quarta-feira, 20 de maio de 2020

A pandemia e o medo, empresários temem quebrar: Como seria se o Barão de Mauá ainda estivesse entre nós?

Pessoas com firmeza de caráter igual a Irineu Evangelista de Sousa, parecem estar em falta no Brasil de hoje.

Elas até existem, mas são poucas.

Precisamos de mais gente com a coragem do Barão que depois se tornou Visconde de Mauá.

Retrato do rosto de Irineu Evangelista de Sousa no dia da condecoração em que passou de barão para visconde



No Brasil a busca de soluções imediatas sempre existiu e se deve ao fato dos empresários pensarem no curto prazo.

O que faria o maior empresário brasileiro do século 19 se estivesse enfrentando uma pandemia como essa do mundo atual?

Para obter a resposta contaremos um pouco da sua história.

Dono de ideias avançadas para a sua época, Mauá causava inveja aos outros empresários e aos políticos

Nascido em 1813, viveu até quase a Proclamação da República.

Em nenhum momento de sua vida recorreu ao uso da mão de obra escrava, permitida em seu tempo.

Ele trouxe para o Brasil a indústria naval e as estradas de ferro com ajuda, é claro, de bancos estrangeiros.

Manteve parcerias com o governo, mas poderia ter feito muito mais não fosse o pensamento extremamente conservador de outros empresários.

A questão do comodismo entre alguns apaniguados da corte começou com a família real portuguesa que desembarcou no Brasil em 1808.

Vieram junto muitos bajuladores, mas quando Dom João VI decidiu voltar, alguns permaneceram pelo fato de terem adquirido terras ou aberto negócios no comércio.

Com Dom Pedro II, na hora do aperto, recorriam ao imperador que assim mantinha tutela sobre eles, era o jogo de sempre.

Os fazendeiros viam como essencial para a lavoura manter a escravidão pela falta de mão de obra para o plantio e colheita.

A cada safra o resultado era o mesmo, boa parte dos lucros era gasta na importação de bens de consumo para a ostentação do luxo e riqueza.

Só pensavam em lucrar e não em investir.

Foto provavelmente tirada no Reino Unido mostra o rosto de Richard Carruthers, o mestre do Barão de Mauá

Irineu Evangelista de Sousa, perdeu o pai quando tinha cinco anos de idade, numa contenda por terras no Rio Grande do Sul.

Sua mãe, pouco tempo depois, se casou novamente. A irmã mais velha, também se casou com a idade de 13 anos.

Coube ao jovem assim que completou 11 anos se mudar para o Rio de Janeiro, indo morar na casa de um tio.

Conseguiu emprego no escritório do comerciante escocês, Richard Carruthers, dono de uma empresa de importação e exportação.

Carruthers explicou que para trabalhar em sua empresa era preciso aprender falar em inglês, e lá se pôs o jovem a estudar.

O escocês disse também que os negociantes brasileiros pensavam de modo atrasado em relação ao que já acontecia na Europa, onde a industrialização fervilhava.

Irineu Evangelista de Souza ao visitar as indústrias do reino unido voltou ao Brasil maravilhado

Cansado de assistir ao círculo vicioso das relações entre governo e o empresariado, Carruthers decidiu retornar à sua terra natal.

Propôs ao jovem funcionário que assumisse seus negócios no Brasil, mas para isso era preciso antes visitar o Reino Unido.

Objetivo era fazer o rapaz entender como funcionavam as relações empresariais em um ambiente desenvolvimentista.

Irineu estava com 24 anos quando visitou Londres pela primeira vez e voltou convencido que o futuro do desenvolvimento caminhava junto com a industrialização.

Comprou ações e passou a fazer empréstimos junto aos bancos para dar início ao ousado projeto de industrializar o Brasil.

Implantou primeiro a indústria naval levando para seus estaleiros mais de mil operários, todos eles assalariados.

