sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Luiz Gama, “Zumbi da Pauliceia”

São Paulo tem histórias importantes ligadas aos negros que pela força do preconceito e outras razões ficaram durante anos no esquecimento.

O Dia da Consciência Negra foi instituído para que se reflita e se relembre acontecimentos que ajudam reforçar a ideia de que todos os seres humanos possuem direitos iguais, independentemente da cor ou da raça.

Parece óbvio, mas a discriminação racial embora velada, ainda predomina em vários segmentos de nossa sociedade

Luiz Gama, viveu e morreu em São Paulo e a meu ver deveria ser chamado de, “Zumbi da Pauliceia”.

Foi o único intelectual negro do século 19 que passou pela difícil experiência de ser escravo.

Nasceu em 1830, em Salvador – Bahia, filho de uma negra liberta de origem africana chamada Luiza Mahin, com um pai branco português.

Aos 10 anos foi vendido ilegalmente como escravo pelo próprio pai e nesta condição chegou a São Paulo.

Interessado em estudar, aprendeu a ler e escrever com 17 anos, ainda na condição de escravo, com a ajuda do jovem estudante de Direito, Antônio Rodrigues do Prado Junior.

Depois por esforço próprio obteve autorização para assistir as aulas do curso de direito na Academia do Largo São Francisco, na condição de “ouvinte” e deste modo, passou a trabalhar como rabula, termo usado para definir aquele que possuía conhecimento jurídico suficiente para advogar, mesmo sem possuir diploma.

Pela via judicial, ele próprio conseguiu conquistar sua liberdade e posteriormente de muitos outros escravos.


Lutando quase que sozinho, conseguiu a soltura de aproximadamente 500 cativos e percebam, foi um feito notável, se considerarmos que agia exclusivamente com o uso da lei.

A sua morte aos 52 anos, causada pelo diabetes, comoveu a cidade de São Paulo e o caixão foi carregado pelo povo que seguiu a pé, desde o bairro do Brás onde morava, até o cemitério da Consolação.

O féretro foi acompanhando por quase quatro mil pessoas, quantidade correspondente a 10% da população da época.

Seu sepultamento aconteceu, em 25 de agosto de 1882 e diante do túmulo, onde só existe uma placa com sua data de nascimento e morte, se fez uma tribuna improvisada e se deu voz a discursos emocionados.

Um de seus amigos, Antônio Bento, promotor público e depois juiz, de cor branca e abolicionista, continuou seu trabalho pela libertação de todos os escravos da Província de São Paulo, cuja abolição completa aconteceu antes ainda da assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel.

São acontecimentos importantes, vividos na capital paulista que não podem ser esquecidos.

Na década de 1930, em comemoração ao centenário do nascimento de Luiz Gama, um busto em sua homenagem foi instalado no Largo do Arouche, pago na ocasião pela comunidade negra da cidade.


Em 2015, a OAB reconheceu Luiz Gama como advogado e o reconhecimento dele, como profissional de imprensa, se deu em 2018 por iniciativa do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo.

Seu nome consta no Livro de Ouro dos Heróis e Heroínas da Pátria do Panteão Tancredo Neves, em Brasília.


Lançado em agosto último, com o título “Doutor Gama”, este filme conta a história do líder abolicionista brasileiro e segue em exibição nos cinemas.


Luiz Gama é nome de rua no bairro do Cambuci, em São Paulo e no bairro Maracanã, no Rio de Janeiro, além de outras cidades do país.


Este é o retrato original com o rosto deste herói brasileiro.



Fontes: Luiz Gama, a saga de um libertador/Pompeia,Magui/Peirópolis/São Paulo/1ª edição/2021/. Jornal Correio Paulistano – Arquivo do Estado de São Paulo e Jornal Unidade – SJPESP.

domingo, 14 de novembro de 2021

Luxuosa torre ao lado do antigo Hospital Matarazzo tem previsão para ser inaugurada em dezembro na região da Paulista

Tenho histórias pra contar sobre o antigo Hospital Matarazzo, depois rebatizado com o nome Hospital Humberto I.

Uma delas é que certa vez conduzi para lá, dentro de um carro de reportagem, um rapaz atropelado na avenida Brigadeiro Luiz Antônio por um motorista que fugiu.

Naquele tempo não havia serviços de resgate como hoje, nem do Corpo de Bombeiros, muito menos o Samu. 

