Nunca o anúncio do final de uma emissora causou tamanho impacto. A Rádio Eldorado saiu do ar para sempre à zero hora do dia 15 de maio de 2026.
Nem mesmo a Tupi, pioneira na mídia televisiva, que encerrou as atividades em 1980, mobilizou pessoas para pedir sua volta de suas atividades.
Justamente uma emissora de rádio, considerada de baixa audiência, conseguiu essa façanha.
Este acontecimento ficará para a história das comunicações no Brasil.
No caso da TV Tupi, o desenlace já era esperado, o
canal fundado por Assis Chateaubriand estava afundado em dívidas.
A Rádio Eldorado, por sua vez, nunca trouxe lucros expressivos, sempre foi deficitária.
A emissora foi criada para a missão de divulgar a cultura em seus vários segmentos, pautada sempre na
credibilidade do jornal O Estado de S. Paulo.
O Estadão, inclusive, anunciou em primeira página a
inauguração de sua rádio, na edição de 4 de janeiro de 1958.
Durante seus 68 anos de existência a Eldorado garantiu
ao Estadão o retorno afetivo de um público ouvinte formador de opinião, a rádio servia ao jornal o custo benefício de sua credibilidade.
Professores universitários de várias áreas, intelectuais,
acadêmicos, artistas, cientistas, enfim, até mesmo políticos demonstravam nas conversas serem ouvintes da Eldorado.
Ao longo das décadas todos os executivos que passaram
pelo comando do Grupo Estado souberam respeitar e manter a emissora por esses
aspectos.
Desta vez, entretanto, faltou sensibilidade aos atuais
comandantes do Estadão para compreender o prejuízo como custo-benefício para o jornal que nos domingos chegou a ter 400 páginas.
Atualmente, um de seus principais executivos é do Rio de Janeiro,
nada contra a cidade maravilhosa.
O motivo é que ondas da Eldorado nunca chegaram ao Rio e, por conseguinte, este executivo nunca ouviu e nem quis ouvir rádio, uma pena porque no RJ também há emissoras de qualidade.
Não dá para chamar este executivo de insensível, mas
podemos classificá-lo como desinformado. Então, para ele, um pouco de história da radiofonia paulista:
Durante os primeiros 25 anos, as transmissões pelo AM 700, levaram
ao público programas cujos locutores de vozes sóbrias, apresentavam músicas de
qualidade.
O jornalismo também acontecia nessa época com notícias
redigidas na própria redação de O Estado de S. Paulo.
A audiência sempre foi pequena, mas fiel, os diretores
sabiam disso e o jornal prosperava, em parte, por causa da rádio.
Em 1982 surgiu o projeto Nova Eldorado AM. sob o
comando de João Lara Mesquita.
Ele trouxe inovações também para a Eldorado FM na
frequência 92,9 MHz.
A Eldorado passou a dar exemplos para as emissoras
concorrentes pela capacidade de mobilizar a opinião pública.
Uma campanha pela despoluição do Rio Tietê foi
realizada e através de um abaixo-assinado se colheu mais de 1 milhão e duzentas mil assinaturas.
A mobilização se deu em um tempo em que ainda não havia
internet e sensibilizou o governo do Estado que implantou o Projeto Tietê, ainda existente.
Antes a Eldorado tinha trazido novidades, como o repórter aéreo na época em que ninguém sonhava com a existência do Waze ou do Google Maps para orientar caminhos.
Graças ao telefone celular, surgiram os
“ouvintes-repórteres” e a Eldorado passou a fazer um verdadeiro “show” de reportagens em torno da Grande São Paulo em todos os finais de tarde.
Partiu da Rádio Eldorado a iniciativa de defender o
fim da obrigatoriedade de retransmissão de “A Voz do Brasil”.
Todos os dias no horário das 19 horas, as rádios de
todo o país tinham que interromper sua programação para transmitir um
noticiário oficial existente desde os tempos da Ditadura Vargas.
João Lara Mesquita passou a questionar essa
obrigatoriedade no sentido de garantir a liberdade de programação no horário em
que ouvinte parado no trânsito mais precisava.
"Todas as concorrentes abraçaram a ideia na época,
menos a Jovem Pan", me contou João Lara, certa vez.
Atualmente, o programa oficial continua sendo de apresentação
obrigatória, mas seu horário foi flexibilizado.
Depois da saída de João Lara Mesquita, em 2003, a
Rádio Eldorado seguiu realizadora.
Propostas como o “Pintou Limpeza” para a reciclagem do lixo doméstico a partir de cada domicílio que hoje, é uma prática cotidiana surgiu pelos microfones da emissora.
Em 2008, quando a Rádio Eldorado comemorou 50 anos, a prefeitura
concedeu um terreno nas margens do Rio Pinheiros, para o plantio das 186
árvores.
Ao lugar, na época, deram o nome Bosque Eldorado, daquelas árvores se iniciou o que é hoje, o Parque Bruno Covas.
