sexta-feira, 1 de maio de 2020

Na despedida de Ayrton Senna, lágrimas caíam do céu e um avião quase nos atropela em pleno voo


Já relatei algumas situações de perigo que enfrentei nos tempos de repórter aéreo.

Faltava contar como foi o dia em que quase fomos atropelados por um Boeing 747 – Jumbo.

Pelo horário em que chegou o avião, se tratava de um voo internacional e ele estava em sua rota correta de pouso e, acreditamos, lotado de passageiros.

Seria uma tragédia e tanto que felizmente não aconteceu.

Estávamos eu e o comandante Diniz Caputto, a bordo de um Enstrom 280, helicóptero alugado pela Rádio Eldorado - 700 kHz - AM.

Nossa sorte é que deu tempo de “brecar” o nosso aparelhos, assim saímos vivos para explicar mais essa história.

O episódio aconteceu em 5 de maio de 1994, sobre a Rodovia Hélio Smidt, a estrada que leva ao Aeroporto Internacional de Guarulhos.

Contando assim, pode parecer que foi barbeiragem do nosso piloto, mas tenham certeza, não foi.

Caputto não foi alertado pela torre e segurou o helicóptero no braço porque viu o avião chegando.

Considerada antes um esporte de elite assim como o tênis, Ayrton Senna tornou popular a Fórmula 1 entre os brasileiros

Por sua vez, os controladores de voo que coordenam os aviões não tinham como alertar, porque naquele dia outros 46 helicópteros sobrevoaram a região ao mesmo tempo.

A trombada com o avião quase aconteceu porque naquele dia todos estavam trabalhando na cobertura do desembarque do corpo do piloto Ayrton Senna, em 5 de maio de 1994, uma quarta-feira.

Este é o Boeing 747 Jumbo que passou à nossa frente, mais ou menos nessa distância só que voando, e no sentido contrário

Sobre o acidente pavoroso com Ayrton Senna naquele 1° de maio fatídico do GP de San Marino de F-1, em Ímola na Itália, eu nem preciso relatar, quase todos viram e reviram.

A palavra tristeza nem foi apropriada àquele acontecimento, quem viveu sabe o que estou dizendo.

O povo brasileiro ficou abalado e profundamente comovido com a morte do grande piloto.

Naqueles tempos de internet engatinhando e sem Waze, a palavra de um repórter aéreo era essencial nas orientações do trânsito.

Normalmente antes ainda do sobrevoo, passávamos pela emissora às 5 da manhã, para apresentar do estúdio um programa chamado De Olho na Cidade.

No encerramento do programa avisávamos: “Estamos a caminho do helicóptero”.

Nosso embarque acontecia exatamente às 7 horas, mas naquele 5 de maio, data da chegada do corpo de Ayrton Senna, decolamos uma hora antes e de casa me dirigi direto ao Campo de Marte.

Usamos uma aeronave semelhante a essa: Com o Enstrom 280FX sobrevoamos o desembarque e traslado de Ayrton Senna

A finalidade aquele dia não foi a costumeira cobertura do trânsito, mas sim a descrição dos acontecimentos em torno do desembarque do tricampeão morto.

Nas dependências do aeroporto e, ao longo do trajeto do cortejo fúnebre, repórteres de nossa emissora foram posicionados em pontos estratégicos.

Para coordenar o rodízio de informações estava o âncora Marcelo Parada, na ocasião diretor de jornalismo da Rádio Eldorado.

Me lembro de colegas como Rogério Spegn, Ana Lúcia Moretto, Ana Paula Moraes, Nelson Laginestra e Filomena Salemme nessa cobertura.

A imprensa do mundo todo estava presente, afinal se tratava de um tricampeão da F-1.

Nos helicópteros se distribuíam repórteres, fotógrafos e cinegrafistas de diferentes países.

Uma fila de helicópteros em sobrevoo ocupou a margem da pista de taxiamento do aeroporto de Guarulhos.

Só dava para dar uma olhada e sair porque o giro era contínuo, ninguém poderia pairar.

Foi deste modo, tendo que improvisar, que anunciamos a hora em que colocaram o esquife sobre o caminhão dos bombeiros.