Visitei naquele hospital uma senhora que ali morou por exatos 50 anos, deitada em uma cama.

Maria de Lourdes Guarda sofreu uma lesão medular, perdeu todos os movimentos do corpo, exceto dos braços e não podia nem ficar sentada ainda que fosse em uma cadeira de rodas.

Passou a vida toda hospitalizada, o centro médico se tornou sua casa. Acreditem: Os passarinhos faziam companhia a ela.

Todas as manhãs a janela de seu quarto era aberta e durante o dia, os pássaros entravam, assentavam na cabeceira da cama ou no fio da antena da televisão e dona Lourdes conversava com eles. Presenciei isso em uma visita.

Parecia estar dentro de um conto de fadas e se alguém viu isto também, peço a gentileza de confirmar. Sempre haverá os que negam existir acontecimentos inusitados e bonitos assim.

Outro grande companheiro da paciente era o telefone fixo com o qual ligava para as autoridades pedindo ajuda para o hospital ou para a entidade que presidia: Fraternidade Cristã de Pessoas Doentes e Deficientes.

Em 1993, devido a uma dívida financeira elevadíssima, o Hospital Humberto I fechou suas portas em definitivo, mas ainda assim, Maria de Lourdes Guarda seguiu morando ali, auxiliada por pessoas amigas. Diagnosticada com um câncer, foi transferida ára o Hospital Santa Catarina, onde permaneceu até o dia de sua morte no ano de 1996.

Recentemente os jornais trouxeram que toda a área em torno dos prédios do antigo complexo hospitalar entrou em sua fase final de restauração.

No lugar funcionará um empreendimento com o nome, Cidade Matarazzo.

Atrás do prédio da antiga maternidade, uma torre abrigará um hotel de 151 quartos para hóspedes e 122 suítes residenciais, com inauguração prevista para o mês de dezembro..

Dentro do mesmo terreno foi montado um boulevard, em torno dos novos e dos antigos edifícios que serão ocupados por escritórios, centro cultural, lojas e áreas de gastronomia e lazer.

Inaugurados em 1904 pela família do conde Francesco Matarazzo, os prédios do Hospital Humberto I, foram tombados em 1986 pelo patrimônio histórico.

Mas o terreno de 27 mil metros quadrados sempre despertou o interesse do mercado imobiliário, por estar na região mais valorizada da capital paulista.

Em 2011, o empresário Alexandre Allard, adquiriu toda a área que ocupa o quarteirão das alamedas Rio Claro, São Carlos do Pinhal e rua Itapeva. Pela compra, pagou mais de R$ 1 bilhão.

Para tocar seu empreendimento assumiu o compromisso de levar em conta a recuperação e a preservação do que foi tombado.

Allard decidiu então contratar para o projeto, o renomado arquiteto francês Jean Nouvel, que tem no currículo obras emblemáticas como o Instituto do Mundo Árabe, de Paris, a filial do Museu do Louvre, em Abu Dhabi e a Galeria Lafayette, de Berlim.

No sábado, 13 de novembro de 2021, o cardeal Dom Odilo Scherer celebrou missa em ação de graças pela conclusão das obras de recuperação da capela de Santa Luzia, construída pela família Matarazzo quando da fundação do complexo hospitalar

Durante entrevista, Allard informou que até agora foram investidos cerca de R$ 2,7 bilhões no megaprojeto, considerado o maior entre todos os que foram levados adiante pela iniciativa privada nos últimos anos em São Paulo.

Além do projeto arquitetônico que permite a convivência do antigo com o novo, a cidade irá ganhar a partir da abertura ao público, um novo ponto de geração de negócios, empregos, lazer e cultura.

Todos sairão lucrando, isso faz parte da inspiração paulistana de buscar o progresso voltado ao bem comum da sociedade.

Seguem abaixo algumas fotos dos projetos do arquiteto Jean Nouvel:

Filial do Museu do Louvre, em Abu Dhabe

Galeria Lafayette, em Berlim 



Fontes: Portal Cidade Matarazzo e Estadão Conteúdo

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Inaugurado o Parque Augusta: Por favor, frequentem

O Parque Augusta – Prefeito Bruno Covas, inaugurado na manhã do sábado, 6 de novembro de 2021, surpreendeu pela beleza do desenho paisagístico que realçou o contraste do verde com o concreto dos edifícios em sua volta.

