Tenho histórias pra contar sobre o antigo Hospital Matarazzo, depois rebatizado com o nome Hospital Humberto I.
Uma delas é que certa vez conduzi para lá, dentro de um carro de reportagem, um rapaz atropelado na avenida Brigadeiro Luiz Antônio por um motorista que fugiu.
Naquele tempo não havia serviços de resgate como hoje, nem do Corpo de Bombeiros, muito menos o Samu.
Visitei naquele hospital uma senhora que ali morou por exatos 50 anos, deitada em uma cama.
Maria de Lourdes Guarda sofreu uma lesão medular,
perdeu todos os movimentos do corpo, exceto dos braços e não podia nem ficar sentada ainda que fosse em uma cadeira de rodas.
Passou a vida toda hospitalizada, o centro médico se tornou sua casa. Acreditem: Os passarinhos faziam companhia a ela.
Todas as manhãs a janela de seu quarto era aberta e durante o dia, os pássaros entravam, assentavam na cabeceira da cama ou no fio da antena da televisão e dona Lourdes conversava com eles. Presenciei isso em uma visita.
Parecia estar dentro de um conto de fadas e se alguém viu isto também, peço a gentileza de confirmar. Sempre haverá os que negam existir acontecimentos inusitados e bonitos assim.
Outro grande companheiro da paciente era o telefone fixo com o qual ligava para
as autoridades pedindo ajuda para o hospital ou para a entidade que presidia: Fraternidade Cristã de Pessoas Doentes e Deficientes.
Em 1993, devido a uma dívida financeira elevadíssima, o Hospital Humberto I fechou suas portas em definitivo, mas ainda assim, Maria de Lourdes Guarda seguiu morando ali,
auxiliada por pessoas amigas. Diagnosticada com um câncer, foi transferida ára o Hospital Santa Catarina, onde permaneceu até o dia de sua morte no ano de 1996.
Recentemente os jornais trouxeram que toda a área em torno
dos prédios do antigo complexo hospitalar entrou em sua fase final de restauração.
No lugar funcionará um
empreendimento com o nome, Cidade Matarazzo.
Atrás do prédio da antiga maternidade, uma torre abrigará um hotel de 151 quartos para hóspedes e 122 suítes
residenciais, com inauguração prevista para o mês de dezembro..
Dentro do mesmo terreno foi montado um boulevard, em torno dos novos e dos antigos
edifícios que serão ocupados por escritórios, centro cultural, lojas e áreas de gastronomia e lazer.
Inaugurados em 1904 pela família do conde Francesco
Matarazzo, os prédios do Hospital Humberto I, foram tombados em 1986 pelo patrimônio
histórico.
Mas o terreno de 27 mil metros quadrados sempre despertou
o interesse do mercado imobiliário, por estar na região mais valorizada da capital paulista.
Em 2011, o empresário Alexandre Allard, adquiriu toda
a área que ocupa o quarteirão das alamedas Rio Claro, São Carlos do Pinhal e
rua Itapeva. Pela compra, pagou mais de R$ 1 bilhão.
Para tocar seu empreendimento assumiu o compromisso de
levar em conta a recuperação e a preservação do que foi tombado.
Allard decidiu então contratar para o projeto, o renomado
arquiteto francês Jean Nouvel, que tem no currículo obras emblemáticas como o
Instituto do Mundo Árabe, de Paris, a filial do Museu do Louvre, em Abu Dhabi e
a Galeria Lafayette, de Berlim.
No sábado, 13 de novembro de 2021, o cardeal Dom Odilo Scherer celebrou missa em ação de graças pela conclusão das obras de recuperação da capela de Santa Luzia,
construída pela família Matarazzo quando da fundação do complexo hospitalar
Durante entrevista, Allard informou que até agora foram investidos
cerca de R$ 2,7 bilhões no megaprojeto, considerado o maior entre todos os que foram levados adiante pela iniciativa
privada nos últimos anos em São Paulo.
Além do projeto arquitetônico que permite a convivência do antigo com o novo, a cidade irá ganhar a partir da abertura ao público, um novo ponto de geração de negócios, empregos, lazer e cultura.
Todos sairão lucrando, isso faz parte da inspiração paulistana de buscar o progresso voltado ao bem comum da sociedade.
Seguem abaixo algumas fotos dos projetos do arquiteto Jean Nouvel:
Filial do Museu do Louvre, em Abu Dhabe
Galeria Lafayette, em Berlim
Fontes: Portal Cidade Matarazzo e Estadão Conteúdo