sexta-feira, 24 de julho de 2020

Borba Gato está na mira dos manifestantes mesmo não tendo escravizado índios: Conheça a história


A História merece compreensão e não podemos enxergá-la apenas com os olhos da atualidade.

Os costumes e as sociedades mudam com o tempo e nada mais é igual ao período em que viveu o bandeirante Manuel Borba Gato, no Brasil do século 17. 

Nos meus tempos de repórter aéreo eu costumava chamar Borba Gato pelo rádio de "O gigante de Santo Amaro"
As manifestações contra o preconceito racial ocorridas após a morte do segurança George Floyd, asfixiado por um policial nos EUA, repercutiram no mundo todo.

Em Lisboa, por exemplo, a estátua do padre Antônio Vieira foi depredada porque na visão atual, o jesuíta está sendo acusado de colaborar com o colonialismo português.

O padre Antônio Vieira morou no Brasil tendo deixado escritos muitos de seus sermões de cunho político e social
Sobrou até para o Cristóvão Colombo, cuja estátua foi decapitada em Boston.

O descobridor da América convenceu o rei da Espanha de que a Terra era redonda e disse que navegando a oeste chegaria às Índias.

Seu raciocínio estava certo, mas esbarrou no continente americano e morreu sem saber direito o que havia descoberto e nem onde de fato tinha chegado.

O que os espanhóis fizeram depois com os nativos do novo mundo, não é culpa de Cristóvão Colombo.

Quem tem menos culpa nessas questões envolvendo preconceito é Cristóvão Colombo que viveu entre 1451 e 1506
Claro que a História é cheia de contradições e erros, assim sendo o que antes era motivo de glória, hoje se torna inadmissível.

A humanidade, por sua vez, sempre foi cheia de intrigas e discussões políticas. Isso acontece desde o surgimento do homo sapiens, mas houve casos no sentido inverso, como o de Tiradentes.

Enforcado e esquartejado como traidor da pátria mãe, Portugal, o alferes de Vila Rica é agora tratado com respeito pelas duas nações.

A linda estátua de Tiradentes em Ouro Preto, esculpida em granito e elevada em um pedestal com 19 metros de altura
A tentativa recente de se derrubar a estátua do Borba Gato, inaugurada no bairro de Santo Amaro, em 1962, serve para provar mais uma vez que o povo brasileiro não conhece sua história.

Ao contrário dos bandeirantes que o antecederam, Borba Gato não precisou escravizar índios, pois em seu período a procura era por ouro e pedras preciosas.

Nascido por volta de 1650, casou-se com a filha de Fernão Dias Paes, o caçador de esmeraldas que foi ao sertão sob as ordens do rei Dom Pedro II, de Portugal.

Fernão Dias morreu achando que havia encontrado esmeraldas que na verdade eram turmalinas de menor valor.

Pintura faz alusão à morte de Fernão Dias Paes sem ter encontrado as tão sonhadas esmeraldas

Borba Gato prosseguiu na missão iniciada pelo sogro e mata adentro foi criando núcleos e estabelecendo habitações. 

A cidade de Sabará, em Minas Gerais, foi fundada pelo bandeirante santamarense. 

Em sua busca descobriu minas de ouro na região onde hoje está o município de Pedro Leopoldo e mais adiante na atual cidade de Ipatinga.

Após a descoberta mandou que alguns integrantes de seu grupo voltassem para comunicar aos paulistas que ele havia encontrado ouro.

Foi então procurado por um oficial de Lisboa de nome, Rodrigo Castelo Branco, representante do rei de Portugal.

Disse que tomaria posse das minas de ouro e determinou que Borba Gato retornasse imediatamente a São Paulo.

O bandeirante não aceitou, argumentando que ele próprio iria a Portugal comunicar ao rei a sua descoberta.

Houve então uma briga entre os dois e na luta Borba Gato empurrou o emissário do rei a um abismo, causando sua morte.

O crime significava o mesmo que matar o próprio rei de Portugal.