Cerca de 700 árvores remanescentes dos jardins do antigo Colégio Des Oiseaux, inaugurado em 1907, foram preservadas.

A área ocupada pelo parque é de 23 mil metros quadrados, entre as ruas Augusta, Marquês de Paranaguá e Caio Prado e o custo para a implantação de toda a infraestrutura não saiu tão alto, R$ 11 milhões.

Ficou bonito? Sim, como apontam as fotos tiradas no dia da inauguração pelo amigo Eduardo Britto, defensor perpétuo da implantação deste parque.

Ele foi até lá e acompanhou a cerimônia de inauguração pelo prefeito Ricardo Nunes e ouviu também as reclamações sobre reforma da previdência municipal, cuja carta aberta fotografada pelo Britto pode ser lida no rodapé desta postagem.


No local foi criado um parquinho de diversão para as crianças, cachorródromo, arquibancada para shows.

Fizeram também corredores com corrimão, item este que me agrada bastante.

Conforme informações da prefeitura, foram preservados o bosque e os caminhos centenários do antigo colégio dirigido pelas freiras agostinianas do início do século 20, provenientes da Bélgica.

A instalação do Parque Augusta foi determinada pelo Plano Diretor de 2002, durante gestão da ex-prefeita Marta Suplicy, por sinal aluna deste colégio voltado à educação de meninas, cujo nome traduzido para o português significa, "Dos Pássaros".

O Des Oiseaux encerrou suas atividades em 1969 e o prédio da instituição foi demolido em 1974, quando então os novos proprietários se propuseram a construir um hotel com 1.400 apartamentos.

Depois a proposta foi mudada e se pensou em erguer um shopping center, mas em seguida veio a ideia de um boulevard de apelo cultural, só que a população moradora do entorno decidiu reivindicar um parque público.

Em 2010 ativistas fizeram uma grande manifestação em defesa da implantação de uma área dedicada ao lazer e descanso, mas os donos do terreno não aceitavam essa ideia.

Somente em 2018 a prefeitura chegou a um acordo com as construtoras envolvidas, ao oferecer em troca outros terrenos.

Ao todo foram mais de 20 anos de mobilização dos moradores e associações em defesa de um parque para revitalizar a região do Baixo Augusta.

Em São Paulo, entretanto, muitas decisões são tomadas para atender ao clamor político do momento e depois acabam  esquecidas.

Existem várias praças e até mesmo parques municipais na cidade em situação de abandono, depredados ou subutilizados para outros fins, inclusive como abrigo de moradores de rua.

Dai meu apelo logo na manchete deste artigo: Frequentem o Parque Augusta, mesmo depois dele deixar de ser uma novidade.

Foi a população da região quem pediu, mas os parques públicos se destinam aos moradores de toda a cidade, então visite.

O Parque Augusta - Prefeito Bruno Covas, vai funcionar diariamente das 5 às 21 horas e faço agora meu apelo.

Não permitam que mais uma obra pública depois de pronta fique esquecida como aconteceu com o Parque Ciência, da zona leste, e com o Parque Linear do Taboão, entre outros.

Durante a inauguração do Parque Augusta, enquanto pessoas dançavam ao som do maestro João Carlos Martins, outras reivindicavam mudanças na reforma da previdência municipal.

Ao que tudo indica, este novo espaço voltado à população já nasce democrático. Segue abaixo, foto da carta aberta à população entregue aos visitantes.


 Fontes: Portais Estadão e G1, agradecimentos a Eduardo Britto.


 

 

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Cop26 aponta contradições: No Brasil e no mundo famílias passam fome em meio ao desperdício de alimentos

A fome no mundo está na pauta dos temas a serem discutidos durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021 - Cop26, que acontece em Glasgow, na Escócia e prossegue até 12 de novembro.

Um relatório produzido pelo Institution of Mechanical Engineers, aponta que o mundo produz por ano cerca de 4 bilhões de toneladas de alimentos, para uma população estimada em 7,8 bilhões de habitantes em todo o planeta. 

Metade dessa população vive em centros urbanos e 50% da comida que consome se perde principalmente em razão do desperdício doméstico, ao mesmo tempo em que 2 bilhões de habitantes de todos os continentes, passam diariamente pela insegurança de não ter o que comer no dia seguinte.

Cálculos apontam que se não houvesse no mundo tanto desperdício, sobraria comida para alimentar a todos e ninguém passaria fome.