Além das embarcações suas empresas passaram a fabricar caldeiras para máquinas a vapor.

Guindastes, prensas, armas e tubos para encanamentos de água começaram a ser fabricados e logo adquiriu um banco.

Expandiu seus negócios também para o Uruguai e Argentina.

Mauá levou Dom Pedro II para visitar o estaleiro, depois deu uma pá para que assentasse o primeiro dormente da ferrovia 

Surgiram então os invejosos e dizem, até mesmo o imperador passou a não ver com bons olhos, as ousadias do jovem empresário.

Mesmo assim, em 1854, concedeu a Irineu Evangelista de Sousa o título nobiliárquico de barão.

A escolha pela alcunha Mauá veio de uma das estações da primeira linha férrea construída por ele, entre o Rio e Petrópolis.

Não bastasse, implantou na capital do Império uma companhia de gás destinada à iluminação pública.

Depois levou a navegação a vapor para o Rio Amazonas.

Réplica de um barco a vapor do século 19 navegando na região Amazônica como nos tempos do Barão de Mauá

Participando como sócio, Mauá ajudou trazer ao Brasil a São Paulo Railway que implantou a Estrada de Ferro Santos-Jundiaí.

Uma avançada obra de engenharia, o sistema funicular, possibilitou a subida da Serra por trilhos na ligação entre Cubatão e Paranapiacaba.

Os vagões eram puxados por cabos de aço ligados a uma locomotiva fixa, também chamada locobreque.

Foto atual mostra equipamentos recuperados da São Paulo Railway para visitação em Paranapiacaba

Por iniciativa do Barão de Mauá, o Brasil instalou ligação telegráfica com a Europa por cabos submarinos, uma inovação que surgiu a pedido de Dom Pedro II.

O investimento saiu caríssimo e o lucro financeiro ficou abaixo do esperado, mas com a obra ele obteve o título de Visconde.

Agências do Banco Mauá no Rio, Montevidéu e Buenos Aires fizeram de seu principal acionista um precursor do Mercosul

Irineu Evangelista de Sousa foi o homem mais rico do país em seu tempo

Sua fortuna seria equivalente hoje a US$ 80 bilhões, valor considerado acima do orçamento da nação em sua época.

Entrou para a vida pública, foi parlamentar liberal e abolicionista.

Contrário à continuidade da Guerra do Paraguai, após Uruguai e Argentina terem deixado o conflito, considerava a questão resolvida.

Dom Pedro insistiu na deposição de Solano Lopez e manteve o Brasil na guerra.

Disso se aproveitaram os adversários para fustigar Mauá junto ao imperador.

Suas fábricas foram alvo de sabotagens criminosas e seus negócios no Brasil, abalados pela legislação que sobretaxava a importação de insumos, entraram em declínio.

Os bancos pertencentes a Mauá tanto no Brasil, quanto no Uruguai e Argentina quebraram.

Deixou a política para se dedicar inteiramente aos negócios.

Precisou vender a maioria de suas empresas a capitalistas estrangeiros, como forma única de quitar suas dívidas.

Chegou ao final da vida ainda tendo algumas posses, desmentindo versões de que teria morrido à míngua.

Retornou para o Rio Grande do Sul onde manteve terras e morreu vitimado pelo diabetes, aos 76 anos, em 21 de outubro de 1889.

A data coincide com o baile da Ilha Fiscal, último evento oficial da Monarquia no Brasil.

Não chegou ver a proclamação da República.

Foi casado com Maria Joaquina Machado, sua sobrinha e teve com ela 18 filhos.

No filme dirigido por Sérgio Rezende: Mauá, o Imperador e o Rei, Paulo Betti interpreta o papel principal e contracena com Malu Mader.


A vida do Barão e Visconde de Mauá foi retratada em obra magistral do cinema brasileiro 


No início perguntamos como agiria Irineu Evangelista de Sousa se estivesse entre nós enfrentando o coronavírus e suas consequências. Você já tem a resposta?