Borba Gato decidiu continuar no mato onde ficaria escondido, mas em liberdade e não retornou a São Paulo.

Ficou 16 anos refugiado, morando entre os índios e neste período entre 1682 e 1691 não há relato de que tenha escravizar os indígenas.

Os governantes, entretanto, sabiam onde ele estava por informações dos que haviam viajado com ele. 

A decisão de localizá-lo partiu do então governador-geral do Brasil, Arthur de Sá Menezes.

Ele mandou entregar a Borba Gato, uma carta de perdão pelo crime praticado, desde que avisasse onde estavam as minas de ouro descobertas.

Como se percebe também nunca houve santinhos na História e depois dessa negociação Borba Gato retornou a Santo Amaro, sua cidade natal.

Tornou-se então uma espécie de mito entre os moradores, obtendo o título de “capitão do mato”.

O historiador Paulo Setúbal escreveu de forma romântica, “Borba Gato apaulistou o sertão”.

O genro de Fernão Dias viveu 66 anos e sua morte, em 1716, veio após a contenda entre bandeirantes e os emboabas, para a exploração do ouro em Minas Gerais, mas essa é uma outra história que fica para uma outra vez.

A imaginação dos historiadores deu aos bandeirantes os trajes de couro e chapéu, na verdade andavam quase mal trapilhos
A estátua do Borba Gato, no atual bairro de Santo Amaro, foi esculpida pelo artista plástico Júlio Guerra com quem tive a chance de conversar.

Ele nasceu quando Santo Amaro ainda era um município, em 1912, pois o decreto de transformação em bairro veio em 1932.

Na ocasião da entrevista - 1995 - Júlio Guerra me contou que o bandeirante foi um antepassado seu e que em família todos falavam dele como herói.

Sua inspiração para seguir a carreira de artista plástico veio para realizar seu sonho de esculpir uma estátua para aquele que tanto admirou sua infância.

Cursou a Escola de Belas Artes, tendo sido aluno de Victor Brecheret, autor do Monumento às Bandeiras, do Ibirapuera e de quem se tornaria depois assistente.

Victor Brecheret é outro que merece uma postagem exclusiva.

Em Santo Amaro inúmeros moradores sentem orgulho em dizer que conheceram o artista plástico Júlio Guerra
Pronta a escultura em granito e mármore, foi erguida e instalada na confluência das avenidas Santo Amaro e Adolpho Pinheiro.

Depois de inaugurada, a estátua começou a ser considerada feia.

Vários apelidos foram colocados nela: bonecão, boi parado e monstrengo, entre outros.

Virou também uma referência para todo tipo de encontro ou manifestação

A foto de 1984, ano do movimento pelas Diretas Já, serve de prova que o monumento a Borba Gato serve  de referência

Júlio Guerra morreu em 2001, meses antes do lançamento do meu primeiro livro: São Paulo de Todos os Tempos Volume I.

Nesta publicação recorde de vendas pela RG Editores as histórias de Júlio Guerra sobre Borba Gato, contadas em nosso programa de rádio foram transcritas.

Um capítulo exclusivo sobre a história de Santo Amaro, Júlio Guerra e Borba Gato estão presentes neste livro


















Desfigurar ou mesmo destruir uma obra de arte é considerado crime, além disso se faria uma injustiça a Júlio Guerra grande injustiça.

Quanto à História, esta pode e deve sim ser revista para o esclarecimento de fatos passados e presentes, mas sem violência.



sexta-feira, 17 de julho de 2020

José Paulo de Andrade fazia jornalismo sem preconceito: Conheça essa e outras histórias


José Paulo de Andrade será sempre um exemplo de como se faz bom jornalismo no rádio.

Foi ele o grande incentivador da maioria dos jornalistas que tiveram passagem por nossas emissoras ou que de algum modo estiveram em contato com ele no Grupo Bandeirantes.

Prova está na grande quantidade de postagens feitas pelos colegas, após seu passamento nesta sexta-feira, 17 de julho, contando acontecimentos interessantes da profissão, onde o mestre é citado, de modo carinhoso.