Em 1968, o compositor Geraldo Vandré, já alertava:
“...pelos campos a fome em grandes plantações...” De lá para cá, ao que parece, pouca coisa mudou. 

Em nossa postagem anterior, falamos de famílias inteiras perambulam pelo centro de São Paulo enfrentando, além da falta de moradia, a incerteza alimentar de cada dia. 

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura – FAO pretende levar aos líderes mundiais reunidos na Cop26 propostas para solucionar o problema da fome no mundo.


A FAO possui também estudos referentes ao Brasil que apontam a pandemia do coronavírus e a recessão econômica, entre as causas do agravamento da fome entre as famílias e as classes sociais menos favorecidas, muito embora comida em excesso continue sendo jogada fora por mero desperdício.

Em cada ano, os brasileiros colocam na lata de lixo 26,3 milhões de toneladas de alimentos em condições de consumo, muito embora 14 milhões de brasileiros passem fome, como apontam os números.

Segundo cálculos da FAO, o montante desperdiçado daria para satisfazer as necessidades nutricionais de 11 milhões de pessoas.

A Empresa Brasileira de Estudos Agropecuários - Embrapa, possui um levantamento feito em 2018, no qual aparece o desperdício de quase 1.300 kg de comida por ano, média aproximada de 41,6 kg por pessoa.

Conforme a Embrapa, os alimentos que mais vão para o lixo são arroz (22%), carne bovina (20%), feijão (16%) e frango (15%), ou seja, os ingredientes típicos do nosso PF.

Este mesmo estudo revela que o desperdício doméstico de alimentos no Brasil acontece pelos seguintes fatores comportamentais entre os habitantes:

77% - Colocam comida fresca à mesa diariamente jogando fora a sobra do dia anterior.

68% - Compram em quantidade acima do necessário para manter a despensa abastecida.

59% - Jogam fora as sobras da comida que ficou na panela, ou na travessa e ninguém da casa quis consumir.

56% - Preparam seus alimentos duas ou mais vezes por dia reiterando a ideia de que ‘é melhor sobrar que faltar’.

Um dos representantes da FAO no Brasil, Daniel Balaban, defende a organização de um trabalho por parte dos órgãos governamentais na forma de conscientizar as famílias para a mudança de seus hábitos de consumo.

Em relação à fome, Balaban propõe a criação pelas prefeituras de programas voltados à agricultura familiar e de orientações nas escolas sobre o consumo sustentável aos alunos.

Hoje mais do que nunca, o mundo e em especial o povo brasileiro, precisam unir forças para enfrentar os desafios da fome e dar apoio aos mais carentes.

 

Fontes: Agência Brasil, Akatu e Portal Embrapa





segunda-feira, 25 de outubro de 2021

“Famílias de Rua” transformam o Pátio do Colégio em moradia

Dias atrás em um passeio de carro quis mostrar a um jovem sobrinho a fachada da igreja do Pátio do Colégio.

Ao entrar de automóvel na Rua Boa Vista me impressionou a quantidade de pessoas em condições de abandono.

Notei que a população de rua em São Paulo adquiriu um novo perfil durante a pandemia. Existem agora as “Famílias de Rua”.

Pais e mães perderam o emprego e sem dinheiro para pagar as contas, deixaram a moradia e foram dormir com os filhos em barracas de lona no ponto onde a cidade foi fundada pelos jesuítas, em 1554.

É de cortar o coração. Anchieta ficaria abismado! Em vez de um passeio alegre, voltamos entristecidos para casa.


Lembrei das reportagens e entrevistas com representantes da Associação Viva o Centro, que fiz várias vezes para a Rádio Eldorado. Compareci, inclusive, na solenidade de lançamento, em 11 de outubro de 1991.

O plano era recuperar o centro histórico da cidade em 20 anos, o prazo esgotou-se em 2011.

Aconteceu que no meio do caminho, o Bank Boston, grande parceiro do projeto, foi adquirido por outros bancos e o patrocínio se extinguiu.

A associação ainda existe no papel, completou 30 anos recentemente, mas sem bala na agulha, ou seja, sem dinheiro, quase nada pode fazer.


Por outro lado de que adiantaria trazer de volta a paisagem do centro de outrora com centenas de famílias vivendo dentro dele no desabrigo?

A questão do urbanismo passou agora para um segundo plano, o que se espera no prazo mais rápido possível, é um reaquecimento na economia que possa gerar emprego e renda para esses pais e mães de família.