Em 2011 o projeto Rádio Estadão/ESPN transferiu a
Rádio Eldorado para a frequência 107,3 MHz, arrendada junto à Fundação Brasil 3000.
Com o fim da Rádio Estadão as frequências em AM 700 e FM 92,9 foram vendidas, mas a Rádio Eldorado prosseguiu na FM 107,3, bem no canto do dial, mesmo assim com ouvintes fiéis.
O “Jornal Eldorado” voltou ao ar em 2016, sob o
comando de Haisem Abaki e a participação de Carolina Ercolin.
Sintam a ironia do destino; Haisem Abaki receberia dias após o anúncio do fim das operações pelo Estadão, o Prêmio APCA como Melhor Profissional de Rádio - 2025/2026.
Todos reconheciam a excelência do trabalho que se levava adiante na Rádio Eldorado, menos a "alta cúpula" do Estadão.
As boas propostas continuavam através de seções como “O Verde é Pop”, do
botânico Ricardo Cardim.
O quadro “Vencer Limites”, com Luiz de Souza Ventura, voltado ao segmento PcD ganhou destaque na programação dos 107,3. Nunca houve no rádio alguém tão bem informado sobre este assunto quanto o Ventura.
A Eldorado FM dirigida por Emanoel Bonfim manteve uma
programação musical diferenciada das demais.
Graças a tantas propostas inovadoras, a emissora
continuou pequena, mas versátil.
Mais recentemente surgiu uma nova frase, “Não é algoritmo,
é Eldorado”, para mostrar independência musical.
A emissora fez questão de manter o slogan dos tempos
de João Lara Mesquita, “ A Rádio dos Melhores Ouvintes”, nada mais verdadeiro, por isso permanecerá nas lembranças.
Mesmo assim todos foram pegos de surpresa, funcionários e ouvintes ficaram perplexos quando veio a decisão abrupta do Grupo Estado.
O Estadão jogou pelo ralo uma pedra preciosa preservada durante 68 anos, quatro meses e 10 dias.
O anúncio do encerramento das operações mobilizou ouvintes
como a artista Nina Vogel que organizou um abaixo assinado e promoveu uma
manifestação maravilhosa na Avenida Paulista.
Rádio nenhuma obteve manifestação popular tão espontânea quanto essa, ocorrida na tarde agradável de um domingo, 3 de maio de 2026.
Depois disso, no fim de semana seguinte, mesmo diante da
fria garoa paulistana, o público se reuniu na “Casa de Francisca”, um espaço
cultural existente no centro da cidade para pedir: "Volta Eldorado!"
Na noite de 14 de maio a programação da Eldorado foi
especial com depoimentos dos atuais funcionários, como mostra a foto, e daqueles
que trabalharam na emissora ao longo das décadas.
A Rádio Bandeirantes ocupa agora a frequência 107,3 e
para conquistar novos ouvintes, criou um estúdio multimídia. Parabéns! Parabéns!
O Grupo Estado segue parado no tempo com seu jornal impresso ultra conservador e o Portal Estadão de colunistas de uma só tendência.
A Rádio Eldorado era o que havia de mais inovador e democrático no Grupo Estado e, respeitosamente, levava ao ar todas as manhãs a "Opinião do Estadão", na voz da locutora Andrea Machado.
Os executivos do Estadão não assimilaram
o crescimento da mídia radiofônica, após a pandemia, a partir das Redes Sociais
Pesquisas recentes do setor de áudio conduzidas pela
Kantar IBOPE Media, indicam que o rádio segue presente no cotidiano das
pessoas.
Em âmbito nacional o alcance chega a atingir cerca de
79% dos brasileiros.
A média expressiva de quase 4 horas por dia à escuta
do rádio, é uma realidade, diz a pesquisa.
Este resultado é significativo para a cidade de São Paulo onde a população perde horas paradas no trânsito ouvindo rádio dentro de seus automóveis.
Boas-vindas à TMC - Transamérica e à Nova Brasil FM que criaram equipes de jornalismo.
Saudações à CBN, Rádio Bandeirantes e Band News por manterem acesas as chamas do jornalismo feito no rádio.
O Estadão perdeu um nicho de mercado que na verdade
nunca soube explorar como deveria.
Como diz a canção; “...o tempo passou na janela e
só Carolina não viu”.















Realmente o fim de uma Era Geraldo
ResponderExcluirPeço o favor de deixarem o nome.
ResponderExcluirRui
ExcluirMuito triste Geraldo 😥 (Magda)
ExcluirGeraldo, parabéns pela retrospectiva da Rádio Eldorado.
ResponderExcluirParabéns, Xará! Bem colocado e é uma tristeza.
ResponderExcluirIrineu santos - pena acabarem com a Eldorado ! Muitos ouvintes ficaram sem opção! O rádio ficou meio pobre !