Não pensem, entretanto, que conviver com José Paulo de Andrade era fácil.

Intempestivo, sempre cobrou com veemência dos profissionais que atuaram com ele, qualidade nas coberturas e postura ética nas atitudes.

Não deixava barato e nunca o vi pedir desculpas a alguém. Depois sim, que a poeira baixava, vinha com um afago.

Conheci José Paulo de Andrade em 18 de maio de 1984, dia em que ele completava 42 anos, em uma roda de amigos

Convidado  para cobrir as férias de Ivan Quadros como repórter das estradas da Rádio Bandeirantes, em 1984, José Paulo se tornou para mim, com o passar do tempo, mais que um mestre. Foi quase um irmão.

Durante a internação do presidente eleito Tancredo Neves no Instituto do Coração, em 1985, o país acompanhava atento aqueles acontecimentos.

José Paulo não teve dúvidas ao me colocar posicionado em frente ao Incor, revezando com outros repórteres na busca de notícias.

Ele não levou em conta o fato de um paraplégico estar segurando o microfone de uma emissora tão importante como a Rádio Bandeirantes.

Neste momento em que se discute tanto a questão do preconceito, José Paulo de Andrade dava exemplo, 35 anos atrás.

Ele permitiu que eu entrasse naquela batalha em busca da notícia debaixo do sol, do frio e da chuva, durante 25 dias, como qualquer outro porque acreditou no meu trabalho.

Aquela cobertura talvez tenha sido a mais importante da minha carreira, pois me valorizou como pessoa e como profissional.

Senti que a partir dali, obtive mais respeito dos colegas dentro e fora da emissora, atuando com eles de igual para igual.

Chefias elogiaram na época meu poder de síntese. Fiquei feliz, claro.

Foto de 1985 mostra repórteres dando plantão em frente ao Incor ,aguardando notícias sobre Tancredo Neves 

Um dia precisei deixar a Rádio Bandeirantes para ganhar asas e voar.

Me transferi para a Rádio Eldorado, convidado que fui para ser o repórter aéreo, quando tal função se mostrava uma novidade.

José Paulo deu o contra na época, alegando que eu estava fazendo um caminho inverso.

“A Bandeirantes tem um prefixo mais forte que o da Eldorado e você pode depois se arrepender”, me explicou.

Aleguei que estava saindo para crescer, meu sonho era ser o José Paulo de Andrade da Rádio Eldorado.

Nessa emissora apresentei entre 1994 e 2008 um programa chamado De Olho na Cidade.

A finalidade desse programa, com início às 5 horas da manhã, era antecipar as notícias e a prestação de serviços antes que o Pulo do Gato e assegurar audiência para o Jornal Eldorado.

Antes da estreia telefonei para o José Paulo e contei que iria fazer um programa nos moldes daquele que o consagrou. 

"Você ficará com raiva de mim?" Perguntei

Do outro lado da linha, o mestre sorriu e disse: "Absolutamente"!

Me desejou boa sorte e brincou: "Vou chamar teu programa de Pulinho."

Vez por outra ele me telefonava perguntando: “Como vai o Pulinho”?

Foto tirada em 1995 durante apresentação do De Olho na Cidade, carinhosamente chamado pelo mestre de Pulinho

Nosso último contato pessoalmente aconteceu em 2018, no lançamento do livro de Claudio Junqueira: “Esse Gato Ninguém Segura – 45 anos de sucesso do programa de rádio”, obra onde sou citado.

Vi pela primeira vez naquela noite, um José Paulo emocionado com tantos admiradores em sua volta para saudá-lo.

Sentado ao lado do autor e do grande companheiro de tantos anos, Salomão Ésper, também me emocionei ao rever o mestre.

Quem também aparece nessa foto é Suely Longue, segunda esposa de José Paulo de Andrade, que bem soube cuidar dele após a efizema pulmonar que o acometeu durante anos, se agravando com a chegada do coronavírus
Nessa mesma foto, acima, está de pé ao meu lado, Thiago Uberreich, apresentador do Jornal da Manhã, da Jovem Pan. 