Os smartphones não existiam e não dava tempo para fotografar do alto, mas o que acontecia está nessa foto

O esquife contendo o corpo de Ayrton Senna foi desembarcado pela porta traseira do avião da Varig
Dali sairia o féretro com destino ao Salão Nobre da Assembleia Legislativa de São Paulo, no Ibirapuera, onde aconteceria o velório.

Ao se iniciar o traslado, ainda sobre Rodovia Hélio Smidt, nosso piloto continuou seguindo a fila de helicópteros.

Foi nessa hora que passou o Boeing em direção ao pouso em grande velocidade à nossa frente.

O comandante Caputto segurou a aeronave como se estive puxando o arreio de um cavalo.

Frear um helicóptero em pleno voo é algo arriscado, mas foi essa a alternativa que ele teve.

O Jumbo 747 passou voando a cerca de 150 metros de nós. 

A força do vento deixada pelo avião (vácuo) flexionou nosso helicóptero para baixo e mais uma vez Diniz Caputto teve que controlar a aeronave.

Meu coração (e o dele, acredito) quase saíram pela boca tamanho o susto que levamos. Imagine trombar com um avião voando?

“Sobrevivi”! Pensei. Acho que também tenho 7 vidas. Já passei por cada uma!

Após a Rodovia Hélio Smidt, o cortejo fúnebre ingressou na Rodovia dos Trabalhadores, que depois passaria a se chamar Ayrton Senna, por causa desse dia.

Na Marginal do Tietê algo inédito aconteceu: Os motoristas começaram a parar seus carros em solidariedade ao campeão. 

Todos desciam dos veículos para acenar um último adeus, acredito que jamais teremos algo semelhante em São Paulo.

A partir da Avenida 23 de Maio a cavalaria da PM em trajes de gala passou a escoltar o caminhão com o esquife até a Alesp

Não pensem vocês que a cobertura aérea terminou aí.

Quando o féretro chegou ao prédio da Assembleia Legislativa, no Ibirapuera, os helicópteros se aglomeraram de novo.

Dessa vez não havia coordenação dos aeroportos.

Os helicópteros se misturaram uns aos outros mais parecendo um enxame de abelhas em torno de uma colmeia.

Cada piloto de helicóptero se virava como podia, o risco era iminente.

Uma triscada entre as pás de uma aeronave e outra, poderia resultar na queda dos dois aparelhos.

Havia o risco de acontecer uma tragédia durante a cobertura de outra tragédia.

Felizmente lá em cima, mais uma vez, nós e todos os demais, escapamos  ilesos.

Os helicópteros voavam agrupados mais ou menos assim, depois sobre a Alesp passaram a girar sem coordenação alguma

O comandante Costandi Cardosh, com página no Facebook, participou daquela cobertura pelo Globocop.

Foi ele quem me passou a contagem: 46 helicópteros sobrevoaram São Paulo em um mesmo lugar, ao mesmo tempo, naquele 5 de maio de 1994.

Trata-se de mais um fato inusitado que entrou para a história da cidade de São Paulo.

Lá embaixo havia flores, bandeiras e papéis picados reluzindo ao sol de uma manhã de magnífico esplendor.

Ao mesmo tempo o caixão com o corpo de Ayrton Senna era retirado do caminhão de bombeiros e conduzido ao salão nobre.

Foi uma das cenas mais bonitas e mais tristes que eu já vi em toda a minha vida.

Dizem que os repórteres precisam manter a frieza na hora de transmitir notícias que emocionam.

Naquele dia, entretanto, o repórter aéreo não conseguiu conter as próprias lágrimas e um de seus boletins precisou ser interrompido pela voz embargada.

O retorno daquele voo sobre a Assembleia Legislativa até o Campo de Marte, transcorreu em silêncio.

Nem eu nem o comandante Caputto tivemos palavras para comentar o trabalho difícil daquele dia.

Não faltaram incidentes, riscos e emoções.