A maior cidade do Brasil pode ser considerada a que concentra maior número de famintos em todo o mundo, basta avaliar sua densidade populacional.



Durante os dias mais frios do inverno a prefeitura ofereceu sopas e cobertores aos moradores de rua, mesmo assim e muito pouco tamanha a gravidade da situação em que se encontram várias famílias.

O desafio de mudar esse quadro de degradação existente na cidade de São Paulo, não é só dos governantes, mas de todos nós, sociedade, que de alguma forma teremos que praticar a solidariedade em nome do bem comum, em relação a essas pessoas carentes até que a situação melhore. 

Nossa maior preocupação precisa ser em relação às crianças que estão vivendo, sem domicilio, sem escola, sem comida.

Do jeito que está, não dá para falar: “Viva o Centro!”

sábado, 16 de outubro de 2021

Fotos do Palácio da Justiça revelam o começo e fim da Praça Clóvis

Ganhei de presente um livro institucional raro, editado em 1990, que se chama "Palácio da Justiça São Paulo". A publicação se deu em comemoração aos 70 anos do lançamento da pedra fundamental para a construção do edifício situado na Praça Clóvis Beviláqua, s/n, no centro de São Paulo.


Os mais velhos, entretanto, sabem que a Praça Clóvis original, não existe mais. Foi engolida após a demolição dos edifícios em seu entorno para dar lugar à Estação Sé do Metrô.

 

Na foto aérea de 1951 vemos a sede do Tribunal de Justiça, a Praça Clóvis já construída e no entorno árvores, e os primeiros pontos de ônibus que depois tomariam conta do lugar. A Catedral da Sé seguia em construção e o prédio do Fórum João Mendes Júnior ainda não existia.


Os jardins da praça foram retirados no final da década de 1950, para aumentar o terminal de ônibus urbanos que pode ser visto no canto esquerdo desta fotografia acima onde o prédio do TJ-SP também aparece.

Recentemente ouvi de um senhor que estudou no Colégio do Carmo, Pedro Osvaldo Scattone, a informação que antes da construção da Praça da Clóvis existiam casas em frente ao Palácio da Justiça.

Fiquei curioso em saber como eram essas moradias e depois de conversar com meu amigo de longa data, Eduardo Britto, recebi dele o livro escrito por José Renato Nalini, com pesquisa iconográfica de Ebe Reale.

Esses dois, são meus colegas de Academia Cristã de Letras e Academia Paulista de História, respectivamente, o que me enche de orgulho.




Uma das fotos publicadas no livro é esta, de 1932, onde aparecem casarões defronte ao tribunal, prova que o sr. Scattone está certo em suas informações.

Na mesma fotografia aparece também uma espécie de playground. Reparem. Também dá para ver a Catedral da Sé em construção no lado direito acima. 

Pedro Scattone assistiu à demolição das casas em frente ao tribunal a partir de 1946 para dar lugar à Praça Clóvis Beviláqua, cujo nome faz homenagem ao jurista, magistrado, jornalista, professor, historiador e crítico literário, falecido no ano de 1944. Percebem como as datas coincidem?

Uma informação que não está no livro, transmitida pelo sr. Scattone, é que jornais da época noticiaram que durante as escavações para a abertura da praça, encontraram ossadas humanas que sugeriam a existência de um pequeno cemitério anterior às casas e até então desconhecido.

Nesta fotografia tirada do Palacete Santa Helena vemos uma Praça Clóvis arborizada, durante os anos 1960. Nada disso existe mais.

Quando da construção do Metrô, tanto o Edifício Mendes Caldeira quanto o Palacete Santa Helena foram implodidos durante o ano de 1976.


O resultado após as implosões foi este cenário parecido a um bombardeio.


No lugar da antiga Praça Clóvis, além das escadarias de acesso ao Metrô, foi construído um espelho d’água que há bastante tempo vem servindo de piscina e banho para os desafortunados da sorte que perambulam na região.


Ficaram como lembranças do antigo centro, somente a Catedral da Sé e o majestoso Palácio da Justiça, cujas atividades tiveram início em 1933 e uma segunda inauguração aconteceu em 25 de janeiro de 1942.

Precisei fotografar diretamente do livro duas fotos postadas acima, pois as mesmas quase inéditas não estão na internet.

