quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

A cada 300 metros existe um rio canalizado em São Paulo

Todos os anos é a mesma coisa: inúmeras reportagens são apresentadas sobre as enchentes em São Paulo durante o verão.

Também pudera, existe uma imensidão de riachos escondidos debaixo do asfalto e quando chove eles ressurgem.

Nem mesmo a prefeitura possui números exatos, mas chega perto de 800 o número de córregos canalizados na capital paulista e outros 57 receberão canalização ainda este ano.

Pode parecer um sonho, mas se todos esses "riozinhos" estivessem seguindo seu curso natural e a céu aberto como estaria a nossa cidade hoje? Melhor ou pior?

O desenvolvimento urbano colocou os córregos debaixo do asfalto, a começar pelo Anhangabaú e, atualmente, são cerca de 3.600 km de galerias dando vazão a esses riachos que recebem à rede de esgotos da Sabesp.

Na maioria todos são afluentes dos três maiores rios da Grande São Paulo. Tamanduateí, Tietê e Pinheiros.


Na foto acima, a pintura Várzea do Carmo, de José Wasth Rodrigues, retrata o Rio Tamanduateí do passado com a presença de senhoras lavadeiras e mais acima, no alto da colina, o Convento do Carmo.

Como era cheio de curvas, quem chegasse em São Paulo, dentro de alguma embarcação com especiarias provenientes do Porto de Santos, precisava antes fazer as sete curvas entre a atual Avenida Dom Pedro I e a região do Glicério.

Depois desse emaranhado é que se chegava ao Porto Geral, desativado depois de uma obra gigantesca. Para esse serviço muitos homens, boa parte escravizados, precisaram escavar e depois transportar a terra no dorso de mulas.

Só assim transpuseram a margem do Tamanduateí para um lugar mais distante do centro e do lugar do primitivo Porto Geral restou apenas o nome da ladeira utilizada para se chegar nele.

O novo caminho recebeu o nome Rua da Várzea, depois Rua das Sete Voltas e a partir de 1865, Rua 25 de Março.

O Rio Tietê também era cheio de curvas e a partir da década 1940, sua paisagem começou a mudar. De espaço para o lazer de banhistas suas margens serviram à construção duas avenidas. 

Suas águas confinadas passaram a receber, além da poluição industrial, todo o esgoto produzido pela cidade e depois, na tentativa de remediar, surgiu um projeto de despoluição, mas a sujeira acumulada por décadas, parece não ter fim.

O Rio Pinheiros é outro que recebe as águas de afluentes canalizados e, portanto, não haverá como torná-lo totalmente limpo.

Apesar do intenso processo de decantação que deverá prosseguir para sempre, ainda ocorrem problemas de mau cheiro em alguns trechos e acúmulo de lixo.

Afluente do Tietê, o córrego Aricanduva, nasce no Pico do Cruzeiro, no extremo leste de São Paulo. Em épocas de chuva, ele costuma transbordar e causar alagamentos nos bairros onde passa.

Todos os rios citados nessa postagem são considerados doentes (ou quase mortos) pelo nível de degradação. Quando chove forte não há como reter as águas dos afluentes que circulam no subsolo.

Além disso com tantas vias pavimentadas, as enxurradas não têm para onde ir e, daqui para frente, com o solo cada vez mais sedimentado pela presença de tantos edifícios, as enchentes serão sempre cada vez maiores.

Seria melhor se os córregos não tivessem sido canalizados? 

Essa é uma pergunta difícil de responder e até mesmo de explicar porque São Paulo seria uma cidade muito diferente dessa que temos hoje, talvez mais voltada ao turismo e não seria a metrópole atual. 


 

 

Fontes e fotos: Prefeitura de São Paulo e Site São Paulo Secreto

 


8 comentários:

  1. 👏👏👏 ótimo artigo! Parabéns 👏👏👏

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  2. Sensacional e reflexivo artigo!
    Não seria a hora de acordar, ou, ainda há tempo para uma solução?
    Explica um pouco do questionamento de muitos: por que acontece enchentes ano após ano em São Paulo? A cidade com mais condições de recursos à mercê da natureza...
    Hora de refletir!

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  3. Perfeito. Sempre é cultura.

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  4. Sim, esses rios estão todos adoentados, e se fosse só dessa doença que a cidade sofresse... Mas não, é uma policomorbidade que afeta a cidade, a metrópole. Tem como reverter? Nada é impossível, mas pede muita, mas muita vontade mesmo. Coisa que a atual gestão municipal definitivamente não tem. Pensa em lazer e entretenimento, em telas de led na São João, em shows de rock na avenida Paulista, não em tratamento adequado para a situação mórbida da cidade.

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  5. Muitos grupos na sociedade estão preocupados com essas águas como o Rios & Ruas. Realizamos Passeios há mais de 20 anos abordando a temática de nossos riachos e ribeirões. Matérias boas como desse Blog e demais jornalistas têm chamado atenção para a cidade entre rios que é São Paulo. Com a palavra o poder público estadual que deveria nos prestar contas de suas atividades periodicamente. Nada sabemos. E precisamos apoiar indígenas urbanos que cuidam tão bem de nossas águas como em Parelheiros. Eles sabem, precisamos aprender.

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  6. Sim canalizar corregos é necessário desde criança morei na zona norte onde enfrentei uma enchente na vila Guilherme nos meandros do tiete! Não deu pra ficar lá ! A mudança foi para um lugar mais alto mas que passava um corrego embora a agua fosse limpa de fonte tinha até peixinhos , os pernilongos faziam a festa .A partir da década de sessenta tudo foi canalizado e o bairro ficou uma beleza valorizado e a densidade demográfica disparou ! Está uma beleza ! Muito próxima do bairro de Santana do metrô! Grata Geraldo por nos fazer sempre de São Paulo de todos os tempos! Kkk e

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  7. Plínio Vicente - Roraima27 de fevereiro de 2026 às 12:41

    Geraldinho, meu amigo querido. Convivi muito tempo com o córrego que cortava o Butantã. Ficava a céu aberto, não sei hoje, já se vão 40 anos. Já Boa Vista - RR, é uma capital privilegiada. Fica entre 2 rios - Branco e Cauamé - mas está situada num platô plano, sem morros nem encostas, o que faz com que os custos d'água fiquem em vales e mesmo que encham, jamais conseguem atingir a área urbana exceção feita ao Parque do Rio Branco, planejado para que quando da cheia, se transformar num recanto ecológico cortado por canais. No meio fica um mirante que a cada ano recebe mais e mais turistas que sobem no belvedere para usufruir a vista de um dos mais belos por do sol da Amazônia. Qualquer hora lhe mando fotos.

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