Finalmente mais um pouso seguro após a missão cumprida. Silêncio. Falar o quê, diante de tamanho sentimento de perda!
O momento em que o esquife é levado para o Salão Nobre da Alesp: Apesar da foto em preto e branco observem o caminho repleto de flores. Do alto caíam lágrimas vindas do céu


No dia seguinte, 6 de maio, aconteceu o sepultamento no cemitério do Morumbi, do alto assistimos esse cortejo


A Esquadrilha da Fumaça passa voando acima dos helicópteros para mais um susto do repórter aéreo

Ainda assim, o que de mais importante Ayrton Senna nos deixou foi um legado de boas lembranças


segunda-feira, 27 de abril de 2020

Foi mesmo Pedro Álvares Cabral quem descobriu o Brasil? Há controvérsias


Nos meus tempos de aluno na escola pública havia comemorações em sala de aula alusivas ao Descobrimento do Brasil.

Hoje quase não se fala mais nisso e a data 22 de abril passa em branco, ofuscada pelo feriado de Tiradentes, um dia antes.

Assistindo ao programa do Ratinho no SBT, o apresentador perguntou a uma das meninas do auditório: Quem descobriu o Brasil?

A pobrezinha não soube responder e uma quantidade de água armazenada em uma bexiga caiu sobre ela.

Antes de criticá-la dizendo que a qualidade do ensino no Brasil é ruim, observe: 

Como pode ter sido o Brasil descoberto em 1500, se o Tratado de Tordesilhas já previa a existência de um novo continente em 1498?

O Tratado de Tordesilhas oferecia a parte maior das terras para a Espanha.

Deste modo, Portugal precisava garantir o seu quinhão, mesmo sabendo que sua parte do bolo era menor e assim o fez.

Na Escolinha do Professor Raimundo, um dos personagens diria então: "Há controvérsias". E há mesmo.

Na pintura de Oscar Pereira do Silva, o imaginário de como foi o desembarque dos portugueses no Brasil em 1500
Com o advento da internet, pesquisas históricas antes guardadas em livros se ao serem digitalizadas se tornaram mais acessíveis.

Quem procurar no Google pelo nome Vicente Yañez Pinzon saberá que ele é tido por alguns historiadores como o real descobridor do Brasil.

Novos estudos revelam que o navegador português Bartolomeu Dias, ancorou suas velas em Cananéia, no ano de 1497.

Esses relatos possivelmente tenham ajudado no estabelecimento do Tratado de Tordesilhas, à época.

Pinzon fez seu anúncio ao rei da Espanha, Fernando II de Aragão, de ter pisado em novas terras, provavelmente Pernambuco, em 26 de janeiro de 1500, depois de Bartolomeu Dias.

Pelo feito, entretanto, Pinzon foi condecorado em Espanha, a 5 de setembro de 1501.

Cabral chegaria três meses depois em Porto Seguro, mas sua passagem garantiu referendo ao Tratado de Tordesilhas, dando a Portugal a parte do continente que lhe cabia.

Por isso oficialmente quem descobriu o Brasil foi Pedro Álvares, cujo sobrenome também provoca discussões.

Gravura digital apresenta o texto do Tratado de Tordesilhas e a linha divisória oferecendo parte menor a Portugal

Em 20 de maio de 1498, o navegador português Vasco de Gama conseguiu chegar às Índias, mas retornou sem trazer os resultados comerciais que se esperava.

O rei Dom Manuel I, o Venturoso, decidiu organizar nova expedição.

A cruzada reuniu cerca de 1500 marujos distribuídos em 10 naus, 3 caravelas, mais uma naveta de mantimentos.

Foi a maior esquadra formada até então, sendo escolhido para comandá-las, o chefe militar Pedro Álvares Gouveia.

Filho de Fernão Cabral, recebeu o sobrenome da mãe Isabel Gouveia,  por não ser o primogênito da família, conforme costume da época.

Cabral, digamos, foi um apelido carinhoso que deram ao Pedro Álvares Gouveia, filho de um ilustre fidalgo de Belmonte, admirado pelo rei.

Alguns historiadores dizem também que o comandante da frota portuguesa que oficialmente descobriu o Brasil não possuía experiência marítima.

Havia na expedição, entretanto, conhecidos navegadores como Nicolau Coelho, Sancho de Tovar e o próprio Bartolomeu Dias, para dar conta do recado.