De fato, profissionais de todas as emissoras se congraçaram naquela noite para homenagear o líder de audiência de todas as manhãs.

Passei a seguir José Paulo de Andrade no Twitter e depois prosseguimos trocando ideias pelo Whatsapp.

Discordâncias entre nós sobre os assuntos de política voltaram a acontecer.

Rebatido com veemência pelo Zé, novamente senti nele a garra de quando era meu chefe e adorei aquilo. 

José Paulo de Andrade me foi apresentado por Alexandre Kadunc que ele chamava de "mestre de todos nós".

De lá para cá nossa amizade cresceu e se manteve. Sua ausência significa uma lacuna que jamais será substituída!

A frase é bem batida entre os radialistas, mas exprime uma grande verdade.

A falta dele na programação da Rádio Bandeirantes será sempre sentida, assim como se deu na perda de Vicente Leporace.

Depois de O Trabuco, veio o Jornal da Bandeirantes Gente, mas de agora em diante, os laços dessas tradições estarão para sempre rompidos.

Nossa querida emissora do Morumbi precisará buscar nova linguagem, um novo formato, nada mais será como antes.

No Rádio, ninguém sobrevive apenas da audiência, é preciso oferecer conteúdo à informação.

Exemplo recente é o da Rádio Globo/SP que se esvaiu mesmo tendo sido líder de audiência anos a fio, em São Paulo.

Essa é a tradicional logomarca dos microfones da Rádio Bandeirantes durante nossa passagem pela emissora

José Paulo de Andrade deve agora estar sendo recepcionado no céu pelos ouvintes que partiram antes dele.

Tieko Suma, é uma delas. Assídua ouvinte tem história especial.

Paraplégica como eu, certa vez me telefonou na Sala de Imprensa da Polícia Militar, onde dava plantão, pedindo para que eu a apresentasse ao José Paulo.

Fã do programa Pulo do Gato, queria conhecê-lo pessoalmente.

Liguei para o chefe que me autorizou levá-la a um evento onde ele estaria presente.

Fiz isso e me sinto honrado por ter cumprido para a Rádio Bandeirantes também essa tarefa. Tieko partiria logo depois.

Espero que agora haja um feliz reencontro deles lá nas alturas, onde os helicópteros não chegam, ao lado de tantos outros ouvintes. 

Saudades para sempre de Tieko Suma e José Paulo de Andrade, agora irmãos no céu. 





segunda-feira, 13 de julho de 2020

13 de julho: Dia do Mundial do Rock, festa dos “coroas”


Daria para imaginar que o Rock, considerado a mais ousada forma de expressão artística do século 20, se tornaria um ritmo que hoje agrada, na sua maioria, só os "coroas"?

Haverá vozes em contrário comentando a frase acima, eu sei. Mas aviso: 

Essa constatação não diz respeito só ao Brasil, mas também aos Estados Unidos onde o ritmo surgiu.

A Gibson, lendária fabricante de guitarras elétricas, anunciou já faz alguns anos que possui uma dívida girando em torno dos US$ 375 milhões. 

Sua maior concorrente, a Fender não costuma divulgar números, mas também enfrenta dificuldades.


Em nosso país, a preferência de boa parte dos jovens, tem sido pelo sertanejo universitário ou pela música dos rappers, mc’s e dj’s. 

Não vamos aqui discutir os motivos que levaram os jovens brasileiros do século 21 a essa preferência.

Informo apenas que de acordo com a Associação Nacional da Indústria da Música (Anafima), entre os instrumentos musicais, a guitarra é o que apresenta os piores resultados nas vendas. 

Comparando também ao número das importações de instrumentos, entre 2012 e 2017, as guitarras amargaram queda de 78%. 


Especialistas do setor avaliam que aprender a tocar um instrumento requer uma rotina que envolve dedicação e muitas horas de estudo, práticas e descobertas. 