Pelo que lemos a seu respeito, a conclusão é que agiria com a honestidade que o caracterizou, combatendo com fibra todas as dificuldades, não se comportando como um bajulador.

Falta ao País de hoje pessoas que façam investimentos pensando no lucro de suas empresas e em avanços para a sociedade e ao país como um todo.

O Barão-Visconde de Mauá faz falta!

Para saber mais assista o filme:




Leitura recomendada: Mauá, Empresário do Império – Jorge Caldeira – Companhia das Letras - 1995

terça-feira, 12 de maio de 2020

Abolição da Escravatura e suas semelhanças com os dias atuais


A empresa Royal African Company, fundada por ingleses em 1672 deteve para si o monopólio do comércio de escravos em todo o mundo durante quase 80 anos.

A Revolução Industrial, iniciada no século 18, fez a Inglaterra mudar radicalmente de posição em relação ao que fazia antes.

Percebendo que era mais lucrativo para os seus negócios remunerar os empregados em vez de mantê-los em cativeiro, tratou de pressionar outras nações para que fizessem o mesmo.

O Brasil seguia sendo um país exclusivamente agrícola e não havia por parte dos fazendeiros ou donos de engenho nenhum interesse em se acabar com a escravidão.

Por isso a Lei Áurea veio tão tarde, somente em 13 de maio de 1888, muito depois do início da Revolução Industrial.

Ainda assim, para que acontecesse foi necessário muito empenho por parte dos liberais abolicionistas e republicanos da época.

A assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel na pintura em óleo de Victor Meirelles em 1888
A Lei Áurea, por sua vez, colocou indiretamente um fim à monarquia porque os fazendeiros queriam ser indenizados por terem libertado seus escravos.

O Império não tinha como pagar e estes se juntaram aos republicanos e militares pondo fim ao reinado exercido por Dom Pedro II durante 48 anos.

Perceberam como é a política? Os fazendeiros não se davam com os liberais, mas se juntaram para derrubar o governo e proclamar a República.

Fazendeiros, liberais republicanos e militares unidos em um mesmo interesse: Se ver livre da Monarquia
Se você acha importante o legado deixado para o Brasil pelo movimento abolicionista do século 19, reflita bastante porque a situação agora é parecida.

Em pleno século 21 direitos conquistados estão se perdendo em nome de uma suposta garantia de emprego, embora demissões sigam acontecendo.

A postura humanitária dos republicanos de outrora, também está sendo colocada de lado, especialmente quando vemos pessoas saindo em carreatas para pedir o fim do isolamento social causado pela pandemia e a volta da ditadura e do AI-5.

Se postas em prática para que serviriam essas resoluções drásticas de um passado sombrio?

A Lei Áurea propunha um Brasil para o futuro e não uma volta ao passado.

Charge postada na internet exprime aquilo que pode ser o pensamento de alguns setores
Acredito que nenhum parente dessas pessoas que se mostram interessadas em “salvar a economia” tenha morrido de coronavírus.

Mãe, pai, filha, irmã não estão doentes. Em situação oposta - talvez - o pensamento fosse outro.

“A parte do corpo humano que mais dói é o bolso”, me disse certa vez um professor de economia que entrevistei.

Talvez esse seja o real motivo da postura de alguns diante da pandemia.

A preocupação com o dinheiro é mais importante que a proteção à vida?

O posicionamento dos participantes das últimas manifestações se assemelha politicamente ao de analfabetos funcionais
A comunidade negra deveria se lembrar com mais carinho do 13 de maio.

Nada contra o 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, que simboliza Zumbi dos Palmares um líder em defesa da liberdade.

Só que a abolição da escravatura veio de uma mobilização nacional, de forma parecida ao movimento pelas Diretas Já, em 1984.

Assim como a Lei Áurea, a mobilização pelas eleições diretas para presidente fez mudar um sistema político.