A indicação de Cabral foi uma decisão política, não há dúvida.

Era preciso um militar de pulso firme para levar adiante as negociações com o Samorim.


Pedro Álvares Cabral tinha 32 anos quando aportou no Brasil, era bem-visto pelo rei, mas detestado pelos marujos

Líder comercial e político em
 Calecute, nas Índias, o Samorim não aceitou as propostas apresentadas por Vasco da Gama quando este quis retornar a Lisboa levando as mercadorias. 

O primeiro navegador a chegar nas Índias, voltou de mãos abanando, mas antes de retornar detonou canhões sobre a cidade indiana.

Com essa atitude, demonstrou aos indianos seu poderio bélico.

A nova expedição comandada por Cabral teria que trazer "de qualquer jeito", eram as ordens do rei, as tão necessárias especiarias usadas espcialmente para a conserva de alimentos.

Para isso as naus foram equipadas com o que havia de mais moderno em armamentos.

Banqueiros de Gênova e Florença descontentes com a supremacia dos concorrentes de Veneza patrocinaram a viagem.

O comércio terrestre era acertado entre venezianos e turcos, detentores da rota para a compra das especiarias.

A Itália ainda estava unificada, por isso os venezianos é que estavam ficando cada vez mais ricos e poderosos, era preciso detê-los.

A unificação só veio no século 19 e suas cidades ou regiões concorriam nos negócios umas com as outras.

A Índia também não estava unificada, daí o termo "Índias".

Portugal, um país pequeno, não tinha dinheiro para custear uma expedição de tamanha envergadura, mas tinha em seu favor a experiência marítima.

Tal condição propiciou o que podemos chamar na linguagem atual de, parceria público-privada com os banqueiros.

Gravura mostra a nau-capitânia comandada por Pedro Álvares Cabral com a Cruz de Cristo ostentada nas velas

Zarparam de Lisboa, em 9 de março de 1500, tendo Cabral levado consigo um roteiro elaborado por Vasco da Gama.

Nele havia a recomendação para que, após cruzar as Ilhas de Cabo Verde, se derivasse a oeste até atingir as novas terras.

A decisão faria valer para Portugal a posse de parte desse novo continente, graças ao Tratado de Tordesilhas estabelecido dois anos antes.

Após Cabo Verde, porém, aconteceu uma tragédia: a nau de Vasco de Ataíde naufragou, matou seu comandante e os outros 150 ocupantes.

Em 21 de abril os marujos começaram avistar vegetais flutuando sobre as águas. Alguém gritaria mais adiante: "Terra à vista"!

Na quarta-feira, 22 de abril de 1500, tornou-se visível a elevação que Cabral deu o nome Monte Pascoal em alusão ao contexto religioso de celebração da Páscoa.

Ao lugar do desembarque deram o nome de Porto Seguro e a curiosidade foi terem sido recebidos pelos habitantes nativos completamente nus, sem nenhuma vergonha.

Gaspar da Gama, o poliglota da exposição ao lado do navegador Nicolau Coelho, sob as ordens do "capitão", que se supõe seja Cabral, foram os primeiros a colocar os pés em terras brasileiras. 

Sinalizaram para que os nativos, portando arcos e flechas, baixassem suas armas; “e eles os pousaram”, descreveu Pero Vaz de Caminha em sua carta.

Pintura retrata os portugueses erguendo a cruz para celebração da primeira missa pelo frei Henrique de Coimbra

A maravilhosa carta de Pero Vaz de Caminho relata em descrição emocionada, o descobrimento do Brasil.

Redigida em um português castiço precisou ser reescrita por Rubem Braga, em 1968, de forma a torná-la compreensível nos dias de hoje. 

Os originais da carta de Pero Vaz de Caminha, ficaram esquecidos na Torre do Tombo até o século 19

"... eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas... ao domingo de Pascoela, pela manhã, determinou o capitão irem todos ouvir missa e pregação naquele ilhéu e assim foi feito, à qual foi dita pelo padre frei Henrique, em voz entoada...