Diante do imediatismo das novas tecnologias os adolescentes atuais preferem atividades que consumam menos tempo. 

Se não há interesse de quem queira tocar guitarra, o vendedor não tem para quem vender e o mercado sofre abalos.

Por essa razão, o mercado do rock passou a ser encarado como música de agrado aos “coroas”, ou seja, os que já passaram dos 50 anos.

Quem ainda procura por música na programação das rádios sabe que apenas emissoras segmentadas tocam rock.

O dia 13 de julho de 2020, nesta São Paulo de coronavírus, certamente está sendo lembrado na Galeria do Rock, no centro da cidade.


Mundialmente, a data passou a ser comemorada por causa do Live Aid, um festival de música idealizado, em 1985, por Bob Geldof, vocalista da banda Boomtown Rats.

A renda do show que reuniu feras do rock do mundo todo, foi revertida em prol dos famintos da Etiópia. 

Pela primeira vez roqueiros consagrados se uniram em uma causa conjunta e o festival acabou acontecendo com apresentações simultâneas nos Estados Unidos e na Inglaterra. 

Alguns artistas se apresentaram também em Sydney, Moscou e Tóquio. 

Foi uma das maiores transmissões de televisão em larga escala por satélite em todos os tempos, estima-se que 1,5 bilhão de espectadores, em mais de 100 países, assistiram às apresentações ao vivo.

O concerto teve cerca de 16 horas de duração, embora não tenham entrado nesse cálculo, as apresentações simultâneas entre os dois países e nem a soma dos horários dos shows nas outras três outras grandes cidades.


Bandas como o Queen, The Who, Black Sabbath e Led Zeppelin participaram.

Cantores como David Bowie, Mick Jagger, Bob Dylan, Tina Turner e Phil Collins deram as caras, além dos guitarristas B.B.King, Carlos Santana e Eric Clapton, entre outros.

A ideia de se criar o Dia Mundial do Rock, a partir desse acontecimento, partiu das revistas internacionais especializadas que cobriram o encontro.

De fato, a data pegou. Sendo assim, como roqueiro assumido que sou comunico: Faço parte de uma lista de coroas friorentos que espantam o reumatismo curtindo rock'n roll.

Deste modo preparei uma lista das 20 músicas que mais gosto de ouvir.

 As 20 melhores canções do Rock em Todos os Tempos

1. Bohemian Rhapsody- Queen
2. Stairway to Heaven - Led Zeppelin
3. Another Brick in the Wall – Pink Floyd
4. Johnny B. Goode – Chuck Berry
5. (I Can't Get No) Satisfaction – The Rolling Stones
6. Jailhouse Rock - Elvis Presley
7. Rock Around The Clock - Bill Haley & His Comets
8. She Loves You – The Beatles
9.  Like a Rolling Stone – Bob Dylan
10. Tutti-Frutti - Little Richard
11. Starman – David Bowie
12. Smoke on the Water – Deep Purple
13. Sunday, Blood Sunday – U2
14. Imagine - John Lennon
15. Notorious – Duran Duran
16. Cocaine – Eric Clapton
17. Sweet Child O' Mine - Guns N’ Roses
18. Owner Of A Lonely Heart - Yes
19. Smells Like Teen Spirit – Nirvana
20. Hey Joe – Jimi Hendrix

Assista agora um trecho da magistral apresentação do Queen no Live Aid



terça-feira, 7 de julho de 2020

Fotos que chegam das redes sociais ajudam contar a história de São Paulo a partir do Viaduto do Chá


Adoro fotos aéreas, mas admito que nem sempre se pode estar voando.

Deste modo, fotografias tiradas de lugares altos também ajudam elucidar um pouco mais da nossa história.

No passado, quando nem se cogitava existir helicópteros ou aviões, os fotógrafos buscavam lugares mais altos para fazer seus registros. 

Agora, em pleno século 21, o avanço da tecnologia está permitindo se recuperar fotos antigas, inclusive do século 19, no formato digital.