Como no tempo dos abolicionistas, o povo saiu às ruas em 1984 por um objetivo definido: Eleições Diretas para Presidente
Meu apelo é para que todos reflitam sobre a importância da abolição da escravatura e seu significado para este ano tão difícil de 2020.

Um povo que não conhece sua história costuma repetir erros do passado e pedir de volta coisas que nem sabe direito para que serviam.

Vamos refletir e parar de agir feito gado. Lembrem-se: A massa não conduz, é conduzida e muitas vezes por aqueles que atuam somente em benefício próprio.

E agora viaje na história através dessas imagens.

Negros provenientes de tribos africanas em guerra eram trazidos em navios com péssimas condições de higiene
Depois de vendidos em praças públicas como animais em feiras livres, escravos que recusassem trabalhar eram espancados

Cartaz comemorativo de 1888 apresentava o branco e o negro em cena inusitada para a época
A imprensa tão criticada por alguns nos dias de hoje era motivo de orgulho para a nação por representar avanço tecnológico



sexta-feira, 8 de maio de 2020

Por causa da pandemia governo paulista sugere nova data para o Dias das Mães: Você concorda?


O isolamento social ocasionado pela pandemia vai impedir o encontro de muitos filhos com suas mães.

Aquelas com mais idade estão no grupo de risco e nem pense em quebrar a quarentena.

Melhor ficar sem ver a mamãe mais alguns dias do que perdê-la de vez.

Só quem já perdeu a companhia de uma mãe consegue avaliar com exatidão o quanto ela é importante na vida das pessoas.

Buscando uma atenuante o governo paulista sugeriu ao comércio que a data comemorativa este ano, passe para o mês de agosto.

Os comerciantes não gostaram da ideia: a mudança coincide com o Dia dos Pais e existe o risco de nem todos terem como gastar com presentes para os dois de uma só vez.

De todo limão se pode extrair uma limonada.

Assim, o bom é pensar na possibilidade de se homenagear as mães duas vezes neste ano de 2020 que já se mostra tão difícil.

Será um motivo para festejar e afinal de contas, elas merecem.

A tecnologia permite ver e conversar com as mães pelo Skype ou Whatsapp, só a entrega do presentes será adiada
As mães dedicam todo seu amor aos filhos e fazem tudo para agradá-los

Sofrem com nossos sofrimentos e querem que estejamos sempre bem.

Das mães que se foram ficam as lembranças das homenagens que fizemos e das que deveríamos ter feito.

Silhueta de uma mãe e filho em um por do sol, nada mais singelo
Homenagens às mães acontecem desde os tempos mais antigos. 

Povos da Grécia faziam  comemoração à mãe dos deuses, Reia.

Na Idade Média os trabalhadores que moravam longe de suas famílias ganhavam um dia para visitar suas mães.

Reia, a mãe dos deuses
Os britânicos deram o nome “mothering sunday” para o Dia das Mães, comemorado no quarto domingo da Quaresma, geralmente faltando três semanas para o domingo de Páscoa, geralmente na segunda metade do mês de março ou no início de abril.

Os britânicos comemoram seu Dia das Mães em uma data diferente da nossa e não são apenas eles
Mãe não é só a que dá luz a um filho, mas também aquela que cria uma criança como se fosse dela própria, com amor, carinho e proteção.

O Dia das Mães aquece o comércio no mundo todo e em datas diferentes de acordo com os costumes de cada pais.

Na Noruega as saudações acontecem no segundo domingo de fevereiro e, na África do Sul e em Portugal, no primeiro domingo de maio.

Já na Suécia, o quarto domingo de maio é dedicado às mães e no México a data é fixa, dia 10 de maio.

Os tailandeses preferem o dia 12 de agosto, aniversário da rainha mãe, Mom Rajawongse Sirikit, nascida em 1932 para saudar todas as mães.