...e, depois de acabada a missa, assentados nós à pregação, levantaram-se muitos deles da terra, tangeram corno ou buzina, e começaram a saltar e dançar um pedaço...

...parece-me gente de tal inocência que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam logo cristãos, porque eles, segundo parece, não têm, nem entendem em nenhuma crença...

...não duvido que eles, segundo a santa intenção de Vossa Alteza, se hão de fazer cristãos e crer em nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque, certo, esta gente é boa e de boa simplicidade...

... e pois, Nosso Senhor, que lhes deu bons corpos e bons rostos, como a bons homens, por aqui nos trouxe, creio que não foi sem causa...

“...portanto, Vossa Alteza, que tanto deseja acrescentar a santa fé católica, deve cuidar da sua salvação e prazerá a Deus que com pouco trabalho seja assim...”

Estava selado o Descobrimento do Brasil!

Mais adiante escreverei neste blog a conclusão da viagem de Pedro Álvares Cabral às Índias e seu retorno à Pátria-Mãe.


O mapa em desenho atual torna compreensível o roteiro seguido para se chegar ao Brasil e depois às Índias.


Fontes: Carta ao Rei Dom Manuel – Versão Moderna Rubem Braga: 1968 – Edições Best Bolso – Rio de Janeiro


A Viagem do Descobrimento: 1998 – Eduardo Bueno - Editora Objetiva – Rio de Janeiro

terça-feira, 21 de abril de 2020

Tiradentes: Este sim é o MITO e mais ninguém!


Chega de falsos mitos!

Se torna um mito, aquela pessoa enigmática que, de feitos tão notáveis, chega a deixar dúvidas se de fato existiu, e se tudo aquilo que falam dela é realmente verdadeiro.

Tiradentes é um mito? 

Ainda pairam sobre ele indagações e os profissionais da história seguem pesquisando sua vida para novas conclusões.

Esta é a capa do livro sobre Tiradentes, o mesmo de um quadro guardado pela autora em sua residência

A aspiração dos inconfidentes era somente tornar Minas Gerais livre do crivo português?

Possivelmente sim, porque no século 18 ainda não se tinha a dimensão exata do tamanho do território brasileiro.

Os primeiros historiadores a pesquisar Tiradentes fizeram dele não apenas um mito, mas quase um santo, à imagem e semelhança de Jesus Cristo quem em vez da cruz recebeu a forca.

Na figura de um herói nacional passou a ser lembrado como Mártir da Independência. Considero o título merecido.

Seu prestígio fez dele patrono de inúmeras profissões como a dos policiais civis, dos policiais militares e obviamente, dos dentistas.

O apelido de Joaquim José da Silva Xavier veio do fato dele exercer a função de alferes, uma espécie de prático em odontologia.

Sua morte pela forca, em 21 de abril de 1792, é a única data de falecimento lembrada no Brasil com um feriado nacional.

Outros acontecimentos fizeram enaltecer ainda mais o histórico acontecimento.

Brasília, capital da República, foi inaugurada em um feriado de 21 de abril, no ano de 1960, o passamento de Tancredo Neves se deu nessa mesma data, em 1985.

Tiradentes ante o carrasco, de Rafael Falco em 1941, original se encontra na sede do Congresso Nacional, em Brasília
Tiradentes nasceu nas proximidades de São João Del Rey, em 1746.

O livro Tiradentes, Nem Patriota, Nem Frade, publicado pela Hucitec, se encontra em catálogo nas livrarias.

A obra é resultado da dissertação de mestrado da historiadora Mariana de Carvalho Dolci, entregue à Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP).

Na conclusão ela afirma: “ Joaquim José da Silva Xavier necessita de justiça ainda que tardia”.

O trabalho buscou também corrigir a associação errônea que se faz da Inconfidência Mineira, do século 18, com a Independência do Brasil proclamada em 1822.

“Até a Proclamação da República ninguém havia falado ao povo sobre a Inconfidência Mineira”, explica Mariana Dolci.

Nas primeiras páginas ela esclarece que a partir de 1889, com a instauração do regime republicano, se buscou na História do Brasil acontecimentos que não enaltecessem a monarquia.