ResponderExcluirBom dia Geraldo Nunes; e no final quem ficou com a frequência 107,3, foi a rádio bandeirantes.
ResponderExcluirDei parabéns à Rádio Bandeirantes pela aquisição.
ExcluirImportante narrativa!
ResponderExcluirParabéns. Texto irretocável. Obrigado por compartilhar...e estou fazendo o mesmo, compartilhando com amigos do Facebook e WhatsApp.
ResponderExcluirRádio Eldorado, foi uma imensa voz que se calou . Lamento, muito!
ResponderExcluir“Preservar vozes e rostos” foi o tema escolhido pelo Papa Leão XIV para o 60º Dia Mundial das Comunicações. E sua mensagem, vai de encontro ao erro cometido pelo Grupo Estado que abruptamente decidiu silenciar a Rádio Eldorado.
ResponderExcluirAos que acabaram com a Rádio Eldorado envio a seguinte frase: “Dou valor às coisas, não por aquilo que valem, mas por aquilo que significam” - Gabriel García Márquez (1927-2014) escritor colombiano
ResponderExcluirValéria Rambaldi fiz parte por 12 anos dessa rádio maravilhosa onde aprendi muito, pude desenvolver minha criatividade através de pautas para os mais variados programas em que produzi. O querido Geraldo Nunes me deu a oportunidade de produzir os programas São Paulo de Todos os Tempos e depois o Brasil de Todos os Tempos .Foram programas incríveis com muitas curiosidades e histórias.Hoje não tem nenhum programa tão bacana quantos esses, mas é possível acompanhar através do spotify do Geraldo Nunes um pouco dessa trajetória linda.Obrigada Gera por me deixar fazer parte dessa história maravilhosa do rádio.
ResponderExcluirSim, o rádio segue presente no cotidiano das pessoas, mas a Eldorado se foi. Sentimento semelhante ao acontecido na TV Tupi, cujas novelas me aguardavam mais do que as da Globo. Bem, ficaram para sempre às boas lembranças, de programas raros como Um.piano ao cair da tarde, o Jô Soares jam session, e o seu São Paulo de Todos os tempos, que a sua sensível crônica foi modesta em não mencionar. Culturalmente a cidade empobrece. Assim a banda tem tocado... Valeu Geraldo!
ResponderExcluirMe agradavam mais, eu quis dizer.
ExcluirGrato pelo gentil comentário, caro Eduardo Britto. Não acredito que o Grupo Estado pelo menos tente buscar parcerias para trazer de volta a Rádio Eldorado. Se quisessem, teriam tentado antes. Esta foi a forma encontrada de se eximir de culpa, visto que não esperavam tamanha repercussão e a perda de assinaturas daqueles que também ouviam a emissora fiel ao Estadão.
ExcluirBom dia Geraldo ! Narrativa esclarecedora perfeita ! A sociedade nos impõe mudanças que nem sempre abarca todo o significado histórico prático e afetivo da cultura da rádio! Sim o som A reportagem e a voz da Eldorado fizeram parte da minha vida ! Tomara que a Banseirantes cumpra o mesmo papel !Marilene Ramos
ResponderExcluirAs pessoas que gostam de rádio sabem que o sentido da audição, fala ao coração. Obrigado Marilene Ramos pelo seu gentil comentário.
ExcluirJeferson Colombero - Aos antigos donos da Rádio Eldorado segue a seguinte frase: “Dou valor às coisas, não por aquilo que valem, mas por aquilo que significam” - Gabriel García Márquez (1927-2014) escritor colombiano
ResponderExcluirMinha lembrança da rádio Eldorado na década de 1970 ouvia com meu vizinho
ResponderExcluirUMA PIANO AO CAIR DA TARDE
Geraldo, meu caro amigo, parabéns pelo texto muito bom e esclarecedor. Eu tenho muita saudade da época em que ficava por horas ouvindo a Eldorado. Adorava tudo, inclusive o seu prefixo sóbrio e marcante. Realmente o bom rádio fica mais pobre sem a sua presença no Dial. Desde a minha adolescência, no meu pequeno rádio de pilha, a Eldorado sempre foi minha companheira. Embora em outros prefixos sempre a ouvi e admirei, assim como todos que se manifestaram e ainda lamentam pela sua perda.,
ResponderExcluirParabéns pelo texto, Geraldo. Pelo menos tivemos o prazer de vivenciar parte da história da Eldorado
ResponderExcluirMarcelo Cardoso
ExcluirMarcelo. Viva o Rádio!
ExcluirTenho novidades, me tornei colaborador do site Younik onde irei publicar textos em linguagem de rádio para serem lidos em voz alta. Assim, você treina locução e para tornar a brincadeira mais agradável demos à seção o nome: Microfone Imaginário. Acesse: https://younik.com.br/sao-paulo-resumo-do-brasil/
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