O Palácio da Justiça, hoje considerado monumento histórico de valor arquitetônico e interesse cultural, foi tombado como patrimônio histórico em dezembro de 1981.

Acima aparece a capa do livro institucional Palácio da Justiça São Paulo.

Ressalto que nem todas as fotos aqui postadas saíram na publicação de 1990, quando ainda não existiam os recursos digitais que temos hoje.

Parabéns a José Renato Nalini e Ebe Reale pela publicação, e os meus agradecimentos a Eduardo Britto pelo livro de presente e a Pedro Osvaldo Scattone que fez um rico depoimento sobre a Praça Clóvis.

domingo, 10 de outubro de 2021

Estátua de José Bonifácio, “o moço”: Você sabe quem foi?

Com o reinício das aulas presenciais nas universidades, voltaram as indagações de quem circula pela parte interna da Faculdade de Direito do Largo São Francisco sobre a estátua de um ex-professor daquela escola que tem o mesmo nome do patriarca da independência.


Os estudiosos em história de São Paulo e do Brasil gostam de falar dele e de sua participação política importante em defesa da libertação dos escravos.


Defender publicamente a abolição da escravatura e depois ser convidado por Dom Pedro II para ser o “conselheiro – mor”, foi um privilégio que só coube a ele, José Bonifácio de Andrada e Silva, “o moço”, pertencente à segunda geração após os Andradas que lutaram pela Independência.
 

Era filho de Martim Francisco, irmão do “patriarca” e não foi só sobrinho, mas também neto de José Bonifácio de Andrada e Silva, que concedeu sua segunda filha legítima, Gabriela Frederica, em casamento com o tio.


Essas coisas do século 19 é que me deixam chocado, tio se casar com sobrinha e coisas assim, só para não se dividir a herança com outras famílias? Era o interesse pelo dinheiro se sobrepondo ao amor.

Mas do casamento do tio Martim Francisco com a sobrinha, Gabriela Frederica, nasceu “o moço”, mais tarde grão-mestre dos que passaram pela Academia de Direito.

O poeta Paulo Bomfim, que teria feito 95 anos em 30 de setembro, se ainda estivesse entre nós, costumava me falar a respeito de "o moço". Elogiava seus discursos e poesias românticas.

Nascido em 1827, na cidade de Bordeaux - França, por ocasião do exílio da família após dissolução da Assembleia Constituinte de 1823 por D. Pedro I, respondeu sempre como cidadão brasileiro.

O ano de seu nascimento coincide com a instituição dos cursos jurídicos no Brasil, que fizeram dele um orador aplaudido em sua época.


Sua mãe teve outros filhos além deste que se notabilizou na política, ao defender em pleno século XIX a instituição do voto para os analfabetos.

Mesmo no cargo de ministro manifestou-se publicamente, em 1864, a favor da libertação imediata de todos os escravos, sem indenização para os seus proprietários.

Depois, contou com o prestígio de Dom Pedro II, que chegou a convidá-lo para ser presidente do Conselho de Ministros, em 1883, cargo equivalente ao de primeiro-ministro no parlamentarismo europeu de hoje.

José Bonifácio rejeitou o cargo, acredito que antevendo a queda para breve do regime monárquico.

O apelido de “o moço” era usado para distingui-lo do seu tio e avô, José Bonifácio de Andrada e Silva, “o patriarca”. 



Na foto acima o vemos, já não tão moço. Contam que quando tinha 14 anos, ingressou na Escola Militar da Corte, de onde se afastou em 1846, sem terminar o curso.

Ao dar preferência a uma carreira civil, ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo e sua formatura aconteceu em 1853 quando tinha 26 anos de idade.

Depois foi professor na mesma instituição e teve alunos proeminentes na vida pública como Castro Alves, Joaquim Nabuco e Afonso Pena.


Rui Barbosa, visto na foto acima, foi um de seus maiores admiradores, a ponto de ter viajado para São Paulo com o objetivo de fazer um pronunciamento em sua homenagem ao "moço", após seu falecimento aos 59 anos, em 26 de outubro de 1886, cujo 
sepultamento aconteceu em Santos, a cidade dos Andradas.

Depois de ler essa crônica, quem estiver em São Paulo e for ao prédio da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, já saberá quem foi José Bonifácio, “o moço”.

Quanto a Rui Barbosa, é bem provável que nunca imaginou um dia ter uma tataraneta atriz de televisão, na Rede Globo.  Segue então, a foto.