O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro procurou então nos arquivos de Portugal e do Brasil os documentos relativos à “Devassa”, nome dado ao inquérito que julgou os inconfidentes.

Neles, o nome Joaquim José da Silva Xavier, aparece como único a não ter a pena de morte comutada pela rainha de Portugal.

Todos os demais obtiveram a clemência de dona Maria I e se ofereceu a eles o degredo nas colônias portuguesas da África.

Após ser enforcado, o alferes Silva Xavier teve o corpo esquartejado em quatro partes e seus pedaços expostos nas vias públicas.

O terreno da casa onde morou, em Vila Rica, foi salgado para que dali nada mais nascesse. 

Os bens de sua família foram expropriados por várias gerações.

Tão trágica barbárie acabou por oferecer ao condenado o tom comovente dos martirizados de maneira injusta.

Tiradentes esquartejado, pintura de Pedro Américo em 1893

O ano de 1780 é marcante na história de Minas Gerais, por se avolumar as denúncias que muitas das pedras preciosas destinadas a Portugal estavam “desaparecendo” pelo caminho.

O contrabando crescia cada vez mais, a ponto de se zombar abertamente das autoridades pela total inoperância e impunidade.

Joaquim José da Silva Xavier era nessa época tenente-alferes da cavalaria que fazia a escolta do ouro a ser embarcado no Rio de Janeiro em navios com destino a Lisboa.

Seu grupamento recebia o nome; Dragões de Minas.

Sabedor das falcatruas que aconteciam antes das pedras chegarem ao destacamento, o militar, apelidado Tiradentes, comentava esses assuntos nos lugares que frequentava.

O tenente-alferes criticava a parcialidade dos governantes em relação ao escambo.

Tais declarações eram feitas em bordéis ou nas tabernas e chegaram ao conhecimento público através de relatos daqueles que ouviam.

Suas palavras não incomodavam as autoridades constituídas porque vinham de um oficial de baixa patente.

Como não havia meios para punir os contrabandistas, a Real Fazenda - nome do fisco português - sobretaxava os impostos destinados à população.

O tributo denominado derrama consistia na entrega em espécie de 100 arrobas de ouro e diamantes aos fiscais.

A quantia era grande, cerca de 1.500 quilos de pedras preciosas deveriam ser entregues, se a quantidade não fosse alcançada, se calcularia igual o valor, aí sim a ser pago em dinheiro.

O governo português estipulou como data para a entrega da derrama, o mês de fevereiro de 1789.

O anúncio aconteceu no decorrer de 1788 e ocasionou revolta, uma série de reuniões passou a acontecer entre os mais destacados moradores de Vila Rica, a atual Ouro Preto.

Se posta em prática a medida significaria a total ruína dos mineiros.

Os mais atingidos seriam os proprietários das terras onde aconteciam as extrações das pedras preciosas.

Alvarenga Peixoto era um deles, assim como seu advogado e amigo particular, Cláudio Manuel da Costa, também dono de propriedades.

Além desses dois, Tomás Antônio Gonzaga, elogiado poeta, desembargador e ouvidor de Vila Rica se integrou ao grupo.

As reuniões tinham por objetivo encontrar saídas para impedir a Real Fazenda de concretizar a cobrança do imposto considerado escorchante.

Decidiu-se pela proclamação da República em Minas Gerais durante as  assembleias disfarçadas em saraus literários.

Quando os fatos passaram a ser apurados pelos governantes a investigação denominada "Devassa" de nome a essas reuniões de "Inconfidência Mineira".

Entre os "inconfidentes" havia, além dos nomes citados, havia figuras representativas da comunidade local, entre elas, o padre José da Silva de Oliveira Rolim.

Filho do principal tesoureiro de diamantes da região e notório fraudador do fisco, constatou-se que este padre burlava contas com ajuda do contratante de dízimos Domingos de Abreu Vieira.

Este, era o protetor da filha de Tiradentes, nascida de uma relação do alfares com uma mulher com a qual ele não quis se casar.

Joaquim Silvério dos Reis, apontado pelos historiadores como o "traidor", participava de fato, das reuniões, tendo sido ele efetivamente o grande delator dos planos, mas não foi o único.

