Pode parecer exagero, mas só
agora dá para entender por que o nosso mestre em História, Hernâni Donato (1922-2012), levou 70 anos para concluir sua importante obra; “Pateo do Collegio: Coração de São
Paulo”.
O livro lançado por este imortal da Academia Paulista de Letras, possui 280 páginas e foi publicado pela Edições Loyola.
A data da tarde de autógrafos aconteceu em 25 de janeiro de 2008, para assim saudar a cidade que ele tanto amou.
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O resultado é que quase nada do que existiu ficou preservado com exceção de uma parede esquecida durante séculos.
De tão precária a primeira construção do colégio, reproduzida na pintura acima, mostra como era frágil a construção quando da inauguração por Manuel da Nóbrega e José de Anchieta, entre outros.
O encarregado de realizá-la foi o padre Afonso Brás,
hoje considerado precursor da arquitetura brasileira.
Foi no ano de 1556 que Afonso Brás tomou para si a iniciativa de recolher terra úmida, rica em argila e areia, amassar e colocar tudo em fôrmas feitas com a madeira extraída dos taipais.
Para compactar socou múltiplas vezes com a ajuda
somente de um pilão manual.
Deu trabalho, mas a construção manteve-se firme anos a
fio e a esse método construtivo deu-se o nome “taipa de pilão”.
O tempo passou e começaram as brigas entre bandeirantes
e jesuítas, cuja ideia era catequizar e não escravizar os indígenas.
Os religiosos acabaram expulsos em 1640, retornaram 13
anos depois e, pela segunda metade do século 17, foi erguida uma terceira
edificação em taipa de pilão reforçada por pedras.
A réplica da igreja que temos hoje seguiu por base essa reconstrução de 1653, retratada na pintura de Benedito Calixto.
O desenho atual, entretanto, possui um telhado
perfeitamente alinhado e paredes lisas, algo impossível para aquela época.
Do que havia de antigo, só se preservou a parede encontrada por acaso na parte
interna da construção primitiva no momento da demolição.
Dentro da construção atual a parede foi mantida, por isso o Pátio do Colégio merece ser visitado.
Esses acontecimentos ajudam explicar por que o estudo da história do Pátio do Colégio deu tanto trabalho ao professor Hernâni Donato, eterno presidente de honra do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo - IHGSP.
Ele precisou desvendar os motivos das polêmicas intermináveis entre políticos, historiadores, arquitetos e
urbanistas, associados à falta de documentação que dificultaram as pesquisas.
Para se ter uma ideia da confusão, entre 1765 e 1896, o colégio dos jesuítas deu lugar à sede do governo paulista.
Um palácio foi construído e alterações foram feitas nos cômodos para abrigar as áreas administrativas.
Percebam acima, que a igreja e a torre seguiam
preservadas na fotografia de 1872 tirada no então Largo do Palácio.
Neste cartão postal do início do século 20 o mesmo Palácio do Governo se apresenta com outro formato arquitetônico, sem a presença da igreja e da antiga torre.
Em 1881 houve uma reforma significativa que deu feições europeias ao edifício e tal medida causou muita discussão.
Religiosos exigiram que a igreja e torre de 1653 fossem mantidas, isso aconteceu, mas sem a devida manutenção.
Com o passar do tempo a construção do século 17 ficou deteriorada e na iminência de cair.
Para que não desabassem torre e igreja ficaram escoradas
por caibros, como mostra a foto acima.
Em 1912 o governo de São Paulo adquiriu o Palácio dos Campos Elísios e lá instalou sua sede administrativa.
O antigo Palácio do Governo continuou de pé, sem a igreja, conforme mostra a foto tirada por volta de 1930.
Em frente já estava o monumento "Glória Imortal aos Fundadores de São Paulo", esculpido por Amadeo Zani, em 1925.
No ano de 1953 o Palácio do Governo de São Paulo foi demolido e a decisão ocorreu no início da década de 1950.
Como haveria as celebrações do IVº Centenário da Cidade de São Paulo, a comissão organizadora dos festejos, propôs a reconstrução do antigo conjunto histórico jesuíta.
Durante a demolição descobriu-se por acaso a grossa
parede em taipa de pilão que se manteve por séculos.
Historiadores e urbanistas intervieram por considerarem a parede uma relíquia arquitetônica.
A prefeitura acatou a sugestão e decidiu preservá-la.
Só não houve acordo em relação à data de aniversário da parede, alguns entendidos dizem ser de 1653.
Outros consideram ser até mais antiga, não dos tempos de Afonso Brás, mas de uma reforma realizada em 1585.
Decidida a preservação da parede, a mesma encontra-se agora protegida por
uma redoma de vidro.
Também durante as comemorações do IVº Centenário, a prefeitura devolveu a posse do terreno aos jesuítas.
A municipalidade também se comprometeu em reconstruir
os edifícios do colégio e da igreja.
Parte da obra de reconstrução ficou paralisada por falta de
verbas e a área em torno passou a servir de estacionamento, como mostra a foto
de 1969.
As polêmicas prosseguiram por questões diferentes como a ocorrida no início da década de 1970.
Foi apresentado o projeto de um arranha-céu com 20
andares a ser construído nas vizinhanças do Pátio do Colégio.
A ideia não seguiu adiante e, após sucessivos debates, ficou então definido que a prefeitura concluiria a reconstrução de acordo com a proposta original mostrada em 1954.
A foto aérea de 1979 aponta como ficou o Pátio do Colégio depois de pronto.
As obras de conclusão foram reiniciadas em 1974, na
gestão do prefeito Miguel Colassuono.
Recursos da prefeitura foram transferidos para a Sociedade Brasileira de Educação - Companhia de Jesus.
A empresa responsável pela conclusão do projeto foi a Construtora Adolpho Lindenberg.
Este pode ser considerado o rosto de como ficou o Pátio do Colégio reproduzido na pintura artística de Cristiane Carbone.
Torre e igreja foram reconstruídas e no prédio
anexo onde funcionava o antigo colégio, existe agora o Museu Anchieta.
Nele há um acervo que reúne cerca de 700 objetos expostos
em seis salas, além de uma biblioteca especializada em História
do Brasil e dos Jesuítas.
Do antigo Palácio do Governo restaram as portas que hoje servem de entrada ao prédio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo - IHGSP - Rua Benjamin Constant, na capital paulista.
Fontes: José Vignoli – pesquisador e
membro do IHGSP – Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Site oficial: www.vigplan.com.br
Site São Paulo Antiga: https://saopauloantiga.com.br/breve-historia-do-patio-do-colegio/
Roteiro Histórico da Região Central da
Cidade de São Paulo/Coccid – Comitê de Civismo e Cidadania da ACSP - Associação
Comercial de São Paulo/2021
Donato, Hernâni - “Pateo do Collegio: Coração de São Paulo”/Edições Loyola/1a. edição/São Paulo/2008
Pinturas reproduzidas via Google de
Benedito Calixto, J. Wasth Rodrigues, Clovis Graciano
Reprodução da pintura da artista plástica Cristiane
Carbone com autorização da autora
