Tal possibilidade tem se mostrado sadia na elucidação de detalhes relativos ao crescimento da cidade de São Paulo.

O tempo presente já não segue sozinho no propósito da constante mudança.

O passado também está sendo modificado, graças à tecnologia.

Fotos antes esquecidas nos arquivos públicos ou dos jornais, estão ganhando vida e sendo estão postadas cada vez mais  na internet. 

Ao mesmo tempo o que dias atrás se mostrava atual já parece antigo tamanha a velocidade da informação.

Foto tirada em 2018 em algum andar do edifício sede da prefeitura, mostra abaixo do Viaduto do Chá, o antigo calçadão que sendo remodelado: Luiz França - CMSP
Em breve a região do Anhangabaú estará com um novo visual provando mais uma vez que as mudanças em São Paulo são vertiginosas e quase permanentes.

O ano de 1877 marca o início dessa ebulição desenvolvimentista.

São Paulo era considerada uma cidade grande para os padrões daquela época, mas sua população ainda era menor que a de Santos e Rio Janeiro, então a capital da nação.

Entre os paulistas os negócios prosperavam impulsionados pelo café e pelas ferrovias.

Cada vez mais pessoas buscavam na Pauliceia, ainda não tão desvairada, o seu sustento através do trabalho.

Foi nessa fase, inclusive, que os primeiros imigrantes europeus começaram a chegar por aqui.

Um empresário francês residente na capital paulista, Jules Martin, levou às autoridades a proposta de se construir um viaduto ligando o velho centro com o outro lado da cidade.

O Viaduto do Chá iria valorizar o mercado imobiliário, por facilitar o acesso aos terrenos destinados à implantação de novos bairros.

Foto feita do telhado de algum casarão mostra na linha do horizonte as estruturas do viaduto sobre as plantações de Chá

A proposta de construção foi aceita depois de longas discussões envolvendo todas as partes interessadas.

O grande empecilho, entretanto, foi o Barão de Tatuí, cujo nome de batismo era Francisco Xavier Paes de Barros.

Casado com a viúva do Barão de Itapetininga, dona das plantações de chá que deram nome ao viaduto, ele ingressou na justiça.

Seu grande objetivo e da esposa passou a ser, impedir a obra.

A construção do viaduto iria permitir a extensão da Rua Direita, cujo trajeto passaria sobre seu amplo sobrado que seria demolido. 

O casal endinheirado não gostou nem um pouco dessa ideia.

Foto de 1927 colorizada em computador mostra a estrutura metálica do Viaduto do Chá já reforçada por concreto tendo ao lado o então recém-inaugurado edifício Alexander Machenzie, sede da antiga Light & Power Company

A briga judicial ganhou as páginas dos jornais e a sentença, após inúmeras apelações, decidiu pela demolição do imóvel.

Este foi o primeiro caso de desapropriação noticiado pela imprensa na história da cidade.

Definida a construção do Viaduto do Chá, foi necessário se criar uma empresa municipal para gerenciar o andamento da obra.

As peças chegaram importadas da Alemanha junto com a armação metálica instalada sob medida.

Sobre ela foram colocados trilhos de bondes assentados não sobre o asfalto, mas em um piso de madeira.

Para pagar as despesas da construção um pedágio municipal de 3 vinténs foi instituído. 

A cobrança era feita tanto na ida quanto na volta. 
Foto de 1893 mostra na cabeceira do Viaduto do Chá, as cabines de cobrança de pedágio e suas cancelas

Foi essa a primeira experiência de pedágio urbano surgida na cidade de São Paulo.

A passagem pelo viaduto só se tornaria gratuita em 1897.

Todas essas fotos andam sendo postadas quase que diariamente nas redes sociais.

A qualidade do conteúdo histórico é surpreendente e, por causa dessas surpresas agradáveis preparei essa reportagem.

Estes registros do passado são de domínio público, mas faço questão de citar as fontes de onde tirei essas postagens.

O Grupo Memórias Paulistanas, gerenciado no Facebook pelo colega Pedro Nastri, tem trazido fotos interessantíssimas.