Ela é a segunda rainha regente da Tailândia e com o mais longo reinado

No Brasil, assim como nos Estados Unidos, Canadá, Japão, Turquia e Itália, a data é comemorada no segundo domingo de maio.

Em nosso país o Dia das Mães surgiu por iniciativa da Associação Cristã de Moços - ACM, em maio de 1918. 

A data só foi oficializada em 1932 pelo então presidente Getúlio Vargas.

Nos tempos do jornal O Pasquim, cartoons sempre lembravam o dia das mães
Certa vez, fui ao lançamento de um livro do cartunista Henfil. 

Enquanto autografava, uma senhora se mantinha sentada ao lado dele. Perguntei quem era. Ele respondeu: “Dona Maria, minha mãe”.

Foi na época em que um dos filhos dela estava exilado, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho.

Lembrei desse acontecimento esses dias em razão do falecimento do compositor Aldir Blanc que fez uma música o ela é citada.

“...Chora a minha pátria-mãe gentil, choram Marias e Clarices no solo do Brasil”...

Achei aquilo tudo tão lindo que resolvi fazer a mesma coisa quando lancei o meu livro São Paulo de Todos os Tempos.

O lançamento aconteceu na Casa das Rosas, na Avenida Paulista, para um público recorde. Quem foi pode constatar.

Coloquei a minha mãe, também chamada Maria, sentada à minha direita, na noite de autógrafos.

Muita gente ficou conversando com ela e eu observando o sorriso radiante dela por causa do carinho das pessoas em um momento sublime.
.
Acredito ter retribuído pelo menos um pouco do tanto que ela fez pelo meu crescimento físico, social e moral.

Na infância e adolescência fiz travessuras que a desagradaram e na vida adulta tomei atitudes que certamente a entristeceram.

Como todo filho tanto causei orgulho a ela, nas formaturas, nas premiações, etc.

Busquei dentro do possível, colocá-la em destaque como na noite de entrega da Medalha Anchieta e Diploma da Gratidão da Cidade de São Paulo, na Câmara Municipal.

Houve depois a noite de autógrafos já citada e as fotos ali registradas não se perderam, mas guardadas em algum pen drive.

A Casa das Rosas guarda consigo o glamour dos antigos casarões da Avenida Paulista e requisitada para eventos culturais
 Nos momentos mais difíceis pelos quais passei na vida, nas inúmeras tardes de fisioterapia me recuperando das sequelas da poliomielite ou das tantas cirurgias que passei, lá estava ela me ajudando, chorando junto e rezando.

Ríamos também comentando as novelas da televisão, os programas infantis e de auditório. 

Deveria ter ficado mais perto dela depois que me senti menino crescido.

Nos dias que antecederam sua partida, eu tinha que trabalhar e quando cheguei ela já estava indo embora.

Certeza é que um pedaço da minha alma foi junto.

Por isso tenho certeza: Em nossos corações, todas as mães estarão sempre vivas.

Maria Aparecida: Mãe do Geraldo, Bernadete e Vicente



sexta-feira, 1 de maio de 2020

Na despedida de Ayrton Senna, lágrimas caíam do céu e um avião quase nos atropela em pleno voo


Já relatei algumas situações de perigo que enfrentei nos tempos de repórter aéreo.

Faltava contar como foi o dia em que quase fomos atropelados por um Boeing 747 – Jumbo.

Pelo horário em que chegou o avião, se tratava de um voo internacional e ele estava em sua rota correta de pouso e, acreditamos, lotado de passageiros.

Seria uma tragédia e tanto que felizmente não aconteceu.

Estávamos eu e o comandante Diniz Caputto, a bordo de um Enstrom 280, helicóptero alugado pela Rádio Eldorado - 700 kHz - AM.

Nossa sorte é que deu tempo de “brecar” o nosso aparelhos, assim saímos vivos para explicar mais essa história.

O episódio aconteceu em 5 de maio de 1994, sobre a Rodovia Hélio Smidt, a estrada que leva ao Aeroporto Internacional de Guarulhos.