Silvério dos Reis fez chegar a Luiz Antônio Furtado de Mendonça, o Visconde de Barbacena - governador da província - as informações da trama em troca do perdão de suas dívidas junto à Coroa, algo como uma "delação premiada".

Ainda assim, o principal denunciante dos inconfidentes, perdeu bens por causa do levante, mas obteve de volta uma fazenda que herdara do pai.

O alferes Silva Xavier participava das assembleias, mas em nenhum momento - apontam as atas - apareceu entre os líderes.

Mesmo assim, o desenho da bandeira de Minas Gerais com o triângulo vermelho em homenagem à Santíssima Trindade, foi feito por ele.

A inscrição dos versos em latim “Libertas Quae Sera Tamen” – "Liberdade Ainda que Tardia", do poeta romano Virgílio, foi ideia de Alvarenga Peixoto.


A bandeira sugerida por Tiradentes não foi a única apresentada, mas o desenho escolhido foi este


Outro trecho do livro da historiadora Mariana Dolci destaca que o alferes ficou encarregado de passar as ideias da conspiração ao povo de maneira reservada.

Por ser menos conhecido que os outros e por oferecer serviços dentários teria assim o pretexto de visitar as residências e expor os ideais de independência.

O que ficou acertado?

No dia marcado para a derrama, quando os representantes do fisco passassem de porta em porta para arrecadar os valores, Tiradentes sairia às ruas conclamando o povo para um protesto.

Assim que os Dragões de Minas fossem chamados para abafar a agitação, o comandante da tropa, Freire de Andrade, se atrasaria.

Isso para dar tempo ao alferes Tiradentes se dirigir à residência do governador e prendê-lo.

A hipótese de morte ao governador, com sua cabeça levada ao comandante dos Dragões de Minas também foi levantada, mas não fica bem claro na documentação pesquisada que, de fato, isso seria feito.

Após a prisão, seria proclamada a República e lida uma declaração de Independência para Minas Gerais em relação a Portugal.

Logo após, se buscaria a adesão do Rio de Janeiro e de São Paulo para a formação de um Estado único e independente.

Empolgado, o alferes deu início à missão de informar o povo sobre as intenções do movimento.

Ocorre que passou a falar não apenas dentro das casas, mas também nos que frequentava assiduamente, tabernas e bordéis.

Chegou a ser advertido para ser menos veemente em suas palavras, mas entorpecido pelo entusiasmo manteve-se falante. 

Isso levou aos mais temerosos se afastarem dele.

Não se sabe ao certo como era o rosto de Tiradentes, a figura mais próxima é essa: J. Washt Rodrigues/1940

Estrategicamente, a data da derrama foi adiada pelo governo e alguns inconfidentes começaram a aplacar seus ardores.

Tiradentes seguiu irredutível viajou para o Rio de Janeiro decido a levar adiante as propostas, mas ao chegar foi preso.

Sucessivamente outros 11 envolvidos foram encarcerados e conduzidos de Vila Rica para o Rio de Janeiro.

Todos negaram participação e assim também fez de início o alferes Joaquim José da Silva Xavier.

O processo durou três anos e após inúmeros interrogatórios, torturas e acareações, Tiradentes abarcou para si toda a culpa, dizendo ter comandado o movimento.

Não se sabe ao certo porque fez isso, mas tal atitude fez dele o grande herói venerado pelos historiadores que primeiro levantaram os autos.

Seu enforcamento aconteceu no Largo da Lampadosa, no Rio de Janeiro, hoje Praça Tiradentes.

Na pintura de Oscar Pereira da Silva/1940, Tiradentes é visto com a corda que iria enforcá-lo

O que aqui está escrito, é apenas um breve resumo do livro de Mariana de Carvalho Dolci com mais de 200 páginas, rico em ilustrações e farta documentação.

Quem fizer a leitura de maneira minuciosa não irá se arrepender.

A definição da historiadora Mariana de Carvalho Dolci é que, “ainda há muito mais para se estudar sobre Tiradentes”.

Quanto ao nosso ponto de vista. Tiradentes é verdadeiramente um "Herói Nacional" por levar em conta em primeiro lugar, o bem da nação.