva.

O dono do blog explicou que diante de números tão expressivos, percebe-se o quanto será difícil tornar a cidade de São Paulo acessível em sua totalidade.

"Mesmo assim São Paulo serve de exemplo aos demais municípios brasileiros", disse ele.

Luiz Fernando Ventura deu exemplos, informou que funciona na capital paulista a Central de Intermediação de Libras – CIL, para atender pessoas que se comunicam pela Língua Brasileira de Sinais.

Há também um Conselho Municipal para Assuntos da Pessoa com Deficiência e uma Comissão Permanente de Acessibilidade.

Outro avanço é o fato da Secretaria Municipal das Pessoas com Deficiências fiscalizar projetos que só depois de aprovados, recebem os selos de Acessibilidade Arquitetônica ou Acessibilidade Digital.

No portal da secretaria municipal, é possível acessar um mapa de serviços aos munícipes com deficiências com programas voltados ao segmento, como o Cultura Acessível, Virada Inclusiva, Festival Sem Barreiras e outros.

Conforme Luiz Fernando Ventura, na conversa pelo rádio com Haisem Abaki, as Pessoas com Deficiências, ainda reclamam de problemas com o transporte coletivo, qualificação profissional, possibilidades de empregos e questões ainda mais abrangentes como a violência e a discriminação.

Ao término da conversa me senti feliz, consegui ouvir através do rádio algo verdadeiramente informativo que fugiu à mesmice da maioria das emissoras.

Faço questão de contar a vocês, meus leitores e leitoras, que tudo o que ouvi, foi devidamente checado, por isso busco sempre citar todos os nomes e fontes colocados em meus textos. Afinal, sou daqueles que ainda fazem jornalismo ético.

Quero acrescentar que neste 25 de janeiro de 2022, cheguei à conclusão que nem tudo está perdido no rádio, ainda há ótimos profissionais, como Haisem Abaki, um craque dos microfones. 

Assista ao trailer do documentário: Ser Pessoa com Deficiência em Sampa.


Fontes:

Vencer sem limites - Blog Luiz Fernando Ventura – Estadão

https://brasil.estadao.com.br/blogs/vencer-limites/

Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência: https://www.pessoacomdeficiencia.sp.gov.br/noticias/

Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência

Pessoa com Deficiencia | Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência | Prefeitura da Cidade de São Paulo




quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

O Pátio do Colégio faz aniversário junto com a cidade de São Paulo: 468 anos de história, contradições e curiosidades

São Paulo completa 468 anos de fundação. 

Após a inauguração da primitiva igreja do Colégio de Piratininga pelos padres jesuítas, em 25 de janeiro de 1554, o primeiro nela a ser batizado foi o chefe indígena Tibiriçá, em 8 de fevereiro daquele mesmo ano.

O cacique pai de Bartira, a esposa de João Ramalho, foi também o primeiro a ser sepultado naquela igrejinha, em 1562, cujos restos mortais seguiram séculos depois para a cripta da Catedral da Sé.

Em 1588 se decidiu construir uma igreja matriz em um largo onde hoje se encontra a Praça da Sé.

A inauguração aconteceu no século 17, não no lugar onde está a atual catedral, mas na altura em que se dá a saída da Estação Sé do metrô.

Mais abaixo, onde fica o atual prédio da Caixa Econômica Federal, ergueu-se uma igreja vizinha em devoção a São Pedro dos Clérigos.


O Marquês de Pombal, uma espécie de primeiro-ministro português do século 18, decidiu expulsar os jesuítas do Brasil em 1759, com isso todos os bens da igreja foram entregues à coroa.

Por esta razão o prédio do colégio passou a servir de residência aos governadores e, em frente ao mesmo, se abriu um largo.

Ao lado do Largo do Palácio se fez o Teatro da Ópera, o primeiro da cidade, cuja iluminação era feita através de um lustre onde se colocavam velas acesas em grande quantidade.

Foi neste teatro que aconteceu a recepção festiva a Dom Pedro, na noite do 7 de setembro de 1822, horas depois dele ter proclamado a Independência do Brasil, nas margens do Ipiranga.

Instituído o Império, se fez necessário a instalação de um corpo militar do Exército Brasileiro, na recém-criada Província de São Paulo.

O povo, entretanto, demonstrava ter horror ao serviço militar e ninguém se apresentou como voluntário.

Houve então uma trama para pegar no laço os renitentes, a população foi convidada para uma festa no Largo do Palácio e a certa altura, fechou-se o cerco e houve um corre-corre com vários rapazes em desabalada fuga.

O capitão-general Martim Lopes mandara barrar as saídas do largo para assim agarrar à força os indivíduos convocados a servir o exército na marra.


Mais adiante no período republicano, em 1891, o edifício do Palácio do Governo serviu de sede para as reuniões da Assembleia Estadual Constituinte, a primeira da República, no Estado de São Paulo.

Em 1896 se decidiu pela demolição completa do que ainda restava do antigo colégio jesuítico.

Nas proximidades, o governo fez construir um prédio para a repartição de polícia, vizinho ao Solar da Marquesa de Santos, na então Rua do Carmo.

Depois, com projeto do arquiteto Ramos de Azevedo, foram feitos dois edifícios no lugar onde antes estava o Teatro da Ópera, um deles para a Secretaria da Justiça e outro para a Secretaria da Agricultura.

Na mesma época, o Solar da Marquesa foi adquirido pela Companhia de Gás de São Paulo que ali manteve seu escritório por muitos anos.

Para as comemorações do IV Centenário da cidade de São Paulo, em 1954, se construiu uma réplica da igreja dos jesuítas, nos moldes da que fora desapropriada em 1759, se preservando dela duas paredes.

Assim, o Pátio do Colégio voltou a ter um rosto quase original.

A partir da década de 1970, as ruas do antigo centro como a São Bento, Quinze de Novembro e Rua Direita, se transformaram em calçadões.

A princípio tudo deu certo e a região ficou mais aprazível, levando senhores aposentados e colecionadores de discos, livros, revistas e fotografias a se reunirem semanalmente no jardim localizado atrás da igreja.

Essa prática se estendeu até meados da década de 2000 e depois das reuniões, os participantes seguiam para a Casa Lomuto, de Roberto Gambardella, a única loja do centro que ainda vendia discos em 78 rotações.

Lá o pessoal encerrava a tarde com chave de ouro, ouvindo música a vontade.

Tudo isso é passado, a crise econômica  e o desemprego tem feito do Pátio do Colégio um espaço para a instalação de barracas de lona ocupadas por moradores sem-teto e por famílias cujos integrantes se encontram desempregados.

Tal situação, que esperamos terminar um dia, não impede o Pátio do Colégio de continuar sendo a mais rica das fontes históricas da São Paulo de ontem, de hoje e de todos os tempos.

 

Livros Pesquisados:

Histórias e Tradições da Cidade de São Paulo - Ernani da Silva Bruno/ São Paulo de Outrora - Paulo Cursino Moura/ História de São Paulo Através de Suas Ruas – Antônio Rodrigues Porto