Contando assim, pode parecer que foi barbeiragem do nosso piloto, mas tenham certeza, não foi.

Caputto não foi alertado pela torre e segurou o helicóptero no braço porque viu o avião chegando.

Considerada antes um esporte de elite assim como o tênis, Ayrton Senna tornou popular a Fórmula 1 entre os brasileiros

Por sua vez, os controladores de voo que coordenam os aviões não tinham como alertar, porque naquele dia outros 46 helicópteros sobrevoaram a região ao mesmo tempo.

A trombada com o avião quase aconteceu porque naquele dia todos estavam trabalhando na cobertura do desembarque do corpo do piloto Ayrton Senna, em 5 de maio de 1994, uma quarta-feira.

Este é o Boeing 747 Jumbo que passou à nossa frente, mais ou menos nessa distância só que voando, e no sentido contrário

Sobre o acidente pavoroso com Ayrton Senna naquele 1° de maio fatídico do GP de San Marino de F-1, em Ímola na Itália, eu nem preciso relatar, quase todos viram e reviram.

A palavra tristeza nem foi apropriada àquele acontecimento, quem viveu sabe o que estou dizendo.

O povo brasileiro ficou abalado e profundamente comovido com a morte do grande piloto.

Naqueles tempos de internet engatinhando e sem Waze, a palavra de um repórter aéreo era essencial nas orientações do trânsito.

Normalmente antes ainda do sobrevoo, passávamos pela emissora às 5 da manhã, para apresentar do estúdio um programa chamado De Olho na Cidade.

No encerramento do programa avisávamos: “Estamos a caminho do helicóptero”.

Nosso embarque acontecia exatamente às 7 horas, mas naquele 5 de maio, data da chegada do corpo de Ayrton Senna, decolamos uma hora antes e de casa me dirigi direto ao Campo de Marte.

Usamos uma aeronave semelhante a essa: Com o Enstrom 280FX sobrevoamos o desembarque e traslado de Ayrton Senna

A finalidade aquele dia não foi a costumeira cobertura do trânsito, mas sim a descrição dos acontecimentos em torno do desembarque do tricampeão morto.

Nas dependências do aeroporto e, ao longo do trajeto do cortejo fúnebre, repórteres de nossa emissora foram posicionados em pontos estratégicos.

Para coordenar o rodízio de informações estava o âncora Marcelo Parada, na ocasião diretor de jornalismo da Rádio Eldorado.

Me lembro de colegas como Rogério Spegn, Ana Lúcia Moretto, Ana Paula Moraes, Nelson Laginestra e Filomena Salemme nessa cobertura.

A imprensa do mundo todo estava presente, afinal se tratava de um tricampeão da F-1.

Nos helicópteros se distribuíam repórteres, fotógrafos e cinegrafistas de diferentes países.

Uma fila de helicópteros em sobrevoo ocupou a margem da pista de taxiamento do aeroporto de Guarulhos.

Só dava para dar uma olhada e sair porque o giro era contínuo, ninguém poderia pairar.

Foi deste modo, tendo que improvisar, que anunciamos a hora em que colocaram o esquife sobre o caminhão dos bombeiros.

Os smartphones não existiam e não dava tempo para fotografar do alto, mas o que acontecia está nessa foto

O esquife contendo o corpo de Ayrton Senna foi desembarcado pela porta traseira do avião da Varig
Dali sairia o féretro com destino ao Salão Nobre da Assembleia Legislativa de São Paulo, no Ibirapuera, onde aconteceria o velório.

Ao se iniciar o traslado, ainda sobre Rodovia Hélio Smidt, nosso piloto continuou seguindo a fila de helicópteros.

Foi nessa hora que passou o Boeing em direção ao pouso em grande velocidade à nossa frente.

O comandante Caputto segurou a aeronave como se estive puxando o arreio de um cavalo.