Nessa mesma rede social, outros memorialistas como o fotógrafo Gilberto Calixto Rios, o historiador Douglas Nascimento e o pesquisador Eduardo Britto, merecem citação.


A foto acima tirada provavelmente no início de 1892, da torre da Igreja de Santo Antônio, mostra a casa do Barão de Tatuí sendo demolida.

Vale complementar que a Igreja de Santo Antônio, segue de pé e conservada na atual Praça do Patriarca que nesse tempo ainda não existia.

Nessa mesma fotografia aparecem homens trabalhando na demolição e o Viaduto do Chá original ao fundo, sendo construído.

O córrego do Anhangabaú ainda seguia a céu aberto.

Este registro é curioso porque mostra nas proximidades um edifício de dois andares e cerca de 20 janelas.

Quem seria seu proprietário? Não sabemos quem era o dono e a que se destinava esse prédio.

O formato faz lembrar um colégio ou mesmo um convento.

A Rua Direita nesse tempo, terminava em frente ao sobrado do Barão de Tatuí.

Poeticamente poderíamos dizer: "Havia uma casa no meio do caminho, no meio do caminho havia uma casa", hehe.

A população comparece em massa para assistir a inauguração do Viaduto do Chá
No dia em que o Viaduto do Chá foi inaugurado, 6 de novembro de 1892, o povo ocupou quase todos os espaços.

Ainda assim é possível ver o assoalho em madeira do viaduto fazendo lembrar do piso de antigas casas.
-
Ao fundo temos a residência do barão e da baronesa, demolida em parte e a torre da Igreja de Santo Antônio, quase encoberta pela névoa.

Aquele prédio das várias janelas também está nessa foto.

Pena que o poeta Paulo Bomfim (1926-2019) já não está entre nós, ele saberia explicar a que se destinava esse antigo edifício.

Tenho certeza: Paulo Bomfim que faleceu em 07/07/2019 faz falta.

Foto de 1923 revela que as plantações de chá não existiam mais, o Anhangabaú estava canalizado e sobre ele um estacionamento entre jardins cobertos por grama e arbustos
O Viaduto do Chá original propiciava a circulação sobre ele de bondes, carros de passeio e pedestres.

Com o tempo, entretanto, a armação metálica mostrou-se insuficiente.

Fotografia de 1937 em uma manhã de neblina mostra o atual Viaduto do Chá sendo construído

Tirada no ano de 1937, em uma manhã de neblina, a foto mostra o atual Viaduto do Chá sendo construído.

O metal alemão e a sustentação em madeira já não suportava o peso excessivo e o volume de tráfego cada vez mais intenso.

O novo modelo em concreto teria o dobro de largura e 204 metros de extensão.

Sua entrega à população aconteceu em 18 de abril de 1938.

À direita da mesma foto, na parte de cima, vemos na esquina da Rua Líbero Badaró no lado direito, o Edifício Matarazzo sendo construído.

Inaugurado em 1942, o arranha-céu hoje abriga a sede da prefeitura paulistana e o gabinete do prefeito.

No lado esquerdo ainda aparece o Palacete Prates, antiga sede da Câmara Municipal, demolido durante a década de 1950.

A visão de um princípio de noite no final dos anos 1940 revela um Anhangabaú bem iluminado com carros estacionados e filas para o embarque nos pontos de ônibus
Com a chegada do século 21, o Viaduto do Chá prossegue servindo à população como passarela para os automóveis e pedestres, mas sem o grande de movimento de outrora.

Em breve, a parte debaixo do Viaduto do Chá, onde existe o bulevar projetado por Jorge Wilhein, terá um novo visual.

Manifestações populares costumam acontecer em frente ao prédio da prefeitura

Na fotografia de Ronaldo Rodrigues, repórter aéreo da Rádio Trânsito, de novembro de 2019 aparece o bulevar do Anhangabaú em obras.

Como diz o ditado: "São Paulo não pode parar".