Frear um helicóptero em pleno voo é algo arriscado, mas foi essa a alternativa que ele teve.

O Jumbo 747 passou voando a cerca de 150 metros de nós. 

A força do vento deixada pelo avião (vácuo) flexionou nosso helicóptero para baixo e mais uma vez Diniz Caputto teve que controlar a aeronave.

Meu coração (e o dele, acredito) quase saíram pela boca tamanho o susto que levamos. Imagine trombar com um avião voando?

“Sobrevivi”! Pensei. Acho que também tenho 7 vidas. Já passei por cada uma!

Após a Rodovia Hélio Smidt, o cortejo fúnebre ingressou na Rodovia dos Trabalhadores, que depois passaria a se chamar Ayrton Senna, por causa desse dia.

Na Marginal do Tietê algo inédito aconteceu: Os motoristas começaram a parar seus carros em solidariedade ao campeão. 

Todos desciam dos veículos para acenar um último adeus, acredito que jamais teremos algo semelhante em São Paulo.

A partir da Avenida 23 de Maio a cavalaria da PM em trajes de gala passou a escoltar o caminhão com o esquife até a Alesp

Não pensem vocês que a cobertura aérea terminou aí.

Quando o féretro chegou ao prédio da Assembleia Legislativa, no Ibirapuera, os helicópteros se aglomeraram de novo.

Dessa vez não havia coordenação dos aeroportos.

Os helicópteros se misturaram uns aos outros mais parecendo um enxame de abelhas em torno de uma colmeia.

Cada piloto de helicóptero se virava como podia, o risco era iminente.

Uma triscada entre as pás de uma aeronave e outra, poderia resultar na queda dos dois aparelhos.

Havia o risco de acontecer uma tragédia durante a cobertura de outra tragédia.

Felizmente lá em cima, mais uma vez, nós e todos os demais, escapamos  ilesos.

Os helicópteros voavam agrupados mais ou menos assim, depois sobre a Alesp passaram a girar sem coordenação alguma

O comandante Costandi Cardosh, com página no Facebook, participou daquela cobertura pelo Globocop.

Foi ele quem me passou a contagem: 46 helicópteros sobrevoaram São Paulo em um mesmo lugar, ao mesmo tempo, naquele 5 de maio de 1994.

Trata-se de mais um fato inusitado que entrou para a história da cidade de São Paulo.

Lá embaixo havia flores, bandeiras e papéis picados reluzindo ao sol de uma manhã de magnífico esplendor.

Ao mesmo tempo o caixão com o corpo de Ayrton Senna era retirado do caminhão de bombeiros e conduzido ao salão nobre.

Foi uma das cenas mais bonitas e mais tristes que eu já vi em toda a minha vida.

Dizem que os repórteres precisam manter a frieza na hora de transmitir notícias que emocionam.

Naquele dia, entretanto, o repórter aéreo não conseguiu conter as próprias lágrimas e um de seus boletins precisou ser interrompido pela voz embargada.

O retorno daquele voo sobre a Assembleia Legislativa até o Campo de Marte, transcorreu em silêncio.

Nem eu nem o comandante Caputto tivemos palavras para comentar o trabalho difícil daquele dia.

Não faltaram incidentes, riscos e emoções.

Finalmente mais um pouso seguro após a missão cumprida. Silêncio. Falar o quê, diante de tamanho sentimento de perda!
O momento em que o esquife é levado para o Salão Nobre da Alesp: Apesar da foto em preto e branco observem o caminho repleto de flores. Do alto caíam lágrimas vindas do céu


No dia seguinte, 6 de maio, aconteceu o sepultamento no cemitério do Morumbi, do alto assistimos esse cortejo


A Esquadrilha da Fumaça passa voando acima dos helicópteros para mais um susto do repórter aéreo

Ainda assim, o que de mais importante Ayrton Senna nos deixou foi um legado de boas lembranças